Seminário da ABC na UFMG
O reitor da UFMG e o vice-presidente regional da ABC organizaram evento com palestras dos Membros Afiliados da ABC eleitos em 2007 e em 2008 que pertencem aos quadros da universidade.
 
O maior espelho d'água e a maior biodiversidade do país

Mesmo numa região com esses atributos, o vice-presidente regional da ABC para a região de Minas e Centro-Oeste Francisco César de Sá Barreto preocupa-se com a Ciência na região e no Brasil.

     

Nanotecnologia: realidade e futuro

Com a produtividade em nanotecnologia crescendo exponencialmente, Luciano Paulino é um entusiasta de sua área de atuação. Ele descreve várias aplicações atuais dos conhecimentos existentes e prevê muito crescimento no futuro.

 

Eletrofisiologia: área difícil, mas muito promissora

Paulo Sérgio Beirão estuda canais iônicos e diz que é uma área que pode gerar um conhecimento revolucionário em termos de aplicações, como no desenvolvimento de novos medicamentos para tratar dores crônicas ou para tratar acidentes com venenos.

     

Uma pesquisadora multidisciplinar

Daniella Bartholomeu a credita que, na Ciência, esse é o caminho: o uso combinado de abordagens complementares, o estabelecimento de boas colaborações e a formação de recursos humanos em Bioinformática e Genômica, áreas recentes no Brasil.

 
O Brasil precisa de um Prêmio Nobel

Para chegar à inovação, Sergio Danilo Pena considera necessário um modelo de financiamento de pesquisa que dê liberdade a pesquisadores gabaritados para que partam de uma boa idéia inicial e deixem os projetos evoluir de forma darwiniana.

     

Da propagação de doenças até os jogos de azar

Tanto a propagação de epidemias como a prospecção de petróleo pode ser estudados como modelos percolativos. Mas a probabilidade, área do jovem matemático Bernardo N. B. de Lima, da UFMG, também pode ser útil no cálculo de resultados de futebol.

 
Oportunidades de sobra para matemáticos no mercado

Segundo Keti Tenenblat, hoje em dia algum conhecimento em Matemática é essencial em quase todas as áreas de conhecimento. O matemático pode dar suporte a outras áreas, mas falta informação sobre esse leque de possibilidades.

     

Da boa ciência à inovação tecnológica

Construir esta ponte é a questão colocada para o Brasil hoje, na opinião de Ado Jório de Vasconcelos, físico que estuda os nanotubos de carbono utilizados em vários setores da indústria.

 
Cientistas hoje já falam a linguagem da tecnologia

O Acadêmico Ramayana Gazzinelli considera que nestes seus 50 anos de Ciência viu o Brasil ficar cada vez mais capaz, principalmente pelas possibilidades atuais de colaboração entre ciência e tecnologia.

     

Pelo estímulo à dúvida e à curiosidade

O engenheiro José Alexander Araújo diz que em geral o ensino brasileiro ainda é focado no professor e não no aluno, baseado em ouvir e não em fazer, o que não incentiva o espírito científico.

 
Um partidário da interdisciplinaridade

Segundo o Acadêmico Evando Mirra, a inovação é hoje a grande responsável pela riqueza gerada nos países avançados, e embora ocorra nas empresas envolve processos complexos de interação com a sociedade.

     

O geólogo tem que ser repórter da Natureza

O Acadêmico Eduardo Ladeira explica que grande parte do trabalho da Geologia envolve extensivos trabalhos de campo e de laboratório cuja divulgação depende do talento do profissional para explicar sua ciência.

 
Computadores e tecnologia estão em todos os lugares

O Acadêmico Virgílio Almeida diz que hoje existe uma camada entr e a natureza e a sociedade formada pelas máquinas e pelas redes que possibilitam a inter-relação entre as máquinas e as pessoas, o que causa diversos impactos.

     
   
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Notícias da ABC - Ano II - nº 38 - 21 de agosto de 2008 
 
 
 

Responsável:
Elisa Oswaldo-Cruz - elisa@abc.org.br

   
 
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  Seminário da ABC na UFMG


O reitor da Universidade Federal de Minas Gerais, Professor Ronaldo Tadêu Pena, e o vice-presidente regional de Minas-Centro-Oeste da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Francisco César de Sá Barreto organizaram o 2º Seminário da ABC na UFMG, realizado no dia 11 de agosto. O primeiro foi realizado em homenagem à falecida Acadêmica Conceição Machado, cujo nome batizou, na ocasião, uma das ruas da universidade.


Jacob Palis e Francisco César de Sá Barreto

 

Na abertura, César Barreto explicou que a proposta de indicação de até cinco jovens Membros Afiliados à ABC a cada ano, por cinco anos não renováveis, foi uma idéia do presidente da ABC, Jacob Palis, que ainda não foi incorporada ao Estatuto da Academia mas já está em pleno andamento. Uma proposta de alteração de estatutos deve ser lançada dentro em breve.

O vice-presidente regional da ABC para a Região Minas - Centro-Oeste destacou que espera até mais dos jovens Membros Afiliados do que dos mais antigos. “Vocês têm mais energia para organizar eventos, que poderiam ocorrer durante todo o ano, para que possamos mostrar a qualidade da Ciência que é feita na nossa região e no Brasil.”

Em seguida aos cumprimentos do reitor, foi iniciada a série de palestras, começando com a do presidente da Academia Brasileira de Ciências, Professor Jacob Palis, sobre “Sistemas Caóticos e a Presença da Incerteza nos Modelos Matemáticos”. Palis propôs-se a falar de sua área de pesquisa de forma acessível a um público heterogêneo. Segundo o matemático, a incerteza é muito presente nos modelos matemáticos e, como dizia Galileu, os fenômenos da natureza são escritos em linguagem matemática. Podemos confirmar essa idéia observando os avanços, por exemplo, da Física e mais recentemente da Biologia, que a cada dia se aproxima mais da Matemática.

Ele trabalha com sistemas evolutivos, isto que se transformam com o tempo, sobre os quais se quer saber o que está por vir no futuro . Palis deu como exemplo os modelos climáticos. Destacou que todos sabem que não é possível ter precisão absoluta sobre a previsão de eventos climáticos. “É um fenômeno complexo que envolve diversas variáveis estima-se o que poderá ocorrer no futuro que parte dos dados que se tem no momento presente. A incerteza não ocorre porque os conhecimentos sobre clima sejam poucos ou insuficientes, mas porque ela é intrínseca aos fenômenos da natureza, assim como aos modelos matemáticos”, explicou o cientista.

Palis referiu-se a um notável matemático e um notável físico do final do século XIX, Henri Poincaré e James Maxwell, que levantaram a questão de que pequenas variações num determinado parâmetro podem gerar grandes mudanças. Em 1963, Lorenz, que era um matemático climatologista, propôs um modelo sobre o clima que tinha um número infinito de variáveis.

Ele simplificou esse sistema de maneira inteligente e caiu em um outro tridimensional, no qual observou que se houvesse uma pequena variação no ponto inicial das trajetórias elas se separariam no futuro, indicando uma perspectiva diferente, o que sugere algum grau de incerteza em relação ao clima, independente do modelo e do ponto de partida. Se o atrator, isto é, o objeto tridimensional onde se acumulam as trajetórias no futuro , fosse um ponto, as trajetórias não se separariam. O grau de incerteza, explica Palis, corresponde ao diâmetro deste atrator.


Figura do atrator
(borboleta) de Lorenz, 1963
  Correspondendo a esse atrator, Lorenz observou que duas trajetórias, mesmo iniciando-se em pontos muito próximos do espaço, aproximam-se do atrator podendo, com o mesmo tempo de percurso para ambas, ocupar pontos diametralmente opostos em relação à figura. Daí surgiu uma frase que se tornou clássica na comunidade científica: se uma borboleta no Rio de Janeiro bater suas asas, o efeito será sentido em Tóquio. “Claro que a perturbação é tão pequena que ninguém em Tóquio vai perceber, a não ser que se produza um mega trovão no Rio de Janeiro”, esclarece Palis.

A conjectura proposta por Palis é que para sistemas que dependem de parâmetros, para a maioria de valores dos parâmetros, haverá apenas um número finito de atratores que atrairão a maioria das trajetórias no espaço de eventos. Os atratores devem apresentar um certo grau de estabilidade, denominada estabilidade estocástica. Esta proposta já perdura há 13 anos sem contra exemplos, registrando-se uma série de resultados parciais positivos obtidos por matemáticos brasileiros e de vários outros países.

Seguiram-se então as palestras dos Membros Afiliados da ABC e professores da UFMG.

O físico Ado Jório de Vasconcelos, eleito Membro Afiliado em 2007, falou sobre os desafios da ciência e aplicação dos nanotubos de carbono. Ele diz que encontra em sua área dois desafios principais: o da Física propriamente dita e o de transformar esse conhecimento em aplicações voltadas para a sociedade. Seu perfil está mais aprofundado em matéria abaixo.

Ele explicou o que são os nanotubos de carbono – “eletrodos de grafite bombardeados com laser, descargas elétricas ou outra forma de calor, cujo carbono é vaporizado numa região com partículas catalisadoras que vão absorver esse carbono e fazer nascer dali um tubinho”. Estes tubos podem ser metálicos ou semicondutores, podendo assim transportar ou não corrente elétrica, sendo que cada tipo tem aplicações potenciais diferentes.

Para exemplificar as dimensões de um nanotubo de carbono, Jório diz que uma bola de futebol precisa ter seu tamanho multiplicado por 108 para chegar ao tamanho da terra, e que a proporção entre o nanotubo e a bola de futebol é a mesma. A técnica utilizada para observar, analisar e lidar com os nanotubos é a espectroscopia Raman, que vem tendo um desenvolvimento bastante acelerado no final do século XX. As propriedades dos nanotubos variam de acordo com seu diâmetro.

Atualmente, no Brasil, os nanotubos de carbono já vêm sendo utilizados, por exemplo, em aditivos para baterias e cateteres biomédicos. Para os próximos dez anos, estão previstas aplicações em emissores de luz, emissores de elétrons, sensores e memória eletro-mecânica, entre outras. “Em longo prazo, a partir dos dez anos seguintes, já usaremos nanotubos de carbono em cabos de transmissão, nanoeletrônica, sensores biológicos e sistemas de drug delivery”, concluiu Jório.

 

O novo Membro Afiliado eleito em 2008, Antônio Lúcio Teixeira Junior, do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMG, tratou da fisiopatologia e biomarcadores da neuroinflamação.

Teixeira definiu o que é inflamação: uma resposta fisiológica complexa (dor, rubor, calor, edema) que tem como finalidade reparar o dano tecidual determinado por fatores infecciosos, traumáticos, isquêmicos. “Caracteriza-se pelo extravasamento de plasma e pelo acúmulo de leucócitos no tecido, que formam o edema”, explicou Teixeira.

O pesquisador discutiu mecanismos de recrutamento celular, apresentou diferentes modelos de neuroinflamação e referiu-se especialmente às doenças que pesquisa, como a coréia reumática, as mielopatias inflamatórias e a esclerose múltipla. Teixeira destacou o papel das quimiocinas, foco de suas pesquisas, que são citocinas envolvidas com o recrutamento de células no processo inflamatório e que podem ser utilizadas como marcadores do diagnóstico de determinadas doenças, marcadores de gravidade e prognóstico, além de controle de tratamento.

Em seguida,  Bernardo Nunes Borges de Lima, Membro Afiliado indicado em 2007, do Departamento de Matemática da UFMG, apresentou palestra sobre percolação, que segundo o Dicionário Aurélio é a operação de passar um líquido através de um meio poroso, para filtrá-lo ou para extrair substâncias desse meio. O trabalho de Bernardo está apresentado com mais detalhes em matéria a seguir, pois ele é um dos entrevistados deste Especial das Notícias da ABC.

Daniella C. Bartholomeu, do Departamento de Parasitologia da UFMG, também foi indicada como Membro Afiliado da ABC em 2007 e, portanto, é uma das entrevistadas deste Especial, como visto em matéria próxima. No Seminário, discorreu sobre estudos pós-genômicos com o parasito Trypanosoma cruzi. Este parasito é o agente etiológico da doença de Chagas, que atinge hoje de 15 a 17 milhões de pessoas. Na fase crônica, 30% das pessoas infectadas desenvolvem manifestações clínicas. Na fase aguda, a doença pode ser fatal em até 10% dos casos graves, podendo a morte ser causada por complica çõ es card í acas, megacolon ou megaesôfago.

“As drogas usadas no tratamento são pouco efetivas e ainda não há vacinas disponíveis”, explica Daniella. “A manifesta ção e a severidade da doença são altamente variáveis, algumas pessoas passam anos contaminadas e não desenvolvem nenhum sintoma, dependendo da genética do hospedeiro e da genética do parasito.” A doença foi descrita pelo falecido Acadêmico mineiro Carlos Chagas em 1909, tendo sido este um dos raros casos na história da Medicina em que um pesquisador sozinho conseguiu desvendar todos os aspectos de uma doença.

A definição do conteúdo gênico do T.Cruzi e de dois outros parasitos em 2005 acrescentou novos conhecimentos à área de pesquisa de Daniella. Foi identificada a expressão de grande quantidade de proteínas de superfície no T.Cruzi , que facilita sua penetração nas células. “Foi descoberta inclusive uma nova família de proteínas de superfície no T.Cruzi, denominada MASP, cuja expans ão massiva no genoma do T. cruzi sugere que a família desempenhe um papel importante na biologia do parasito, conta a pesquisadora.

Daniella destacou que a localiza ção celular de MASP e seu padrão de expressão sugere que essa família de proteínas possa estar envolvida na interação parasito-hospedeiro. Embora o conhecimento sobre o T.Cruzi tenha sido bastante ampliado nestes últimos anos, que se sabe até agora sobre o assunto é a ponta de um iceberg que ainda está por ser conhecido, concluiu a cientista.

 

Indicado em 2008, Marcos Gonçalves, do Departamento de Ciências da Computação, falou sobre gestão da informação em grandes repositórios de dados multimídia.

Como será visto na última matéria desse Especial, com o Acadêmico Virgílio Almeida, o tema de Marcos Gonçalves é o primeiro dos cinco grandes desafios da Ciência da Computação para o período de 2006 a 2016.

Gonçalves considerou que cada vez mais se captura dados da natureza, que são disponibilizados em sistemas de informação computacionais. “Como viver, trabalhar, ter lazer

e evoluir nesse universo informacional? Como tornar isso um ganho para a sociedade?”, pergunta o cientista. O objetivo de sua pesquisa é desenvolver soluções para o tratamento, a recuperação e a disseminação de informação relevante, a partir de volumes exponencialmente crescentes de várias modalidades de dados, incluindo multimídia.

As soluções possíveis para enfrentar esse desafio em Ciência da Computação envolvem algoritmos e estruturas de dados, que formam o núcleo desta ciência. Algoritmo é a descrição de um padrão de comportamento, expresso em termos de um conjunto finito de ações. É implementável como conjuntos de instruções de máquina, manipulam dados. As estruturas de dados são a representação organizada dos dados para fins de manipulação eficiente.

Os focos principais da pesquisa de Gonçalves são as teorias e métodos para sistemas de informação complexos, no caso as bibliotecas digitais, assim como os algoritmos e métodos para recuperação de informação e bancos de dados. Para atingir seus objetivos, é preciso considerar aspectos de Matemática, Engenharia, Estatística, Biologia e outras Ciências. “A Ciência da Computação tem  foco na resolução de problemas que requerem grande interdisciplinaridade”, afirmou Marcos Gonçalves.

  Por fim, Marcelo Terra Cunha, do Departamento de Matemática e indicado em 2008, tratou da morte súbita do emaranhamento e sua geometria. Cunha começou sua apresentação citando Erwin Schodinger, Prêmio Nobel de Física em 1933, que afirmou que “o melhor conhecimento possível do todo não inclui, necessariamente, o melhor conhecimento de suas partes”. O pesquisador trabalha com sistemas quânticos compostos, utilizados atualmente no estabelecimento de chaves criptográficas, na teleportação de estados quânticos e na computação quântica.

Nos sistemas quânticos abertos ocorre um estado chamado de emaranhado, que têm dois finais possíveis: em tempo infinito ou em tempo finito. Cunha estuda uma condição em que o emaranhamento é ameaçado de morte súbita, que ocorre quando uma das partes envolvidas é submetida a fatores externos que a desconcentram do emaranhado. É a chamada ‘monogamia do emaranhamento'. Cunha referiu-se ao trabalho de outros pesquisadores brasileiros que deram valiosas contribuições neste campo, como M. França Santos em 2006 e S.P.Walborn, em 2007.

Encerrando o evento, o Prof. Jacob Palis elogiou a iniciativa do vice-presidente regional MG-CO, Prof. César Sá Barreto e o entusiasmo com que a acolheu o reitor Ronaldo Tadêu Pena. cumprimentou os palestrantes pela excelência de suas apresentações e destacou que a eles – os jovens cientistas - pertence o futuro da Ciência no país.

(Notícias da ABC, 20/8)

 
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O maior espelho d'água e a maior biodiversidade do país


O físico Francisco César de Sá Barreto, vice-presidente da ABC para a região de Minas Gerais e Centro-Oeste, é ex pró-reitor de pesquisa e ex-reitor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Essa experiência lhe deu uma visão geral do desenvolvimento das diversas áreas da Ciência na região, “mas muito superficial”, em sua opinião.

A área que mais conhece, naturalmente, é a Física. “A instituição que tem a Física mais forte na região certamente é a UFMG, iniciada pelo Acadêmico Ramayana Gazzinelli. Sua história mostra o crescimento da pesquisa de ponta. Em três avaliações subseqüentes da Capes nossa pós-graduação obteve nota sete. Trabalhamos com a área das Nanociências, que é a mais atual na tipologia das áreas de pesquisa em Física, tem destaque em Astrofísica e em Física Matemática, é forte em Matéria Condensada de uma maneira geral”. Sá Barreto destaca que a Universidade de Brasília (UnB) tem áreas de pesquisa muito interessantes e que outras instituições menores em Minas têm bons pesquisadores com produção de destaque, como Viçosa, por exemplo.

A área da Química, segundo o vice-presidente, tem uma história mais antiga do que a Física na UFMG, destacando-se principalmente pela Fitoquímica. O Acadêmico José Israel Vargas foi um dos responsáveis pelo desenvolvimento da Química, assim como o Acadêmico Otto Gottlieb, que formou um grupo de Química de Produtos Naturais há muitos anos atrás. “Este grupo formou professores que migraram para diversos pontos do Brasil, inclusive para a UnB”, disse Sá Barreto, onde o nível da Química se equipara ao da UFMG, em sua avaliação.

Na Matemática, Sá Barreto afirma que tanto a UFMG como a UnB são fortes. “A tradição da Matemática de Minas vem lá de Ouro Preto. Na UFMG o embrião vem do IMPA, como quase toda a Matemática no Brasil. Entretanto, o IMPA levou daqui brilhantes jovens pesquisadores na época, como o Paulo Sad e Welington Melo, que hoje são Acadêmicos.” O Departamento de Ciência da Computação é originário da Matemática, assim como o Departamento de Estatística. E na Computação a UFMG tem dois Acadêmicos, Nívio Ziviani e Virgílio Almeida, “é um grupo com muita qualidade”, diz Sá Barreto.

O vice-presidente regional ressalta a produtividade e a qualidade da área de Geociências na UFMG, um grupo oriundo da Escola de Minas de Ouro Preto, segundo ele. Nas Ciências Agrárias, os pontos fortes da região estão em Viçosa e em Lavras. “Na parte de Biologia somos muito fortes, a área aqui foi pioneira no país e é o carro chefe da pesquisa da UFMG. Na Bioquímica temos os Acadêmicos Paulo Sergio Beirão, Sergio Danilo Pena e Marcus Vinicius Gómez, além do Ricardo Gazzinelli, que é o pesquisador com a maior produção científica do Brasil”. Nesta área de ponta, Sá Barreto detecta duas grandes gerações. Os falecidos Acadêmicos Marcos Mares Guias, Wilson Teixeira Beraldo, Carlos Ribeiro Diniz, fazem parte da primeira, assim como na Parasitologia, Amílcar Vianna Martins, e vários outros.

Na área de Ciências Humanas, Sá Barreto diz que os Acadêmicos mineiros não estão mais na região. “Foram para o Rio, como o Simon Schwartzman e o José Murilo de Carvalho, mas são daqui da UFMG originalmente. A UFMG também tem uma Ciência Política forte.”

César Sá Barreto fez questão de ressaltar que embora se fale muito da Amazônia, a verdadeira caixa d'água do país é Minas Gerais. “É o Estado que tem o maior espelho d'água do país”. Ele conta que em 2007 foram comemorados os 80 anos da UFMG e conseguiu-se, em função da data, produzir pela Editora da UFMG o livro Ângulos da Água , organizado por Francisco Barbosa e com a participação do Acadêmico José Galizia Tundisi, lançado no dia 11 de agosto.

O sistema federal em Minas é grande, são doze universidades: em Alfenas, Belo Horizonte, Diamantina, Itajubá, Juiz de Fora, Lavras, Ouro Preto, São João Del Rey, Uberaba, Uberlândia, Viçosa e o Cefet, que tem nível médio e superior. Em relação à política científica do Estado, Sá Barreto diz que a Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerai (Fapemig) está muito bem financeiramente, pois o governador Aécio Neves conseguiu cumprir a lei, designando o percentual que a lei determina para Fundação.

“O diretor-científico, Mario Neto Borges, é ex-reitor da Universidade de São João Del Rei, está fazendo uma gestão adequada, muito boa. O secretário de C&T foi diretor-executivo da Embrapa por muitos anos, uma pessoa de muito bom nível, o Alberto Portugal. Ele tem como secretário-adjunto o Evaldo Vilela, ex-reitor da Federal de Viçosa, muito bom também.” Ele diz que a Fapemig tem priorizado projetos de interesse do Estado, como é sua função, mas com qualidade. “Mesmo fazendo pesquisa induzida é fundamental se manter o viés da qualidade”, destaca Sá Barreto.

Sua escolha e início de carreira foram descritas detalhadamente em matéria publicada em edição anterior, mas atualmente suas pesquisas estão focadas em fenômenos críticos, nas transições de fases desordenadas para fases ordenadas dos sistemas e vice-versa. “Muitas vezes o que controla essa transição é a temperatura, se variarmos a temperatura o sistema se ordena naturalmente. Estes fenômenos ocorrem em sistemas ferroelétricos, sistemas magnéticos, sistemas supercondutores, cristais líquidos, polímeros etc. O que vai diferenciar o trabalho de fenômenos críticos é exatamente a área de quem vai aplicar teoria de transição de fases nesses sistemas.”

Nos dez ou quinze anos em que esteve envolvido com gestão universitária, Sá Barreto diz que sempre usou referências da Física. “Olho para uma questão e procuro identificar qual é a variável relevante. Tem gente que faz isso intuitivamente. Outros, como eu, fazem deliberadamente. Então eu trabalhava da seguinte forma: eu perguntava para a pessoa que me trazia um problema se ela tinha alguma solução, ouvia a proposta, avaliava a viabilidade e a conveniência e se não houvesse impedimento aceitava a solução proposta pela pessoa, isso poupava tempo e simplificava a gestão. Eles vinham com o problema e a solução e saía só com a solução, e eu ficava zerado, não precisava encher a mesa de papel.”

Com relação ao ensino básico de Ciências no país e o nível dos alunos universitários resultantes deste sistema educacional, Sá Barreto acha que pessoas talentosas existem em todas as épocas e em todos os lugares. “O sistema é que ficou mais organizado para permitir que essas pessoas floresçam. Nossos alunos são melhores do que nós fomos, as propostas são mais ousadas. Os laboratórios e as bibliotecas melhoraram muito. Quando em 1968 o governo optou por fortalecer as universidades e depois a pós-graduação a base foi esquecida. Hoje ter graduação é a média, o investimento pessoal é na pós-graduação, caminhando para o fortalecimento do pós-doutorado. Então a participação de cientistas no ensino médio é fundamental para formar um círculo virtuoso.”

A preocupação maior de César Sá Barreto atualmente é com o desenvolvimento de uma nova estrutura de política científica que possibilite à Ciência brasileira dar o passo a frente. “Analisando nossa produção científica, comparando com os outros países, sabemos que o país cresceu, hoje é o 15º no ranking mundial, temos 2% da produção científica mundial. Mas onde é que está nosso Prêmio Nobel? O país está produzindo pesquisa de boa qualidade mas não é o carro chefe de nada.”

Para o vice-presidente regional da ABC, os pesquisadores ficam muito especializados e vão se isolando nos seus grupinhos. “Já conhecem o caminho das pedras, sabem qual é o modelo de pesquisa que consegue financiamento e vão repetindo esse modelo. Mas isso é um padrão de sucesso que traz consigo o germe da morte. As agências de financiamento não conseguem olhar por esse ponto de vista, elas têm um olhar burocrático. E a solução para isso não pode ser burocrática, tem que vir da comunidade científica”. Com esse padrão estabelecido, ninguém vai arriscar fazer o diferente, coloca Sá Barreto.

Para ele, o caminho é identificar os pesquisadores de talento e deixar eles fazerem o que quiserem.“Temos que abrir uma janela para que cientistas talentosos possam desenvolver livremente suas pesquisas, vamos dar a eles dez anos, cinco anos, sem relatórios. Vamos gastar um dinheiro com eles”. Ele acha que não adianta essa postura de ‘vamos todos juntos', ter os mesmos critérios para tudo e para todos. “Não dá pra usar uma mesma regra para tudo e para todos. As disparidades regionais não serão resolvidas assim, com políticas simétricas para problemas assimétricos. Essas assimetrias trazem transtornos, as disputas políticas aparecem. Dá trabalho, mas pra sair do patamar em que estamos para outro tem que haver uma nova configuração.”

(Notícias da ABC, 20/8)

 
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Nanotecnologia: realidade e futuro


Desde pequeno, Luciano Paulino da Silva era um curioso. Nascido em Brasília, em 1978, sempre buscava a explicação para as coisas. E foi essa busca pela explicação e pelo sentido das coisas que fizeram, em seu ponto de vista,  que seguisse a carreira científica. Formou-se em Biologia na Universidade de Brasília em 2000 e dedicou-se a análise das ciências da vida, observando, antes de tudo, a diversidade dentro dos organismos, as características que os unem e as que os tornam singulares.

Durante a graduação, Luciano fez diversos estágios acadêmicos, tanto na Universidade de Brasília (UnB) como na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia - onde trabalha atualmente como pesquisador. Seus interesses se voltaram de início para o estudo dos distúrbios patológicos, observando os efeitos de determinados compostos sobre modelos animais. Já na Embrapa, focou seu trabalho na prospecção de novas moléculas, buscando encontrar na biodiversidade brasileira - em particular do Cerrado -, moléculas que pudessem ser usadas em aplicações diversas, do ponto de vista tecnológico.

Nesse mesmo período, ainda na iniciação científica, entrou em contato com a área do conhecimento à qual se dedica até hoje: a Nanotecnologia. Luciano Paulino não fez mestrado, pois durante a iniciação científica já havia desenvolvido diversos trabalhos acadêmicos e já possuía alguns artigos publicados. Ingressou diretamente no doutorado em Biologia Animal, na UnB, sob a orientação do professor Ricardo Bentes de Azevedo.

Em 2004, foi para a Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia como pós-doutor e ficou durante dois anos. “No ano de 2006 eu tive a oportunidade de realizar um concurso público para o cargo de pesquisador na área de Nanobiotecnologia, na qual eu já vinha atuando aqui na empresa, passei e fui contratado naquele mesmo ano.”

Dentro da Nanotecnologia, Luciano atua na utilização de nanoestruturas biológicas, desde o ponto de vista celular até o molecular. Uma de suas linhas de pesquisas remete-se a seus primeiros interesses enquanto estagiário da Embrapa: a bioprospecção de moléculas. “Na pele dos anfíbios, por exemplo, há uma grande diversidade de moléculas bioativas, que são voltadas para a proteção desse organismo contra intempéries do ambiente, moléculas antimicrobianas, moléculas com propriedades hipotensoras, moléculas capazes de modular respostas inflamatórias e, até mesmo, moléculas anticâncer”, conta Luciano, que atua na Embrapa num grupo liderado pelo Dr. Carlos Bloch e colabora em outro liderado pelo Acadêmico Elibio Rech.

“O nosso intuito é encontrar moléculas com as propriedades citadas, dentre outras e que, preferencialmente, não causem nenhum efeito contra células de mamíferos, como as hemácias, por exemplo, o que aumentaria muito o leque de potenciais aplicações dessas moléculas”, diz o pesquisador. “Podemos usar essas moléculas no agronegócio, na saúde animal, na medicina, no setor alimentício e de produção”.

Na siderurgia e na produção de vidros e cerâmicas também têm sido desenvolvidas estratégias a partir da nanotecnologia. “Pode-se fazer um vidro à prova de balas, por exemplo, simplesmente combinando melhor os átomos de silício que vão constituir aquele vidro. Procuramos então organizá-los melhor e, assim, tornar o produto mais resistente sem precisar aumentar sua espessura. É o mesmo caso de ligas metálicas, como as usadas em tratamentos odontológicos.”

Luciano também citou aplicações de Nanotecnologia no setor têxtil, como as fibras que estão sendo desenvolvidas no grupo do Prof. Elibio Rech a partir de teias de aranha. “Estamos analisando como é a sua estrutura. Suas propriedades são interessantes porque são estruturas tão resistentes quanto o aço e ao mesmo tempo tão flexíveis quanto o náilon. Então o potencial produto desenvolvido baseado nessas fibras seria extremamente leve, resistente e flexível”. O pesquisador também reportou a utilização da nanobiotecnologia referindo-se ao setor de cosméticos. “O produto mais usado hoje são pequenas cápsulas de essência colocadas dentro de perfumes. Durante o dia o nosso pH corporal se altera e rompe aquelas vesículas, reforçando o perfume”.

Na questão dos biocombustíveis, a Nanotecnologia tem tido papel muito importante, segundo o cientista. “No setor químico e petroquímico há muitos grupos voltados para o desenvolvimento de novas formas de obtenção de energia, como baterias solares que têm captação mais efetiva para a produção de energia solar”, exemplificou. Nos setores de pigmentos e tintas, a nanotecnologia tem desenvolvido organismos modificados nanomagneticamente. Na UnB, ele conta que participou de um projeto, coordenado pelo professor Paulo César de Morais, no qual foram desenvolvidos polímeros com partículas magnéticas que permitiriam que um vazamento de petróleo, por exemplo, fosse controlado. “É uma nova tecnologia financiada pela Petrobras que está em fase de testes”, explica o pesquisador.

Outra linha de pesquisa de grande interesse para o setor agrícola é o desenvolvimento de superfícies funcionais. Luciano dá como exemplo a preservação de frutos num período pós-colheita. “Faz-se a colheita da maçã, armazenando-a da melhor maneira possível em baixa temperatura. É possível que ela dure alguns meses. Mas se em vez de armazená-la simplesmente nessa condição nativa, pudermos recobrir sua superfície com uma película que impeça a entrada e a proliferação de microrganismos que levam ao apodrecimento, ela pode durar muito mais.” De acordo com o cientista, isso pode ser feito com materiais já presentes no alimento. “É possível fazer uma película protetora para aquela maçã com um polímero que já exista nela. O que estamos fazendo na prática é trabalhar com moléculas antimicrobianas desenvolvendo superfícies funcionais que tenham essas moléculas nelas.”

Em 2007, o pesquisador participou de uma expedição de campo à Antártica, para buscar moléculas que possam ser usadas como modelos para o desenvolvimento de novos produtos e tecnologias. “A primeira consideração que se pode fazer acerca do ambiente antártico é a questão do frio. As temperaturas médias anuais são sempre negativas. Isso implica que a vida, para se estabelecer naquele ambiente, teve que sofrer um processo de adaptação que reflete as estratégias moleculares desses organismos”, explica Luciano.

A meta então era encontrar moléculas com propriedades anticongelantes; moléculas capazes de absorver radiação ultravioleta, devido ao fato do índice desta radiação naquela região ser um dos maiores do planeta; moléculas com potencial antioxidante, pois no ambiente aquático os níveis de oxigênio são muito elevados, o que aumentaria a produção de radicais livres, mas o que encontramos foram espécies plenamente adaptadas. Os resultados dessa busca na Antártica ainda estão em fase de processamento e estudo, mas as perspectivas são muito promissoras. “Visto que o Brasil tem regiões que sofrem com geadas, utilizando uma molécula antártica, por exemplo, podemos fazer com que um organismo se torne resistente ou tolerante ao frio”, conta Luciano.

O grupo em que atua é interdisciplinar, sendo formado por químicos, biólogos, bioquímicos, entre profissionais de outras áreas. Essa diversidade de áreas também confere ao grupo um caráter transdisciplinar, pois essas pessoas, mesmo que não dominem as outras áreas de conhecimento, conseguem, pelo menos, passear por elas. “É fundamental que estejamos sempre atentos ao observar as áreas dos outros, pois as informações obtidas também podem ser importantes para as nossas pesquisas”, destaca Luciano. Seus orientandos são das mais variadas áreas: em nível de iniciação científica, tem alunos de Ciências da Computação, Enfermagem e de Matemática; e em nível de mestrado, tem  uma biomédica e um biólogo.

Sobre sua indicação para a Academia Brasileira de Ciências, Luciano a vê como uma responsabilidade e uma oportunidade. “Pertencer à ABC, que é uma instituição reconhecida nacional e internacionalmente, traz a responsabilidade de representá-la da melhor maneira possível e de fazer com que sirva de referência ao público que tem interesse em ciência”, diz o cientista. Ele considera fundamental que os jovens cientistas eleitos como Membros Afiliados preocupem-se em atuar dentro da instituição promovendo a ciência e tornando-a acessível à sociedade. “Em vez de usar nomenclaturas sofisticadas que dificultem o entendimento das pessoas, devemos tentar apresentar a ciência de maneira mais simples. Só assim as pessoas podem ter mais afinidade com aquilo e enxergar a ciência como algo importantíssimo para o crescimento e desenvolvimento do nosso país.”

(Notícias da ABC, 20/8)

 
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  Eletrofisiologia: uma área difícil, mas muito promissora


Paulo Sérgio Lacerda Beirão nasceu em Belo Horizonte em 1949 e sempre gostou de saber como é que funcionavam as coisas. Desmontava os brinquedos e achava que ia ser engenheiro. Até que, já no ensino médio, pegou um professor de Biologia que era padre e botânico, e tinha uma empolgação tão grande com a área que contagiou o rapaz. Decidiu então fazer Medicina, porque gostava muito de Química, Física e Biologia e tinha vontade de trabalhar com algo que lidasse com as três coisas.

Durante o curso achava que fosse mesmo ser médico, mas quando começou a estagiar no laboratório viu que era a pesquisa o que queria. Interessou-se em trabalhar com o Prof. Carlos Diniz, que estava indo para Ribeirão Preto, mas ele sugeriu que Beirão fosse para o Rio de Janeiro “conhecer um cara novo que tinha lá, o Leopoldo de Meis, na Biofísica da UFRJ. Eu já estava aceito em Ribeirão Preto e fui ao Rio meio de má vontade, mas quando conheci o Leopoldo mudei de idéia: ele tinha uma empolgação fantástica, contagiante”, conta Beirão. Nesse momento ele percebeu que seu desejo de juntar a Química, a Física e a Biologia poderia se concretizar, e resolveu fazer o mestrado na UFRJ.

Quando estava terminando, já com a parte experimental do mestrado pronta, surgiu um convite para que outro colega - Guilherme Kurtz - fosse fazer o pós-doutorado nos EUA. “Mas ele não podia e perguntou ao Leopoldo se tinha alguém pra indicar e lá fui eu. Eu só tinha mestrado, mas como eu era médico - MD, para os norte americanos - fui contratado como Pós-Doutor, ou seja, virei Pós-Doutor antes de ser Doutor... A bagagem da Medicina então valeu a pena”, brincou o cientista.

Beirão ficou um ano e meio na Filadélfia e desenvolveu o trabalho que se tornaria sua tese de doutorado, com Leopoldo como orientador. “Aí foi que eu entrei mesmo na eletrofisiologia. Comecei a estudar transporte de cálcio medindo a corrente elétrica por ele carreada, em vez de fluxos de traçadores radioativos. Era uma coisa relativamente nova - nem o conceito de canal era muito claro. Eram mais bem conhecidos os canais de potássio e de sódio, mas não havia um modelo bom para se estudar canais de cálcio”. Ele trabalhou lá com o melhor modelo que havia na época: o músculo esquelético de um crustáceo, a craca, Balanus nubilus.

Quando estava terminando o doutorado, Beirão foi convidado a concorrer a uma vaga de professor colaborador na Fisiologia da UFMG. “Não foi um tempo muito produtivo porque o departamento me encheu de aulas e não parecia interessado em que eu terminasse meu doutorado”. Mas surgiu uma vaga na Bioquímica e Beirão resolveu entrar no processo de seleção, embora sem muita esperança porque havia outro candidato que ele achava que tinha um perfil mais adequado, mais ortodoxo na Bioquímica.

“Mas acabaram me escolhendo. O Diniz tinha uma visão de futuro impressionante, era um sujeito que pensava 20 anos à frente e eu dei um argumento que ele parece ter gostado: disse que até aquele momento não se sabia muito bem o que era um canal iônico, mas sabia-se que é uma molécula, provavelmente uma proteína, e em breve seria um modelo importante para a fisiologia molecular. Ele percebeu as possibilidades e estou até hoje aqui, com muito apoio do Departamento”, declara o cientista.

Essa área da Bioquímica, segundo Beirão, é fundamental para vários processos, tanto fisiológicos quanto patológicos. Envolve um pouco a Farmacologia, muita Física - principalmente a parte da eletricidade -, muitos mecanismos em nível molecular. “Tem muitas questões em aberto que estão sendo respondidas, muita Físico-Química, muita Biologia. Não é uma coisa de aplicação imediata – se eu descobrir uma atividade importante, ela ainda terá que ser testada nos organismos inteiros. Por outro lado, qualquer atividade em organismos precisa ser compreendida no nível celular e molecular. O trabalho que faço está na base das coisas”.

Atualmente usa uma técnica chamada patch clamp, na qual foi um dos pioneiros no Brasil. Ela permite o estudo de células individualizadas e mesmo de canais isoladamente. Foi a primeira técnica capaz de medir a atividade biológica de uma única molécula – o canal iônico. Ela é capaz de fornecer informações precisas e valiosas sobre mudanças conformacionais dos canais, mas “tem que dar tudo certo para termos bons resultados. É um processo semelhante a tentar matar um mosquito com um tiro de canhão: é difícil de acertar, mas se acertar mata! O pesquisador tem que ter persistência e resistência à frustração”.

Mas o entusiasmo de Beirão não se abate por isso. Ele afirma que a área é muito promissora e prestigiada, e que é muito fácil conseguir um pós-doutorado no exterior “porque tem mais gente querendo profissionais formados em eletrofisiologia do que candidatos, todos os meus ex-alunos estão muito bem encaminhados, principalmente os que foram para o exterior.”

Beirão deu um exemplo de aplicação dos conhecimentos da área. “Conheço um clínico que trabalha com uma doença que é muito grave e que não tem cura, a fibrose cística. Ele acha que o tratamento da causa primária terá que ter uma abordagem eletrofisiológica, será fundamental estudar o canal aniônico que está deficiente na fibrose cística. Se descobrirmos uma droga que aja em canais de cálcio ou de sódio poderemos desenvolver medicamentos para tratar dores crônicas intratáveis que nem a morfina mais resolve.”

Ele explica que esses estudos são muito básicos, que vão requerer ensaios em animais, não são de uso imediato, mas podem gerar um conhecimento revolucionário em termos de aplicação. E destaca o aspecto da ampliação do conhecimento. “O canal iônico é uma proteína que tem um comportamento muito sofisticado, se a gente entender como é que ela funciona vamos criar um conhecimento que vai nos possibilitar compreender muitas moléculas para as quais não temos ainda o mesmo tipo de instrumental, como o patch clamp”, esclareceu o pesquisador.

Beirão desenvolve pesquisas sobre algumas toxinas que atuam em canais iônicos. “São estruturas tão vitais que se tornam alvos preferenciais de um animal que queira matar ou paralisar um outro. Ao longo de milhões de anos a evolução selecionou nesses animais moléculas altamente eficazes. Muitas dessas toxinas têm como alvo canais iônicos e elas são potencialmente modelos para novos medicamentos, novos fármacos”.

Ele explica que se o mecanismo de uma toxina for compreendido, pode-se ter uma idéia melhor de como tratar um paciente que sofreu um acidente com determinado veneno. “Vários profissionais que trabalham com toxinas me procuram para que eu os ajude a compreender o que essas toxinas fazem, assim como profissionais da área de desenvolvimento de novos medicamentos”.

Esses estudos requerem uma abordagem multidisciplinar, e por isso Beirão já estabeleceu colaborações com outros grupos para não ter que fazer tudo em seu laboratório. Hoje, na eletrofisiologia “têm grupos muito bons em Belo Horizonte, Ribeirão Preto, em São Paulo e no Rio, e tem gente começando em Brasília e no Ceará. Estou fazendo uma coisa que é importante para o país e com a qual tenho uma identificação. Eu gosto do que faço.”

(Notícias da ABC, 20/8)

 
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Uma pesquisadora multidisciplinar


Daniella Bartholomeu nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais em 1970, filha de pais comerciantes. Aos 14 anos, seus pais insistiram que fosse cursar o ensino médio em Viçosa, uma cidade universitária próxima à Ponte Nova, sua cidade. Daniella estudou no colégio universitário (Coluni) que funciona dentro da Universidade Federal de Viçosa. “Eu já estava dentro do ambiente universitário desde os meus 14 anos”, reforçou a pesquisadora.

Sua vivência mostrou que o fato de estar fisicamente dentro da universidade, visitando os laboratórios, interagindo com os professores contribuiu bastante na sua opção pela ciência. Começou a cursar Educação Física, mas o que absorvia sua atenção eram as disciplinas básicas do curso, como Bioquímica, Biologia Celular, Anatomia. “Aí eu vi que estava no lugar errado, fiz um novo vestibular para Biologia e passei.”

Com um ano de curso Daniella entrou no Programa Especial de Treinamento (PET/Capes). “O programa tem um tutor, que é o professor que coordena as atividades dos alunos, que são oriundos do curso de Biologia e ingressam no programa através de um processo seletivo. O grupo tinha uma sala de estudo e reuniões semanais com o tutor, Prof. Lucio Antônio de Oliveira Campos. As conversas ali eram muito interessantes, com alunos de diferentes períodos do curso”, contou a cientista.

As bolsas-auxílio, segundo Daniella, eram vinculadas ao programa e os alunos se envolviam em diversas outras atividades fora a pesquisa, como palestras em colégios, organização de eventos, como a Semana de Biologia. “E tinha muita discussão científica, foi um ambiente muito enriquecedor para mim.”

No final da graduação Daniella cursou as disciplinas de Ecologia e Biologia Molecular, que a motivaram muito, e percebeu então o que queria: a Biologia Molecular. “Os professores que davam o curso, Elza Fernandes e Everaldo de Barros, tinham se formado na Universidade de Brasília e estavam interessados em formar grupos na área, então fui fazer o mestrado na UnB, com o Prof. Cezar Martins de Sá.”

Sua dissertação de mestrado tratava da caracterização molecular de um gene e Daniella tinha interesse em fazer outras coisas mais funcionais. Foi indicada para a professora Santuza Teixeira, do Departamento de Bioquímica da UFMG, cuja linha de pesquisa era de controle de expressão gênica no parasito Trypanosoma cruzi, mais próxima do que interessava à Daniella, que voltou então para Minas Gerais, para cursar o doutorado. Faltando um ano para terminá-lo, surgiu uma possibilidade de fazer um doutorado sanduíche no The Institute for Genomic Research, em Maryland, no grupo do Dr Najib El-Sayed.“É muito interessante a bolsa sanduíche porque a pessoa que está te recebendo não tem um vínculo com você. Se não der certo, não deu, e vale a experiência no exterior, conhecendo outro sistema.”

Mas a experiência de Daniella deu certo e ela foi convidada a voltar para fazer um pós-doutorado, o que fez nos três anos seguintes. Ela teve a oportunidade de trabalhar no Projeto Genoma do T. cruzi. “O Projeto Genoma é como se fosse uma fábrica: um grupo faz só uma etapa, aí o segundo grupo pega o resultado e faz a segunda etapa, etc. E eu tive a possibilidade de participar de várias etapas, o que foi muito importante pra mim.”

O projeto acabou em 2005, os resultados foram publicados na Science de julho daquele ano e Daniella queria voltar. Fez um concurso para o Departamento de Parasitologia da UFMG e passou. Tinha um projeto de pesquisar uma nova proteína descoberta durante o projeto genoma do T. cruzi, mas inicialmente não tinha a estrutura laboratorial necessária, então buscou o apoio de sua ex-orientadora, Profª Santuza, que lhe deu todo o apoio, disponibilizou equipamentos e reagentes. Concorreu a vários Editais e teve projetos aprovados na Organização Mundial da Saúde e Fapemig, conseguindo assim montar seu laboratório.

Outra pessoa que a ajudou muito foi o Acadêmico Ricardo Gazzinelli, com quem ela também estabeleceu uma colaboração.“Ele comprou algumas coisas para o meu laboratório, a universidade me deu um computador e assim toquei minhas pesquisas”. A Acadêmica Antoniana Krettli também a incentivou bastante. Hoje, além de alunos de iniciação científica, ela tem orientações e co-orientações de doutorado e mestrado nos programas de pós-graduação em Parasitologia, Bioinformática e Bioquímica e Imunologia na UFMG.

Daniella é uma pesquisadora multidisciplinar. “Isso é muito forte em mim, acho que o uso combinado de diferentes abordagens é muito enriquecedor. Além disto temos que conversar; temos que trocar idéias. Acredito que esse é o caminho na Ciência, ninguém pode saber tudo, por isso que as colaborações são essenciais. A área de Genômica é ainda recente no Brasil, segundo a pesquisadora.“Ainda temos poucas pessoas com formação nessa área, e por isso que temos que passar esse conhecimento pra frente, se não, não faz sentido. Por isso invisto muito na formação de recursos humanos.”

Sobre sua indicação para a Academia, Daniella diz que ficou muito surpresa. “Era uma coisa que eu não esperava. A possibilidade de estar interagindo com profissionais de alto nível não tem preço”, concluiu a jovem Acadêmica.

(Notícias da ABC, 20/8)

 
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O Brasil precisa de um Prêmio Nobel


Sérgio Danilo Pena nasceu em 1947 em Belo Horizonte e, segundo ele, teve o privilégio de cursar o último ano do ensino médio dentro da UFMG, num projeto chamado Colégio Universitário, criado nos moldes americanos. “Não havia aula teórica, só laboratório e grupos de discussão, e os professores eram todos da UFMG. Eu era um ‘CDF', gostava de estudar, achava aquilo o máximo”, conta Pena.

Formou-se em Medicina pensando em fazer pesquisa. Para fazer sua residência, Sérgio teve a opção de ir para os EUA. Casou-se e foi, ficando fora por 12 anos. Logo percebeu que tinha uma base teórica muito boa, destacando-se imediatamente. Foi para o Canadá fazer o doutorado em Genética e, ao terminar, em 1977, para a Inglaterra fazer um pós-doutorado em bioquímica de glicoproteínas por um ano. Contratado pela Universidade McGill de Montreal, retornou ao Canadá como professor de Neurologia, Genética e Pediatria. “Lá eu tinha o laboratório de pesquisa dentro do hospital, e fazia clínica ao mesmo tempo. Isso é uma das coisas que falta aqui no Brasil”, afirma Pena.

Depois de quatro anos voltou para a UFMG. Hoje é Professor Titular do Departamento de Bioquímica e Imunologia da Universidade Federal de Minas Gerais e diretor científico do Núcleo de Genética Médica de Minas Gerais (GENE). Seu laboratório, o GENE, é pequeno, mas de alto nível. São 40 funcionários, dos quais quatro com PhD e três com mestrado. “Até hoje atendo consultório, uma tarde por semana. O contato humano é fundamental, todo médico é viciado nele, e o trabalho com pacientes tem retorno imediato”, diz Pena.

Sérgio Pena questiona o modelo de pesquisa atual adotado pelas agências de financiamento no Brasil. “A pesquisa precisa ter o próprio ritmo. Esse modelo atual é criacionista, o pesquisador tem que enviar um projeto já sabendo tudo que será feito, pois tem que mandar um cronograma de execução prevendo todos as etapas e resultados esperados”. Ele considera que um modelo alternativo, que chama de darwiniano, levaria em conta uma boa idéia inicial e permitiria que outras idéias fossem surgindo evolutivamente, que os caminhos fossem aparecendo. “É aí que se chega à inovação”, pleiteia o cientista.

O modelo de apoio institucional necessário para isso selecionaria cientistas seniores , gabaritados, disponibilizaria a verba e os deixaria à vontade, fazendo o que quisessem, contanto que apresentassem no final a prestação de contas em termos de publicações e patentes. “No Canadá é assim, tem linhas de pesquisa estruturadas dessa forma.”

O Acadêmico não teme a polêmica quando afirma que se o Brasil quer ter uma presença mundial em ciência, quer ter respeitabilidade, ele tem que fortalecer mais as instituições que já são fortes, criando centros de excelência. “Porque se continuar a atual política de investir preferencialmente nos centros que são fracos, penalizando os que são fortes, só vai nivelar por baixo, vai ficar tudo médio e nunca vamos ter um Prêmio Nobel. A produção científica aumenta, mas as publicações, em sua maior parte, ocorrem em revistas de baixo impacto. Para publicar na Science e na Nature não é brincadeira não”, afirma o geneticista, certamente com conhecimento de causa.

Sérgio Pena também vê outro problema na pesquisa brasileira, que é o fato dela ser baseada na pós-graduação. “Nos EUA a base são os pós-doutores. O projeto de doutorado tem que ser sem risco, porque ele tem que estar terminado em quatro anos, então a pesquisa não é inovadora. Os pós-doutores já têm outro nível de conhecimento e outra liberdade para pesquisar. Agora que eles estão sendo estimulados no Brasil eu acho que as coisas vão melhorar.”

As pesquisas em temas tipicamente brasileiros, na opinião do Acadêmico, devem ser valorizadas. “A doença de Chagas no Brasil é um foco no qual faz sentido trabalhar, porque é um problema concreto. E dá uma espécie de reserva de mercado, porque nunca os americanos e europeus vão poder competir com o tipo de infra-estrutura que temos. Aqui na UFMG eu colaboro com pesquisadores da Parasitologia, em uma equipe multidisciplinar.”

Outro estudo em que o que Pena chama de reserva de mercado funciona bem é o que está realizando sobre a formação e estrutura da população brasileira. “Nosso modelo virou referência e tem sido replicado em todos os outros países da América Latina. Foi um trabalho extremamente bem sucedido e nós revelamos aspectos muito interessantes da genética do brasileiro.”

Exemplos contrários, dado pelo Acadêmico, referem-se à pesquisa molecular em câncer e à genômica humana. “Aí não temos muito como competir com a estrutura dos americanos”. Ele conta que em 2006 fez uma pesquisa estudando 40 genes num painel internacional com 1.100 pessoas, publicou numa boa revista internacional e o trabalho tem tido repercussão. “Mas agora saiu uma pesquisa americana com as mesmas 1.100 pessoas, mas tipificando 600.000 genes. Como é que se vai competir com isso? Nem toda a verba do CNPq junta daria pra competir nesse nível”, constata o cientista.

Mas sua visão sobre o momento científico no Brasil é muito positiva. “O Sérgio Rezende é brilhante e está sendo um ótimo ministro. O que falta agora é infra-estrutura”. Pena explica que raramente se consegue um reagente importado em menos de 60 a 75 dias. “Estamos fazendo inovação, experimentando... se um reagente não serve, temos o dinheiro para pedir outro, mas lá se vão mais 75 dias”. Além disso, se o pesquisador compra no seu próprio cartão de crédito, ele é visto como inimigo pela Alfândega, avalia o cientista.

“Os procedimentos da Anvisa, Ibama e a Conep são altamente burocráticos, e estão estrangulando a pesquisa no país. Os recursos disponibilizados pelo governo correm o risco de serem desperdiçados por falta de infra-estrutura científica. Os recursos cresceram, a demanda cresceu, mas os procedimentos não evoluíram”, critica Sérgio Pena.

Outra questão abordada pelo Acadêmico foi a política de inovação industrial brasileira. “Precisamos criar uma mentalidade empresarial de investimento em ciência e tecnologia. Patente de professor universitário é bom, mas não é o caminho. Tem que haver investimento nas empresas. A inovação vai surgir dentro das empresas, especialmente nas pequenas empresas de base tecnológica. Temos criar a cultura da inovação em todas elas.”

Em sua opinião, temos exemplos fantásticos. “O Brasil investiu pesadamente na Petrobras, por exemplo, que é hoje uma estrela mundial, tem a melhor tecnologia de exploração de águas profundas do mundo”, diz Pena. Ele destacou também a indústria aeronáutica brasileira, cuja excelência foi baseada no investimento na formação de recursos humanos, através do Instituto de Tecnologia da Aeronáutica (ITA), e o aproveitamento disso pela Embraer.

A inovação nem sempre é total, não é preciso inventar uma nova roda, o que é preciso é adaptar a roda existente para as suas necessidades. As patentes pequenas são as que mais dão dinheiro, são melhoramentos e adaptações. Acho que a Lei de Inovação e essa nova política industrial do governo vão ser fundamentais. Já estamos vendo frutos concretos com editais de subvenção econômica para empresas. É certamente o mapa da mina para o país”, concluiu o Acadêmico.

(Notícias da ABC, 20/8)

 
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Da propagação de doenças até os jogos de azar


Bernardo Nunes B. de Lima nasceu em Belo Horizonte, no ano de 1974. O pai era engenheiro e viajava muito porque construía estradas, e a família ia junto. Bernardo conta que achava bonita a carreira do pai, gostava de Matemática e foi fazer Engenharia. Mesmo adorando a Matemática, nunca teve coragem de largar o curso de Engenharia.

“Tive várias oportunidades no meio do curso, o momento em que tive mais dúvidas foi quando virei monitor de Cálculo, no segundo ano, e o professor que me orientava me ofereceu para ir fazer um curso de verão no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), no Rio de Janeiro. Para mim, ir ao Rio de Janeiro passar as férias estudando Matemática era uma coisa de outro mundo, era uma novidade, eu nem acreditava que fosse verdade.”

Foi para o Rio, fez o curso de verão no IMPA, saiu-se bem e adorou. Quando voltou para Belo Horizonte estava realmente tentado a largar a Engenharia e transferir-se para o curso de Matemática. Mas não o fez. Passou a cursar as disciplinas da Engenharia Civil de manhã e do curso de Matemática à tarde. Com isso, fez praticamente todo o curso de Matemática , mas não obteve o diploma da graduação. Assim que se formou em Engenharia, entrou no mestrado de Matemática. Um ano e meio depois entrou no doutorado do IMPA, quando especializou -se em Probabilidade .

No mesmo ano de 1998, surgiu uma vaga para Professor Assistente no Departamento de Matemática da UFMG e Bernardo passou, mesmo sem ter concluído o doutorado. Trancou o curso então por um ano para dar aulas em Belo Horizonte e depois deste período conseguiu ser liberado para concluir sua formação no IMPA, onde ficou por mais três anos, retornando para a UFMG em 2003. Saiu por quatro meses, em 2007, para um pós-doutorado curto em Amsterdã, na Holanda.

Bernardo fala de sua paixão pela área que escolheu: a probabilidade talvez seja o lado mais popular da Matemática, em seu ponto de vista. “É um negócio que atrai as pessoas, remonta a coisas menos nobres, mais escusas, como jogos de azar, apostas. Por exemplo, agora temos uma brincadeira com outros colegas do Departamento que é um site onde fazemos um programa sobre cálculo de probabilidade em futebol. E ele está tendo um relativo sucesso.”

Mas o lado “sério”, que também o fascina, é a pesquisa em percolação, nome que se dá ao movimento de fluidos de meio poroso. Os modelos probabilísticos mais simples da área podem ser aplicados na propagação de epidemias, de incêndios florestais, no movimento de prospecção de petróleo. “Tudo isso pode ser estudado do ponto de vista de modelos percolativos. Do ponto de vista matemático, esses modelinhos que, a princípio, parecem banais, são fontes de questões matemáticas muito interessantes.”

Bernardo diz que adora o trabalho de orientação de alunos. Já concluiu a orientação de três alunos de mestrado e tem três com a dissertação em andamento. Tem dois alunos no início do doutorado e vários alunos de iniciação científica, todos fazendo percolação.

Tem forte interação com seu orientador de doutorado, Prof. Vladas Sidoravicius, com quem mantém uma rede aqui no Brasil. “Mas existem outras pessoas trabalhando em percolação. Na USP e no IMPA estão os melhores grupos. O da USP talvez seja o maior de todo o Brasil. Lá, além da qualidade, tem o aspecto da quantidade, que é um diferencial.”

Fora do Brasil, os especialistas em percolação estão espalhados. Na Holanda, na França e nos EUA há grupos fortes. “O primeiro artigo da percolação é de 1957. A percolação tradicional teve um grande impulso, porém, no início dos anos 80, com o lançamento do livro do Prof. Harry Kesten que, se não é o maior, é um dos maiores probabilistas vivos do mundo, com quase 80 anos de idade, ativo até hoje nos EUA.”

Bernardo conta que a partir dos anos 80, a percolação começou a ter um desenvolvimento muito rápido. Questões matemáticas de percolação começaram a ser resolvid as , o período marcou o desenvolvimento de uma grande teoria. Os problemas então foram se tornando muito difíceis e o ritmo foi ficando mais lento, até iniciar-se realmente um declínio. Mas em 2006, Wendelin Werner, um probabilista que trabalha em percolação, ganhou a Medalha Fields. E a área ganhou força novamente. Hoje, na UFMG, a área mostra crescimento: em nove anos, passou de um para três o número de professores dedicados à percolação.

Em termos das possibilidades de crescimento da grande área, em sua opinião, a Matemática e a Física estão mais bem colocadas do que outras áreas da Ciência, principalmente em relação às tecnológicas, por questões financeiras. “Matemática é mais barato. É menor o volume de recursos necessários”. Mas ele acha que o país precisa formar mais engenheiros, visando à produção tecnológica. “O percentual de jovens cursando ensino superior no Brasil é muito inferior ao de nossos colegas latino-americanos, o Brasil está muito atrás da Argentina, do Uruguai, da Venezuela, do Chile.”

O jovem matemático sentiu-se honrado pela indicação para Membro Afiliado da ABC, e diz que não conhecia todos os outros indicados do seu Estado. “Mas os matemáticos eu conhecia todos, mesmo os de outras regiões do país.”

(Notícias da ABC, 20/8)

 
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Oportunidades de sobra para matemáticos no mercado


Keti Tenenblat nasceu em Izmir, na Turquia, em 1944 e veio para o Brasil aos 12 anos, para o Rio de Janeiro. Na família não havia ninguém que atuasse nessa área. Seu pai importava produtos químicos, seu irmão e sua irmã cursaram Engenharia Química, e seguiram a área acadêmica. A futura matemática, sempre foi precoce e muito aplicada nos estudos.

Começou a dar aulas da disciplina que a acompanharia pela vida inteira ainda no Ensino Médio. Aos 15 anos já era professora particular no Colégio Bennett, onde cursava o primeiro ano do Ensino Médio. A Acadêmica lembra de sua diversão nessa época: “Meu passatempo era comprar vários livros de Matemática da série que eu estivesse cursando e passar horas fazendo os exercícios”.

Quando entrou para a universidade não foi diferente. Durante os quatro anos de licenciatura em Matemática na UFRJ, Keti deu aula no Instituto Copacabana, primeiro colégio em que estudou ao chegar no Brasil. Ao terminar a licenciatura e ainda sem mestrado, passou a lecionar, durante pouco menos de um ano, na sua universidade de origem.

Mas até então Keti não sabia o que era pesquisa em Matemática. Somente durante o mestrado na Universidade de Michigan percebeu que era isso que lhe dava mais prazer: pesquisa em matemática. “O meu objetivo inicial era ir fazer o mestrado e voltar para dar aula na UFRJ. Mas lá, havia um ambiente internacional que contava com pesquisadores de renome, eu tomei mais gosto ainda pelos estudos e resolvi fazer o doutorado”, conta.

Daí para frente fez o doutorado, voltou a lecionar na UFRJ, em seguida, veio o pós-doutorado e a docência na UnB, onde permaneceu por mais de 20 anos até se aposentar, em 1995. Mesmo aposentada, a cientista continua trabalhando na universidade, orientando alunos de mestrado e doutorado, coordenando seminários de pós-graduação e fazendo pesquisas.

 

Hoje, Keti desenvolve pesquisas em Geometria Diferencial, área de Matemática que estabeleceu os alicerces da Teoria da Relatividade e que apresenta notáveis aplicações na Física. Além disso, permite o estudo de equações diferenciais relacionadas com objetos geométricos. Para tal, a cientista diz que é fundamental a abstração, característica essencial aos matemáticos. “A pessoa tem que ter a capacidade de olhar para uma equação e interpretar o seu significado; definir objetos que estão em espaços multi-dimensionais”.

Em contrapartida, a pesquisadora afirma que é quase impossível, para um leigo, ao ver uma figura geométrica, descobrir as fórmulas que deram origem à figura. As figuras obtidas a partir de expressões matemáticas podem ser materializadas através de recursos computacionais. A figura, no entanto, embora ajude a visualizar conceitos matemáticos, é só um apêndice. “O importante é a teoria; como se chegou a essa figura”, diz.

Keti explica que em Matemática, a velocidade em que a pesquisa é produzida é muito menor do que nas outras áreas. “O que a comunidade matemática produz em pesquisa vai sendo acrescentado ao que já foi feito no passado”. Segundo Keti, é muito comum o cientista desenvolver uma teoria a partir de uma idéia. “Na prática, a pesquisa surge como resultado de uma idéia que fica persistindo na mente”, diz.

Essa é uma ciência em que tudo é provado através da lógica e da argumentação. Porém, existem problemas em aberto há mais de cem anos. Existe um instituto nos Estados Unidos, o Clay Mathematics Institute, que oferece um milhão de dólares para alguns problemas em Matemática que ainda não foram resolvidos. Keti conta que, recentemente, um pesquisador russo, Perelman, resolveu um desses problemas.

Segundo a pesquisadora, o número de alunos candidatando-se à pós-graduação na área da Matemática aumentou nos últimos dez anos. “Acho que hoje em dia é mais fácil conseguir uma graduação, então a importância do mestrado e doutorado cresceu. As Olimpíadas de Matemática também vêm contribuindo para a conscientização da importância da Matemática. Mas o problema é o nível de conhecimento dos alunos, não só em Matemática especificamente, mas em termos de cultura geral e até de domínio da língua”. Para ela, porém, ainda temos poucos doutores em Matemática para as necessidades do país. " É preciso formar muito mais doutores. Aqui mesmo, na UnB, quando é aberto um concurso, ficamos felizes quando temos dois ou três candidatos por vaga”.

Ela reclama da atenção dispensada à área. “A Matemática tem que ter uma atenção especial das agências financiadoras pela sua importância no desenvolvimento científico e tecnológico do país. Precisamos de maiores incentivos e melhores condições de trabalho para os professores que, também, têm que se preocupar mais com o ensino em todos os níveis. Aí pode ser que melhore, realmente, o conhecimento de matemática dos jovens. Além disso, faltam professores no ensino básico, já que muitos licenciados não exercem a profissão”, avalia Keti.

A Acadêmica diz também que falta uma divulgação das possibilidades de atuação do matemático no mercado de trabalho. “Hoje em dia algum conhecimento em Matemática é essencial em quase todas as áreas de conhecimento. O profissional que se forma, além de atuar em matemática, tem muitas outras perspectivas profissionais, dando o suporte de Matemática a outras áreas. O que não falta é oportunidade, mas falta informação e comunicação com profissionais de outras áreas sobre esse leque de possibilidades”, conclui a Acadêmica.

(Notícias da ABC, 20/8)

 
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  O desafio é construir a ponte da boa ciência à inovação tecnológica


O físico Ado Jório de Vasconcelos, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenador de Assuntos Estratégicos do Inmetro, foi um dos jovens cientistas eleitos em 2007 como Membro Afiliado da ABC. Nascido em Belo Horizonte, Jório teve, segundo ele, uma infância "saudável", jogando bola na rua e subindo em cima de muros e telhados. O pai era economista, tendo sido professor da PUC-MG por alguns anos, até passar no concurso para auditor fiscal da Receita Federal, cargo que exerceu até a aposentadoria. A mãe era formada em História, com mestrado em Educação, tendo atuado nas Secretarias de Educação de Belo Horizonte e de Ibirité. A atmosfera da casa, segundo Jório, sempre foi de estudos.

Na época do vestibular escolheu Engenharia Elétrica na UFMG, e fez o curso até o sexto período, quando transferiu-se para a Física. “O motivo da minha mudança foi a música. Tinha uma banda e tive vontade de fazer uma iniciação científica em Acústica. Os problemas da Engenharia não me interessavam. Assim, tomei contato com a Física. O contato inicial foi o suficiente para ver claramente que minha vocação era aquela”, contou Jório.

Já dentro da Física, teve dúvidas sobre o caminho a seguir, se o teórico ou o experimental, acabando por se identificar mais com o segundo. Hoje ele estuda as propriedades ópticas de nanotubos de carbono. “A luz é um método muito poderoso no desenvolvimento da Nanociência, pois é um artefato de medida que interfere muito pouco nas propriedades fundamentais do material. Não escolhi estudar nanotubos de carbono, escolhi fazer o meu pós-doutorado no Massachussets Institute of Technology (MIT), e a oportunidade era neste campo.”

Seu orientador de doutorado havia feito um ano sabático no MIT, e este contato inicial facilitou a ida de Jório. “Foi um período fabuloso, em uma instituição onde a produção cientifica é efervescente, em uma área – a de nanotubos de carbono -, que é de grande beleza em ciência pura e, consequentemente, grande potencial para inovações tecnológicas - as duas coisas sempre vêm juntas. continuar nesta área representa trabalhar para a transição real entre ciência pura e aplicações para o desenvolvimento econômico do pais.

Jório afirma que o que o encanta na Ciência é o desconhecido, a procura eterna. Na sua área, é entusiasmado com as perspectivas. “Os nanotubos de carbono já estão gerando inovação em diversas áreas, como em baterias de celular e laptop , pinturas de carro, materiais ultra-resistentes para indústria espacial e aeronáutica. O grande desafio é fazer com que o Brasil consiga transpor a barreira entre a produção de boa ciência e a inovação tecnológica.”

(Notícias da ABC, 20/8)

 
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Cientistas hoje já falam a linguagem da tecnologia


O Acadêmico Ramayana Gazzinelli, nascido Araçuaí, em Minas Gerais, no ano de 1933, já é aposentado da UFMG desde 1995, mas como é Professor Emérito tem seu espaço na universidade e, como diz, continua contribuindo, mas sem compromisso. “Procuro não me meter para deixar os jovens fazerem o que eles têm vontade de fazer”. Gazzinelli foi o primeiro Doutor do Departamento de Física da UFMG, em 1964.

De família italiana, seu bisavô veio para o Brasil nos anos 1850 e era um pioneiro no nordeste de Minas Gerais. “Vários viajantes estrangeiros relatam que encontraram o velho Giuseppe, que tinha uma espécie de armazém, onde negociava com os índios e fazendeiros da região e exportava madeira e peles para a Europa”, relembra o Acadêmico. Naquela época não havia na região uma colônia italiana. Seu bisavô voltava para a Europa a cada filho, para que nascessem na Itália.

Já na geração seguinte, seu pai, o mais velho da família, bastante inteligente, foi enviado com muito sacrifício para estudar Medicina no Rio de Janeiro. “Ele teve uma boa formação e depois de concluir o curso foi para Araçuaí, no interior de Minas Gerais. Lá conheceu minha mãe e tiveram cinco filhos”. Mas quando Ramayana tinha em torno de cinco anos seu pai ficou tuberculoso, e foi para Belo Horizonte. Ficou dez anos doente, alguns no sanatório, outros em casa. “Enquanto estava em casa, me ensinava Biologia e Matemática, eu era muito interessado. Ele morreu aos 47 anos de idade”, lembra o físico. A infância dos cinco irmãos foi dura, pois a mãe ficou viúva e sem recursos. Todos tiveram que trabalhar cedo. “Eu trabalhei de uma maneira mais amena, com 11 anos comecei a dar aulas particulares para candidatos ao exame de admissão ao ginásio e aulas de reforço. Meu colégio, o Colégio Estadual, era muito bom e eu era muito aplicado.”

Começou a se interessar muito por Física através da interação com dois professores, Rui Cunha e Beatriz Alvarenga. No final do Ensino Médio, Ramayana estava em dúvida entre a Matemática, na qual era melhor, ou a Física, mas nessa época esta última estava em efervescência no Rio de Janeiro, com César Lattes, Leite Lopes, Jayme Tiomno e outros. A descoberta do píon, de que Lattes participara, tivera uma grande repercussão na imprensa. Considerou que cursando Engenharia teria uma melhor formação, e assim o fez. “Nos dois primeiros anos eu vi um pouco de Matemática, Física, Mecânica Racional, depois veio a Termodinâmica, Mecânica Aplicada, eu procurava aproveitar o que era oferecido e me interessava. Mas sempre soube que Engenharia não era o que eu queria.”

A conclusão do curso de Engenharia Civil coincidiu com a época em que estava sendo fundado em Minas Gerais o Instituto de Pesquisas Radioativas da Escola de Engenharia e iniciado um curso de Engenharia Nuclear. Era uma boa transição para a Física. Gazzinelli cursou então essa pós-graduação de dois anos com muita seriedade. “Era um curso em que entraram doze alunos e só três conseguiram terminar. Tinha professores muito bons, alguns de fora”, conta o cientista.

Ramayana diz que só foi fazer Física realmente na pós-graduação nos Estados Unidos. “Depois que terminei o curso de Engenharia Nuclear, lutei muito para conseguir uma bolsa da Comissão Fulbright, que tinha um valor muito pequeno e era só por um ano. Mas eu aproveitei ao máximo e consegui uma prorrogação por mais um ano. Depois de ser aprovado no exame de qualificação para o doutorado consegui bolsa da própria universidade.”

Cursou então o mestrado e o doutorado na Universidade de Columbia, já casado e com filhos. Terminou em quatro anos e meio e voltou para o Brasil na época do golpe militar. “Lá nos EUA me perguntaram se eu não queria ficar, dada a situação. Mas eu estava doido para voltar e disse que achava que esse golpe era para durar uns 25 anos, eu não ia agüentar ficar tanto tempo longe. E acertei em cheio...”

Quando voltou para Belo Horizonte, Gazzinelli dedicou-se a organizar a Física na UFMG, bem na época da reforma universitária, em 1967. Além de trabalhar na Escola de Engenharia e no Instituto de Pesquisas Radioativas passou a colaborar com o Departamento de Física da Faculdade de Filosofia. De certa maneira, considera que sacrificou um pouco sua carreira científica, porque se dedicou totalmente à organização do Instituto de Física, que depois foi anexado ao de Matemática e ao de Química para formar o atual Instituto de Ciências Exatas. “Com a reforma universitária, nossa universidade conseguiu apoios da Fundação Rockefeller e do BID para montar os institutos. Logo depois surgiu um apoio do BNDES. E depois foi criada a Finep , que passou a ser a responsável pelos auxílios”, rememorou o pesquisador.

A partir de 1970, o pesquisador concentrou-se então na sua área, que é a Física da Matéria Condensada. Já havia sido organizado o mestrado na década de 60 e vários professores tinham ido para a pós fora do país. “Então muito rápido passamos de um doutor para 14 doutores, depois 20, depois 40 doutores e a lista foi crescendo”. A família Gazzinelli formou três cientistas nessa geração: além de Ramayana, o Acadêmico Giovanni Gazzinelli e Paulo Gazzinelli, que é engenheiro e administrador científico e foi diretor científico da Fapemig. Ramayana é pai do Acadêmico Ricardo Gazzinelli, também da UFMG, que é um dos cientistas com a maior produção científica do Brasil.

O Acadêmico considera a área de Matéria Condensada muito promissora, da qual surgem nichos surpreendentes, como atualmente a Nanotecnologia. Em sua opinião o Brasil está cada vez mais capaz. “No nosso tempo não havia essa possibilidade de colaboração entre ciência e tecnologia no país. Enquanto se fazia ciência de ponta nas universidades, a tecnologia de ponta era importada”. De acordo com Ramayana, essa situação começou a mudar de uns dez anos para cá. “Hoje já é comum nos departamentos de Física grupos que falam linguagem da tecnologia.”

O professor afirma que o fortalecimento da Física no Brasil se deve ao perfil dos físicos. “Eles são muito críticos, mas ao mesmo tempo têm uma disposição muito grande para ajudar os que estão aparecendo. Quando cheguei dos EUA eu não tinha apoio nenhum, a primeira pessoa que me apoiou foi o Sérgio Mascarenhas, de outra universidade. Ele me ensinou até como se fazia um pedido de auxílio para o CNPq.”

Com relação à inovação, Ramayana diz que tem muita esperança de ainda ver um Prêmio Nobel brasileiro. Para tanto, considera fundamental criar uma cultura apropriada. “Nós ainda não temos uma cultura cientifica, estamos a construí-la ainda. Os americanos, por exemplo, desde cedo colocam a mão na massa com relação à ciência experimental e à tecnologia, os meninos estão acostumados a brincar com ciência, a freqüentar museus e exposições, a cultura científica faz parte do cotidiano deles. Isso faz muita diferença.”

(Notícias da ABC, 20/8)

 
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 Pelo estímulo à dúvida e à curiosidade


A fascinação juvenil por automóveis e aviões, além da afinidade pela área de Ciências Exatas, foi a responsável pela escolha profissional do engenheiro José Alexander Araújo, que sonhava em trabalhar com essas máquinas. Graduado em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal de Uberlândia, Alexander pretendia desde o início fazer o mestrado e o doutorado devido a sua forte inclinação para a questão educacional e motivação para pesquisa.

Oriundo de uma família do interior do Maranhão, cuja matriarca teve 20 filhos sendo que o primeiro foi assistido por uma parteira indígena e hoje tem, em sua terceira geração, netos com doutorado. “Acho que isso é um espelho do processo de evolução desse país que, embora não atingindo a todos, mostra que é possível ir adiante, por meio da educação”, diz Alexander.

É a essa característica, aprendida em casa, onde eram valorizados o estudo e a educação, que o engenheiro atribui sua escolha. O casal iniciou a vida a dois de maneira humilde. “Meu pai começou como técnico de uma empresa de telecomunicações, minha mãe ainda não trabalhava. Ela depois estudou e virou pedagoga, ele levou dez anos para se formar mas graduou-se em Administração.”

“A decisão de me tornar um cientista foi muito influenciada pelo valor dado ao conhecimento na minha família e também por ter feito a iniciação científica durante a graduação. Eu trabalhei também com um professor que era excelente pesquisador”, diz, referindo-se à iniciação científica que fez com o professor Henner Gomide, no curso de Engenharia Mecânica na Universidade Federal de Uberlândia.

O trabalho de fabricação de implantes odontológicos desenvolvido na iniciação científica com um material biocompatível, diferente do habitual, mais barato, de qualidade e que popularizaria muito o produto foi um importante estímulo para Alexander Araújo seguir no caminho da pesquisa. Cursou então o mestrado na UnB, onde estudou a fadiga sob carregamentos combinados de flexão e torção, ou simplesmente fadiga multiaxial. “Fadiga é um processo de crescimento de fissuras em um componente sob a presença de carregamentos variáveis, até que ele quebra”, explica Alexander.

Durante o doutorado, teve a oportunidade de estudar de perto os motores de avião, sua paixão juvenil. Financiada pela Capes e apoiada pela Rolls Royce, grande fabricante de motores de aviões a jato no mundo, a pesquisa que se tornou o tema de seu doutorado aconteceu na Inglaterra, para onde foi já casado, com um filho de sete meses e onde morou por cerca de três anos. Alexander aproveitou seus conhecimentos na área de fadiga, desenvolvidos em nível de iniciação científica e de mestrado para estudar a fadiga por contato, fenômeno usualmente presente nos compressores de baixa pressão de os motores a jato. Sua tese, orientada pelo Prof. David Nowell e defendida na Universidade de Oxford foi motivada pelo processo de ruptura entre a pá e o disco nestes motores.

O amor do engenheiro à pesquisa é tão grande que chegou a recusar um emprego na Embraer para trabalhar como jovem pesquisador na UnB. “Decidi largar o emprego fixo com carteira assinada e todas as outras garantias em troca da bolsa do CNPq, que correspondia a menos da metade do valor oferecido pela Embraer. E eu não me arrependi em nenhum momento dessa escolha”, conta. Ele atribui a decisão ao gosto que tem por novos desafios. E explica que quando se trabalha com pesquisa está se resolvendo um problema novo a cada dia. “Não há uma rotina intelectual. Então se abre mão de algo mais rentável em prol de estar em um ambiente mais criativo”.

Atualmente, Alexander é professor adjunto da Universidade de Brasília e estuda, entre outras coisas, a fadiga em cabos condutores de energia. Ele conta que em 2001 houve um apagão nas regiões Centro-Oeste e Sudeste por causa da ruptura de um cabo, deixando 70 milhões de pessoas sem energia e causando prejuízos irreparáveis a imagem da infra-estrutura do país. “É um problema que tem um impacto econômico e social muito grande”, destaca o pesquisador. Por enquanto, o estudo feito em laboratório aborda as principais variáveis que interferem na durabilidade do cabo. “O nosso laboratório na UnB, que investiga os diversos fatores que afetam a durabilidade mecânica de um cabo condutor talvez seja o único, ou um dos poucos abaixo da linha do Equador, capaz de realizar ensaios com esse nível de instrumentação e precisão.”

Ao falar dos jovens universitários que orienta e de sua postura perante o conhecimento e à informação nova que recebem em sala de aula, o cientista diz que sente falta de uma atitude mais pró-ativa e interessada nos alunos, de vê-los realmente buscar o conhecimento. Araújo atribui tal fato ao processo paternalista do ensino superior brasileiro, que em geral ainda está focado na figura do professor e não do aluno. “São mais horas dentro da sala de aula ouvindo o professor falar do que trabalhando realmente”, critica. Para ele, o aprendizado acontece com a ação. “Em meu entender nosso sistema educacional poderia incentivar mais o espírito científico, estimulando a dúvida e a curiosidade que surgem mais efetivamente quando o aluno é o ator principal”.

Com este perfil, é natural que o cientista tenha se sentido muito honrado com a indicação para fazer parte da Academia Brasileira de Ciências, como Membro Afiliado a partir de 2008. ”Os membros da ABC são pesquisadores brilhantes, pessoas de criatividade enorme e de grande importância para a Ciência brasileira. Ter o privilégio de participar desse grupo significa um importante reconhecimento do seu trabalho de pesquisa e ensino”, avalia, satisfeito.

(Notícias da ABC, 20/8)

 
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Um partidário da interdisciplinaridade


Evando Mirra de Paula e Silva nasceu em 1943 em Andrelândia, no interior de Minas Gerais. Graduou-se em Engenharia Mecânica e Elétrica pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especializou-se em Administração da Qualidade e Produtividade na George Washington University, nos EUA. Concluiu mestrado em Engenharia Metalúrgica e de Materiais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ) e doutorado em Ciências pela Université de Paris XI. Foi presidente do CNPq entre 1999 e 2001, presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos em Ciência, Tecnologia e Inovação (CGEE) de 2001 a 2005 e é Professor Emérito da UFMG. Recebeu dezenas de prêmios e medalhas por sua contribuição nacional e internacional a CT&I.

Mirra também é dos que acham que o Brasil está precisando de um Prêmio Nobel. “O empreendimento científico no país encontra-se em estágio mais avançado do que é geralmente percebido. Para que se dê conta da verdadeira dimensão de nossa competência científica, para que a percepção pública se aproxime do que é de fato a ciência brasileira atualmente, talvez seja necessário um fato espetacular, uma espécie de ato fundador mítico...” E, nesse sentido, afirma o Acadêmico, nada melhor do que a sagração externa, ainda mais com o glamour dessa espécie de Oscar do conhecimento. Mas, além desta dimensão publicitária, no que diz respeito ao reconhecimento da qualidade e da originalidade da contribuição brasileira, há muito que merecemos esse atestado, afirma.

“Além de casos notórios, como o de César Lattes, o Brasil já poderia ter uma meia dúzia de Prêmios Nobel. Na área da Saúde, por exemplo, Sérgio Ferreira fez um trabalho internacionalmente reconhecido como absolutamente fundamental para a compreensão e o tratamento da hipertensão, que gerou toda uma gama de medicamentos. Trata-se de uma contribuição cuja originalidade, impacto e relevância têm todas as características associadas ao Prêmio.”

As contribuições brasileiras ao ambiente de inovação já estão também se tornando corriqueiras. É cada vez mais comum que pesquisadores brasileiros passem por experiências semelhantes à que relata quando, em 2007, foi assistir a uma conferência sobre a revolução no setor automotivo nos últimos anos, pressionado por exigências ambientais. “Os automóveis têm que ser menos agressivos ao meio ambiente, mais leves e seguros, o que tem gerado uma mudança imensa nos materiais”, explica Mirra.

O palestrante mostrou que novos materiais usados em painéis e estruturas, resistentes à penetração e que trouxeram significativa redução de peso aos automóveis não vêm de fora, foram desenvolvidos aqui no Brasil e são vanguarda no mundo. “Ele estava citando uma patente nossa, associada a três teses que orientei, que geraram tanto a inovação como artigos em revistas de prestígio. Fiquei emocionado. Esse caso é um exemplo de que pode haver sincronia entre interesse acadêmico e interesse industrial.”

Sobre o processo de elaboração desse produto, Mirra conta que depois de muita experimentação seu grupo no Departamento de Engenharia Metalúrgica e de Materiais na UFMG, em associação com a Usiminas, chegou finalmente ao modelo ideal - desenvolvido, aperfeiçoado e testado no mundo real. O produto foi comercializado pela Usiminas sob a sigla UsiBH (Usi de Usiminas e BH de bake hardenable, que significa ‘endurecível no forno' em inglês).

Mas embora o desempenho do novo produto fosse sensivelmente superior ao da concorrência internacional, nenhuma montadora no Brasil pensou, de início, em utilizá-lo. “A cultura dominante estava mais habituada a inovações oriundas do Japão, da Alemanha. Mas feito no Brasil?”, conta Mirra. Aconteceu que a Fiat, que estava mudando suas estratégias, tomou a decisão de privilegiar, nos países onde estava implantada, inovações e engenharia locais. Ela então mapeou produtos brasileiros que poderiam ser incorporados e o UsiBH foi escolhido. “Depois dessa iniciativa, outras empresas também passaram a utilizá-lo.”

Evando Mirra enfatiza que o Brasil está em processo de transformação, em que as empresas, depois de dominarem a produção com qualidade, começam a se apropriar das estratégias de inovação, que nos países mais avançados caracterizam o diferencial básico de competitividade. Embora possam inovar de diferentes maneiras, a realização interna de P&D é traço distintivo de sua competência.“Aqui no Brasil esta é hoje a questão chave, a de promover o crescimento do P&D interno nas empresas”, sustenta.

Embora seja um partidário praticante da interação universidade-empresa, Mirra ressalta que certamente são instituições muito distintas e que, portanto, a pior coisa que se pode fazer é confundir, imaginar que se pode usar a universidade como se usa uma empresa. “São instituições com funções e papéis diferenciados”. Mirra reforça que a universidade tem uma missão cultural. “Ela tem um papel fundamental no processo civilizatório. E o produto essencial dela ainda é o recurso humano de alta qualificação”.

Mas defender o projeto acadêmico, seu ethos e seus critérios de qualidade, não significa propor que a universidade deva ficar indiferente à realidade que a afeta. “Se a inovação é hoje a responsável por mais da metade da riqueza gerada nos países avançados, já se torna só por isso um objeto de interesse da universidade. Além disso, embora a empresa seja o locus da inovação, e seu agente principal, a inovação só vai ocorrer e se tornar fonte de riqueza se operar dentro de um sistema complexo de relações, com o envolvimento com a sociedade, deve ser compreendida, acolhida pelas agências de financiamento, pelo sistema bancário, precisa ser divulgada nos jornais.”

Segundo Mirra, o engenheiro da universidade detém um conhecimento importante, mas daí a transformá-lo em um produto industrial há uma grande distância. E descreve uma experiência bem sucedida nesse sentido. “Temos desde 1973 um programa de pós-graduação - avaliado desde o início com nível A no mestrado e no doutorado - no Departamento de Engenharia Metalúrgica e de Materiais da UFMG - para o qual trazemos engenheiros de empresas. Ele fica um ano cursando disciplinas. Depois realiza parte de seu trabalho de tese na usina, parte na universidade, às vezes parte fora do país e depois de um ano ele defende a tese”. Nesses anos de existência, o programa já formou mais de 300 mestres em diversas habilitações.

Atualmente, Evando Mirra reúne-se com o grupo com menos freqüência, pois assumiu a direção de Inovação da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), que fica em Brasília, no ano de 2006. “A ABDI é muito recente, foi criada junto com a Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (PITCE), em 2004, como uma das estratégias facilitadoras da transformação desse projeto em realidade. Ela oferece à indústria um conjunto de instrumentos e de práticas de fomento à inovação, que representam um avanço para o país e contribuem para torná-lo mais competitivo no quadro internacional.”

A ABDI trabalha hoje com diferentes setores, visando seu desenvolvimento e aumento de competitividade, o que envolve tanto ações de curto prazo quanto trabalhos prospectivos e desenho de rotas tecnológicas numa perspectiva de futuro. O setor de cosméticos e artigos de higiene, por exemplo, congrega hoje cerca de 1.500 empresas no Brasil. “As 15 empresas líderes do setor, que respondem por cerca de 75% do faturamento, são empresas inovadoras, realizam pesquisa interna e animam redes de pesquisa, são cidadãs do mundo”, diz Mirra.

Com elas, a agenda da ABDI já envolve diretamente estratégias de fortalecimento das atividades inovadoras e perspectivas futuras. Com outros blocos do setor as prioridades podem ser outras e exigirem outros instrumentos. “Nesse caso concreto foram oito as diferentes linhas de trabalho definidas com o setor, de forma a contemplar situações distintas e diferentes urgências”, acrescenta o pesquisador. A abordagem dessas linhas sempre se faz com múltiplos parceiros. Além dos trabalhos prospectivos realizados principalmente com o CGEE, o Sebrae, por exemplo, foi um parceiro absoluto em todas as etapas desse trabalho.

Com a Lei de Inovação e a Lei do Bem, regulamentadas em 2006 e 2007, aumentou o número de empresas que recorrem a incentivos governamentais para dinamizar seus processos inovativos. “Em reunião recente com 40 empresas que estão utilizando dispositivos previstos nessas leis pude constatar um alto grau de satisfação, associado a certa cautela, face à novidade dos mecanismos.” Há empresas que relatam ganhos da ordem de 30 a 33% do custo da pesquisa. Algumas elas reportaram estar dobrando seu investimento em P&D.

Criativo e entusiasmado, Evando Mirra é certamente um partidário da multidisciplinaridade. Ele conta que uma de suas experiências mais bonitas foi um seminário que manteve por dez anos na pós-graduação da Engenharia Metalúrgica e de Materiais em Minas Gerais, intitulado Análise da Prática Científica. “Era aberto a todos os alunos da pós-graduação, começaram a aparecer estudantes – e também professores - da Física, da Química, da Matemática, da Filosofia, da Biologia, da Sociologia, além da Engenharia é claro”.

A partir de alguns textos de referência – de Bachelard, Serres, Habermas, Feyerabend, Prigogine, entre tantos outros – os professores tinham o cuidado de ficar atentos, em busca de uma linguagem comum. “Bem sabemos o que se exige de paciência e determinação para se criar um terreno comum de entendimento. Mas valia a pena. Era um curso semanal de duas horas, à noite, imensamente prazeroso, em que aprendemos a saborear a infinita riqueza de ressonâncias do projeto acadêmico e a compartilhar um pouco da magia multifacetada da prática científica”.

Fica o exemplo e a sugestão.

 

(Notícias da ABC, 20/8)

 
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 O geólogo tem que ser repórter de natureza


Nascido em 1939, em Areal, no Rio de Janeiro, e criado em Barbacena, no interior de Minas Gerais, o interesse do geólogo Eduardo Ladeira por minerais vem de pequeno quando o poeta e professor de português Honório Armond, amigo de seu pai e vizinho, mostrou-lhe uma estante cheia de pedras dos mais variados tipos e cores. “Eu fiquei fascinado”, lembra o Acadêmico. Daí para a Geologia foi um pulo.

Formado técnico em Metalurgia e Mineração pela Escola de Técnica de Ouro Preto, Ladeira passou pelo Instituto de Tecnologia Industria de Minas Gerais (ITI), onde trabalhou em pesquisa mineral; pela C emig, onde trabalhou com geologia aplicada à construção de barragens e Geologia e Sondagem Ltda. (Geosol), atuando em levantamentos geológicos e perfuração mineral. Quando voltou às salas de aula, porém, foi que pôde dar eco aos fundamentos de sua ciência. O convite para docente aconteceu em 1969, logo após o chamado expurgo do governo militar, que lamentavelmente causou uma fuga de cérebros da Universidade de Brasília, época em que o curso de Geologia também perdeu muitos professores.

“Grande parte do trabalho da Geologia, principalmente na área de mineração e meio ambiente, se resume em extensivos e intensivos trabalhos de campo e laboratoriais, com elaboração de mapas, relatórios, fotografias e produtos de geoprocessamento”. Por envolver muitas ilustrações e documentos, na opinião de Ladeira, existe uma dificuldade de divulgação. “Então, o geólogo, mais do que outros cientistas, tem que ser repórter de natureza, tem que saber explicar para as outras pessoas o que é a sua ciência”, argumenta. Ele recorda a influência que recebeu do falecido Acadêmico Othon Leonardos I, que considera o maior divulgador das geociências. “Seus artigos e livros são até hoje fonte de valiosíssimas informações.”

Surgiu então a oportunidade de ir para o Canadá, onde realizou a parte laboratorial de sua tese de doutorado sobre a estrutura e origem da jazida de minério de ouro da Mina de Morro Velho, orientado pelo Professor William S. Fyfe, University of Western Ontario e Membro Estrangeiro da ABC. Ladeira diz que foi uma época muito boa. “Foi a primeira vez que me senti na fronteira da Ciência. Entre 1977 e 1978 vi o nascimento do computador pessoal, que chegara às lojas. Conheci expoentes da Geologia, da Mineração, da Oceanografia e até da Astrofísica”. Neste período, Ladeira destacou o apoio da esposa, que datilografou incansavelmente sua tese e os textos de seus livros.

Ao voltar do Canadá, em 1980, continuou na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). E daí em diante não saiu mais do mundo acadêmico. Cinco anos depois foi para a UFMG. “Fiz minha carreira toda envolvido com alunos e sempre me dei muito bem com eles”, conta. Fundou cursos de pós-graduação, participou de órgãos colegiados, interagiu com colegas de praticamente todos os cursos similares do Brasil e de universidades estrangeiras.

Embora aposentado atualmente, o geólogo não parou de trabalhar. Além de artigos publicados sobre pesquisas próprias, posteriores à aposentadoria, tem dado consultoria para empresas e instituições, além de treinar jovens geólogos para trabalhar em mineradoras e fazê-las produzir mais e melhor, aplicando conhecimentos científicos e técnicos. “Trabalho na área de Geologia Econômica: faço mapeamento geológico, atuo em Metalogênese, Geologia Estrutural e, ao mesmo tempo, ensino um pouco de Filosofia e de Ética também”.

Segundo Ladeira, o Brasil ainda está sendo “arranhado” pelos geólogos; ainda tem muitas coisas novas para se explorar e muitas para serem encontradas, como podemos ver pelos avanços recentes da Petrobras em Geologia do Petróleo. “Nos EUA, cujo território é em sua maior parte muito bem mapeado geologicamente, ainda são encontradas jazidas de petróleo e de outros metais em vários de seus estados e em sua plataforma continental.”

O Acadêmico avalia que a Paleontologia brasileira está tomando impulso atualmente com os dinossauros, o que a torna mais popular e atrai os jovens para outros campos da geologia. “A corrida espacial também é um chamativo para os jovens se interessarem pela Geologia Planetária”. Na sua área, Ladeira considera que ainda há muito por fazer”. O pesquisador, que foi consultor do CNPq, Finep, Fapesp e Fapemig, explica que hoje, por exemplo, está se começando a aproveitar o minério de ferro semiduro e duro, com 35 a 40% de ferro, sendo que anteriormente só se aproveitava o minério com mais de 60% de ferro. “Hoje há uma corrida de minério de ferro no Brasil enorme por causa da China, que o está importando em vastas quantidades. Portanto, as mudanças e inovações tecnológicas são fatores fundamentais que têm que ser enfatizados nos cursos universitários seja nos de Geologia, Geografia, nos de Química, Informática, e mesmo no jornalismo científico.”

Sobre o futuro da ciência no país, Ladeira acha que se o Brasil quiser ser independente e competitivo em nível internacional, vai ter que fazer um investimento muito grande em C&T - na faixa de 2,6% ou 3% do PIB -, assim como em educação e saúde pública. “Singapura, Coréia do Sul e Formosa investiram em 2004, respectivamente, 2,23%, 2,85% e 2,38% de seu PIB só em P&D, sem contar os investimentos em educação básica. E o Brasil? Só 0.91% do PIB”...

Ladeira salienta ainda que a Índia exporta, em softwares, cerca de 25 a 30 bilhões de dólares por ano enquanto o Brasil, muito mais criativo, só exporta US$ 800 milhões. E sugere que a Academia Brasileira de Ciências colabore com a Transparência Brasil e a outras iniciativas afins para obter dos políticos investimento maior em educação e saúde. Esta entidade, inclusive, promoveu em estudo sobre como a educação melhoraria os índices econômicos brasileiros. Os resultados indicam que se durante dez anos as crianças e jovens fossem educadas no sentido da cidadania, quando chegassem na vida adulta talvez a corrupção diminuísse em 10%, o que acrescentaria três mil dólares ao salário per capita no Brasil.

Outro estudo, feito pelo curso de Engenharia Sanitária da UFMG, concluiu que se hoje se começasse a fazer o saneamento básico nos mais de cinco mil municípios do país, sem corrupção e sem descontinuidade de verba, demoraria 280 anos para que todos tivessem água potável e saneamento de esgoto e de lixo. Ladeira lamenta, porém, a falta de vontade política, que para ele é o maior problema. Ele conta que, ao ser interpelado por um jornalista, que lhe perguntou se não achava que a educação é muito cara, um grande industrial americano respondeu que concordava, mas que certamente o custo da ignorância é muito maior.

(Notícias da ABC, 20/8)

 
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 Computadores e tecnologia estão em todos lugares


Nascido em Belo Horizonte no ano de 1950, Virgilio Almeida é engenheiro eletricista, formado em 1973 pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Trabalhou oito anos, como analista e engenheiro na Petrobrás e na Cemig. Em 1980, finalizou o Mestrado em Informática na PUC-Rio. Em 1983, decidiu largar a Cemig e iniciar o doutorado nos EUA. Completou o doutorado em Ciência da Computação em 1987 na Universidade de Vanderbilt e retornou ao Brasil para a UFMG, onde em 1994 se tornou professor titular do Departamento de Ciência da Computação.

Na UFMG, Virgílio foi chefe do Departamento de Ciência da Computação, diretor adjunto do Instituto de Estudos Avançados Transdisciplinares (IEAT-UFMG) e membro de vários órgãos colegiados. Prestou serviços à comunidade acadêmica brasileira inclui, dentre outras coisas, a participação em diversos comitês da área em órgãos públicos de C&T.

Virgílio Almeida tem tido atuação intensa no desenvolvimento teórico e prático da área de modelagem de desempenho de sistemas de computação, que tem aplicações práticas na área de redes e infraestrutura de computação. Tem analisado e modelado o comportamento de sistemas distribuídos em larga escala, como a Internet, e publicou livros que são tidos como referência na área, especialmente um, intitulado Capacity Planning for Web Performance: metrics, models and methods , que foi adotado em dezenas de programas de pós-graduação nos EUA, Europa e Ásia, tendo sido publicado em inglês, russo, coreano e português.

O Acadêmico mantém forte cooperação internacional, tendo sido professor-visitante na Boston University e na Universitat Politècnica de Catalunya (UPC) e pesquisador visitante nos Laboratórios da Xerox-Parc e HP Research Lab, Palo Alto, EUA. Atualmente é International Fellow' do Santa Fe Institute, EUA. Virgilio tem também procurado divulgar a ciência e a tecnologia da computação no Brasil, através de artigos publicados em jornais e revistas de circulação nacional tem buscado chamar a atenção do grande público para a importância e o impacto da ciência e tecnologia na vida das pessoas e na sociedade.

Ele conta que a Ciência da Computação surgiu muito próxima das Engenharias – teoricamente, surgiu com os matemáticos nos anos 30. “Allan Turing propôs os modelos teóricos de computação, mas os dispositivos, os computadores, o que é hoje comum para as pessoas começou com a Engenharia Elétrica e Eletrônica”, explica o pesquisador.

A Computação revolucionou a pesquisa científica, sendo hoje reconhecida como o terceiro pilar que sustenta a pesquisa, junto com a teoria e a experimentação. Ela permeia os avanços em todas as áreas do conhecimento. “Novas formas de interação entre as ciências, em vários níveis e escalas, são mediadas pela Tecnologia da Informação, que é a simbiose da Ciência da Computação com diferentes domínios do conhecimento. Muitas das grandes descobertas científicas recentes são resultados do trabalho de equipes multidisciplinares que envolvem cientistas da Computação”, destaca Virgílio.

Sua importância para a sociedade é indiscutível: é um componente indispensável para a implementação e o fortalecimento dos objetivos econômicos, tecnológicos e sociais de um país. Com a evolução da tecnologia, a computação foi criando seus próprios conceitos teóricos, se firmando como área e criou o corpo de conhecimentos que a torna uma disciplina científica fundamental para o avanço da ciência em geral.

Por outro lado, a evolução da tecnologia tornou os produtos muito baratos e populares, na forma de máquinas que substituem, sozinhas várias outras, através da convergência da computação e comunicação. Assim, o computador hoje está em presente em todos aspectos da vida moderna, com os indivíduos, empresas e governos. “É como se existisse uma camada entre a natureza e a sociedade formada pelas máquinas e pela inter-relação entre as máquinas. Isso tem vários impactos sociais como, por exemplo, um aumento muito grande da produtividade. Por outro lado traz problemas científicos desafiadores, como tratar volumes enormes de informação ou como obter a confiabilidade de redes que tem bilhões de componentes.

Hoje qualquer lojinha nos grotões de Minas Gerais pode fazer um controle de compras, de vendas e contábil com um computador. “O governo utiliza tecnologia, por exemplo, para gerenciar o imposto de renda, todo mundo submete a declaração eletronicamente. O IBGE cruza todos os dados possíveis para sistematizar as informações sobre a população brasileira, o sistema de saúde usa as informações de saúde acopladas às informações da seguridade social”, exemplificou Virgílio.

E a tendência é só crescer, com os aparelhos multifuncionais. “Amplia-se a miniaturização dos componentes, diminui-se o custo e ampliam-se as possibilidades de utilização, facilita-se o controle e a organização social”, avalia o pesquisador. Os problemas derivados da penetração da computação na sociedade também existem. “Temos a questão do analfabetismo funcional, pois à medida que se amplia a penetração do computador ele passa a ser um pré-requisito no mercado de trabalho, o que gera a necessidade de aumentar o acesso digital às classes menos favorecidas.”

Mas o pesquisador é entusiasmado pela sua área. “Há o aspecto do avanço tecnológico e o aspecto da ciência da computação, no sentido da explosão da informação. Como tirar proveito dessa informação, como torná-la útil, são questões interessantes sobre as quais é importante refletir”. Com esse objetivo, formou-se um grupo que inclui seis Acadêmicos para refletir sobre quais seriam os grandes desafios para a computação nos próximos dez anos.

“Nós propusemos problemas a serem pesquisados. Não que pretendamos resolvê-los todos, mas ter um norte. Conseguimos ver onde estão os problemas difíceis, ver aonde a ciência pode contribuir. São grandes desafios científicos que têm uma relevância social e nacional”. Em 2001 ele participou de um projeto semelhante na National Science Foundation, daí a idéia de fazer um similar para o Brasil.

O documento Grandes Desafios da Pesquisa em Computação no Brasil 2006-2016, construído durante seminário realizado em 8 e 9 de maio de 2006, em São Paulo, promovido pela Sociedade Brasileira de Computação (SBC), tem entre os 26 autores, os Acadêmicos Carlos José Pereira de Lucena, da PUC-Rio; Edmundo Souza e Silva, da UFRJ; Imre Simon, da USP; Nívio Ziviani, da UFMG, e o próprio Virgílio.

Os cinco desafios:

1. Gestão da Informação em grandes volumes de dados multimídia distribuídos

Quase tudo que vemos, lemos, ouvimos, escrevemos, medimos é coletado e disponibilizado em sistemas de informação computacionais. Para obter efetividade e eficiência, é fundamental criar soluções escaláveis que possam responder às necessidades de desenvolvimento de aplicações com esses dados. Isto é importante porque, além de estimular a pesquisa em áreas básicas em Computação, sua integração pode influir no desenvolvimento de inúmeras aplicações chave em vários setores da sociedade.

Alguns exemplos são: criação de conteúdo para atividades educacionais (e-learning), gestão eficiente da informação visando apoio a governo eletrônico (e-gov), extração de subconjuntos inter-relacionados de dados para apoio à pesquisa científica (e-science), disponibilização de informações relevantes para diagnóstico médico à distância (telemedicina), bibliotecas digitais e entretenimento digital.

2. Modelagem computacional de sistemas complexos artificiais, naturais e sócioculturais e da interação homem-natureza

O termo Modelagem Computacional foi criado para designar modelos, algoritmos e ferramentas computacionais para solução de sistemas complexos de diferentes naturezas. Isto permite, por exemplo, estudos de desempenho de grandes sistemas computacionais, sem a necessidade de implementá-los – simulando, por exemplo, o comportamento de redes de computadores com milhões de nós.

Além disso, possibilita que cientistas em outros domínios do conhecimento possam investigar problemas que até recentemente não poderiam ser tratados, pelo excesso de dados manipulados ou pela inviabilidade de estudá-los em laboratórios. Alguns exemplos são os estudos de genômica, de processos bioquímicos, da física de partículas, de mudanças climáticas, de fenômenos epidemiológicos ou de interações sociais com milhões de participantes, como comunidades digitais ou na rede. Esta área tem atraído atenção crescente, por causa dos benefícios econômicos e sociais a ela associados.

3. Impactos para a área da computação da transição do silício para novas tecnologias

A tecnologia de produção de circuitos está se aproximando dos limites físicos do átomo. O aumento em velocidade de processamento vem sendo obtido a partir da miniaturização e empacotamento de cada vez mais componentes em um chip. Isto, no entanto, aumenta a quantidade de calor gerada e o perigo da interferência entre componentes.

Já existem diversas pesquisas para o desenvolvimento de novas tecnologias – como a computação quântica ou baseada em fenômenos biológicos – que substituirão ou trabalharão complementarmente ao silício. O objetivo deste desafio é analisar quais as mudanças pelas quais devem passar a pesquisa e o desenvolvimento em Computação como conseqüência da transição para novos tipos de paradigma de processamento.

4. Acesso participativo e universal do cidadão brasileiro ao conhecimento

A Tecnologia da Informação introduziu uma revolução na comunicação entre pessoas e sua forma de trabalho. Através de redes de computadores, todos podem se comunicar e compartilhar os mais diversos recursos, independentemente da localização ou de presença física simultânea.

Existem, porém, barreiras tecnológicas, educacionais, culturais, sociais e econômicas, que impedem o acesso e a interação. Este desafio ganha novas proporções no cenário de uma população com a diversidade e os problemas da nossa, com enormes diferenças sócio-econômicas, culturais, regionais e de acesso à tecnologia e ao conhecimento. Setores do governo, universidades e o setor privado podem buscar soluções tecnológicas de alcance social que procurem diminuir tais diferenças e resgatar valores de cidadania em nossa sociedade.

5. Desenvolvimento tecnológico de qualidade: sistemas disponíveis, corretos, seguros

A Tecnologia da Informação está cada vez mais presente em nosso quotidiano. Vários eletrodomésticos e elevadores, por exemplo, tem controle via software; carros, tratores, aviões, celulares, sistemas de controle de tráfego e salas de cirurgia também dependem desta tecnologia.

Se isto traz conforto, porém, também acarreta problemas. Como dependemos desses sistemas, eles precisam estar sempre disponíveis e não apresentarem falhas; devem funcionar da forma prevista e ser escaláveis e seguros. Este desafio visa, desta forma, a pesquisa capaz de auxiliar os projetistas e desenvolvedores de grandes sistemas de software e hardware a atingirem esses objetivos.

(Notícias da ABC, 20/8)

 
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