“Nunca houve tanto dinheiro para pesquisa como agora”
Especialista em Genética de populações, o vice-presidente da ABC para a região Sul, Francisco Salzano diz que foi p reciso que um operário se tornasse Presidente da República para que a ciência e a educação recebessem a atenção adequada no país.
     
Somos mais parecidos com baleia, cachorro ou coelho?

O biólogo molecular Eduardo Eizirik e colaboradores desenvolveram uma nova filogenia dos mamíferos placentários que mostra que o coelho e o homem têm mais identidade genética do que se imaginava.

 

Controle biológico a partir de vírus de lagarta

O agrônomo Flávio Moscardi desenvolveu método de combate à praga da soja que usa produto extraído da própria lagarta e reduz o uso de produtos químicos nas plantações brasileiras.

     

É o momento de pensar em inovação

O neurocientista gaúcho Rafael Roesler sempre quis ser cientista e hoje é também um empreendedor, fundador de uma empresa voltada para pesquisas biomédicas e biotecnologia que pretende aproximar os laboratórios acadêmicos da indústria.
 

Medicina preventiva e desigualdade social

O médico Cesar Victora fornece dados para diversas pesquisas em saúde pública através da análise de três coortes de nascimento de Pelotas, realizadas em 1982, 1993 e 2004, num dos maiores estudos do gênero realizados no mundo.

   

“Sem a memória não há conhecimento”

O neurocientista Martin Cammarota não tem seu foco na busca da cura das doenças ligadas à memória, como Alzheimer, e sim no conhecimento do funcionamento bioquímico do cérebro e do sistema dinâmico que é a memória em si.

 

Indo a fundo na Biologia da Memória

Chefiando uma equipe de 30 pesquisadores no Centro de Memória do Instituto de Pesquisas Biomédicas da PUC-RS, o diretor da ABC Iván Izquierdo estuda as bases químicas e fisiológicas da memória .

     

A sorte favorece aqueles que são bem preparados

Dedicação, empenho, persistência. Essa é a receita para o sucesso do físico Cristiano Krug, gaúcho que começou na Química, mas hoje trabalha com pesquisa de Física de materiais aplicada a nanoeletrônica.

 
Líquidos iônicos: recicláveis e não poluentes

O Acadêmico Jairton Dupont trabalha com esta classe de compostos que têm uma vasta gama de aplicações industriais, substituindo os solventes orgânicos e com potencial de dissolver celulose e madeira.

     
"A Matemática não é uma ciência solitária"

Apaixonado pelos números, o matemático gaúcho Jairo Bochi optou por morar na Cidade Maravilhosa pela diversidade de possibilidades de interação em sua área de pesquisa, bem maior que em sua cidade natal.

 
No limite das estruturas: confiabilidade e risco

O engenheiro Jorge Daniel Riera, professor da UFRGS há mais de 30 anos, diz que as estruturas são como a saúde: pequenas deficiências, se ignoradas, podem com o tempo acarretar graves conseqüências.

     
“A Antropologia era a prima pobre das Ciências Sociais”

Ex-presidente da Anpocs, criador do mestrado e doutorado em Antropologia da UFRGS, Ruben George Oliven diz que até o final da década de setenta as Ciências Sociais mais valorizadas eram a Sociologia e a Ciência Política .

 
Dedicação ao estudo das argilas da América do Sul

Aos 80 anos, o geoquímico Milton Luiz Laquintinie Formoso mantém seu ritmo de trabalho, focado na pesquisa em Geoquímica, especialmente nas bentonitas, que são formadas por material vulcânico e têm excepcional aplicação tecnológica.

   
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Notícias da ABC - Ano III - nº 54 - 23 de janeiro de 2008 
 
 

Responsável:
Elisa Oswaldo-Cruz - elisa@abc.org.br

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“Nunca houve tanto dinheiro para pesquisa como agora”


O gosto pela ciência certamente não foi o fator inicial determinante para o geneticista Francisco Mauro Salzano seguir a carreira biológica. Pelo contrário. O cientista, com graduação em História Natural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde atualmente é Professor Emérito, tinha outros interesses quando jovem. “Eu estava muito mais voltado para os problemas sociais, a arte, o cinema e a literatura do que propriamente a ciência”, conta. Porém, uma coisa era certa para Salzano: ele queria ser professor. A vontade de lecionar e a profissão do pai – médico – fizeram com que o gaúcho de Cachoeira do Sul prestasse vestibular para História Natural e Medicina. Como o interesse pela carreira médica nunca existiu, Salzano, que se definia como um aluno médio no curso secundário, ingressou no Curso de História Natural.

A escolha definitiva, no entanto, veio um pouco mais tarde. Ao participar de um grupo de estudos sobre zoologia, a fim de suprir a falta de empenho de um professor e a sua matéria fraca, o então biólogo foi descoberto por um outro professor, o cientista Antônio Cordeiro, também membro da Academia Brasileira de Ciências. O docente, que buscava alunos interessados, encontrou em Salzano a possibilidade de um futuro parceiro e o convidou para ser seu colaborador voluntário no laboratório que estava sendo criado. “A minha primeira tarefa foi passar um conjunto de moscas – Drosophilas - de um vidro para outro e foi com a maior emoção que eu fiz isso. Foi amor à primeira vista. Naquele momento eu estava me decidindo eternamente”, lembra entusiasmado.

Daí para frente a carreira de Salzano deslanchou. Ao finalizar o bacharelado, o geneticista ganhou uma bolsa de aperfeiçoamento para estudar em São Paulo, em um golpe de sorte que ele não esperava. A bolsa em questão estava destinada a um outro estudante do laboratório, que desistiu de História Natural e foi fazer Medicina. Assim, Cordeiro indicou Salzano para a bolsa em questão e ouviu do pesquisador ofertante, Crodowaldo Pavan, também membro da ABC: “Se o garoto é promissor, pode mandar”. Talento posto à prova e confirmado, logo surgiram a bolsa de aperfeiçoamento do CNPq e a admissão na Universidade Federal do Rio Grande do Sul como instrutor de ensino. Nas palavras do cientista, “foi aí que tudo começou”, alegra-se.

Iniciou seu trabalho científico com pesquisas em Drosophila, mas após um estágio de pós-doutorado, por um ano, no Departamento de Genética Humana da Faculdade de Medicina da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, passou ao estudo da Genética Humana, que desenvolve até hoje. Concentrou-se na investigação de características normais e patológicas em um grande número de populações de todos os grupos étnicos, especialmente indígenas. Essas pesquisas envolveram diversos níveis, como o molecular (DNA e proteínas), citológico (variação normal e aberrações cromossômicas), fisiológico (anemias hereditárias e outros processos patológicos) e comportamental (variáveis da inteligência e da personalidade, distúrbios de linguagem, incesto).

Preocupado com problemas da comunidade, por muitos anos manteve um Serviço de Aconselhamento Genético, inteiramente gratuito, e assessorou a justiça em casos de determinação de paternidade. Colaborou também em investigações envolvendo pastagens nativas do Rio Grande do Sul, trigo, roedores, gado e primatas não-humanos, além de felinos da América do Sul.

A pesquisa com populações indígenas, porém, que é o forte da sua história profissional, tem sido prejudicada pelas dificuldades que o pesquisador tem encontrado no acesso a essas populações. “Isso ficou complicado depois de um determinado momento. Houve agora uma possibilidade de reinício do trabalho de campo com um grupo Xavante, uma comunidade que acompanhamos há alguns anos nas margens do Rio das Mortes. Estamos envolvidos em um estudo sobre tuberculose”.

Por outro lado, Salzano conta que uma colaboradora que tinha conseguido todas as permissões possíveis com outro grupo em Rondônia. “Após ter o material já coletado, na hora H os líderes que já haviam dado o consentimento resolveram negar, talvez por influência da Funasa. Dizem que em Rondônia tem mais ONGs do que índios. Mas, pelo menos com os Xavantes, vamos fazer um trabalho bom”.

Em Belém, o grupo de parceiros de Salzano também está trabalhando com problemas médicos em diversos grupos da região amazônica. “Eles conseguiram permissão e estão fazendo trabalho de campo sem grandes problemas”. Toda a formação dos grupos de pesquisa em Genética em Belém foi realizada através de uma colaboração inicial com a UFRGS, contou Salzano. “O fundador de lá, Manuel Ayres, veio fazer um estágio de um ano aqui em 1965, voltou, começou a montar o grupo de lá e iniciamos um intercâmbio. Muitas das pessoas de lá vieram fazer mestrado e doutorado aqui, temos muitos trabalhos publicados em conjunto.”

A excelência de seu trabalho foi reconhecida através de inúmeras premiações ao longo de sua vida. Entre as dezenas de homenagens que recebeu estão o Prêmio Scopus 2006, da Editora Elsevier e da Capes/MEC; o Prêmio Moinho Santista 2004, outorgado pelo Governo do Estado de São Paulo; a Medalha CAPES 50 Anos, recebida em 2001; Pesquisador Destaque 2000 na área de Ciências Biológicas da Fapergs; o Franz Boas High Achievement Award 1999, da Human Biology Association; o Annual Award 1997, oferecido pela Ibero-American Society of Human Genetics; a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico, oferecida pelo Presidente da República do Brasil em 1995; o Prêmio Almirante Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia 1994, outorgado pelo CNPq.

No plano administrativo, Salzano tem muita experiência. Chefiou a Seção de Genética e foi diretor do Instituto de Ciências Naturais da UFRGS nos anos 60, e foi chefe do Departamento de Genética do Instituto de Biociências da UFRGS entre 1973 e 1975. Foi também presidente da Sociedade Brasileira de Genética, secretário-geral da International Association of Human Biologists, vice-presidente da International Union of Anthropological and Ethnological Sciences, vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e presidente da Asociación Latinoamericana de Antropologia Biológica. Foi membro da Comissão Consultiva de Peritos em Genética Humana da Organização Mundial de Saúde de 1964 a 1999.

Salzano vê o momento atual como positivo para a ciência no Brasil. “Nunca houve tanto dinheiro para pesquisa como agora. Isso foi uma das grandes conquistas do Governo Lula”. Segundo ele, mais de 50% da investigação científica brasileira está concentrada em São Paulo e agora há uma grande preocupação de que ela seja distribuída de maneira mais homogênea no território nacional. O geneticista atribui a Lula o maior espaço e a maior preocupação com a ciência no país. “Precisou que um operário fosse Presidente da República para dar a atenção adequada à ciência e também ao ensino fundamental, com a medida provisória que garante um salário mínimo mais digno aos professores da rede pública dessa faixa de ensino”, destacou o cientista.

Em relação à ciência na região Sul, Salzano fez um balanço e traçou um painel geral. Segundo ele, no Rio Grande do Sul é onde o desenvolvimento científico foi maior, além de ser o estado com o maior número de membros da ABC. A Genética, por exemplo, começou muito bem no Brasil, em São Paulo, e já tem destaque internacional. A partir da irradiação de São Paulo, foram formados dois núcleos principais no Sul: um no Rio Grande do Sul e outro em Curitiba. Segundo o geneticista, “são dois grupos de excelência, que vêm, ao longo de 50 anos, desenvolvendo pesquisa muito séria e importante”. Outras áreas de destaque do estado são a Física e a Geologia, muito fortes e de repercussão internacional.

No entanto, o apoio à pesquisa no Estado vai de mal a pior. “A Fundação de Amparo à Pesquisa (Fapergs), que por medida constitucional deveria receber uma parcela importante da arrecadação dos impostos, teve destinado a ela até hoje no máximo 30% do que deveria receber”, lamenta Salzano. E emenda: “Aqui no Rio Grande do Sul, a governadora Yeda Crusius está fazendo um governo danoso para a área. Ela não toma nenhuma atitude com relação a Fapergs, que está praticamente paralisada, e até cogitou a possibilidade de acabar com a Secretaria de Ciência e Tecnologia”, indigna-se o cientista.

Salzano finaliza falando sobre a importância da iniciação científica na formação de futuros Mestres e Doutores. O cientista comemora a contribuição do Programa de Iniciação Científica do CNPq, que deu uma grande quantidade de recursos para essa função específica e, com isso, fez desenvolver bastante a iniciação no país. Isso, segundo Salzano, reflete automaticamente na pós-graduação. “A maioria dos nossos estudantes de iniciação continuam no mestrado e no doutorado”, conclui.

 

(Notícias da ABC, 23/1)

 
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Somos mais parecidos com baleia, cachorro ou coelho?


Os pais são professores universitários em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul – a mãe psicóloga e o pai médico psiquiatra. Viajavam muito com o casal de filhos, iam a museus de arte e de história natural. O Membro Afiliado da ABC eleito em 2007 Eduardo Eizirik diz que sua lembrança mais antiga é de querer ser cientista e desenhista aos cinco anos. “Meus presentes eram sempre livros, especialmente de animais, meus pais colecionavam fascículos sobre fauna que liam para mim na hora de dormir. Sempre gostei de desenhar, mas logo deixei de considerar seguir esse caminho profissional, enquanto a ciência ficava mais forte. Aos oito anos decidi que seria um especialista em bichos.”

Na 6ª série do Colégio de Aplicação da UFRGS, com 11 anos, teve que fazer um projeto de pesquisa individual sobre qualquer tema e escolheu mamíferos. Depois deste ano desenvolveu por sua conta um livro, focado especialmente em felinos selvagens, com figuras recortadas de revistas e livros – é assinante da National Geographic desde 1987. A partir dos 14 anos Eizirik começou a montar seu acervo bibliográfico especializado, e mais tarde fez vestibular para Biologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), visando a Zoologia. “Como eu já tinha algum conhecimento, aproveitei muito a graduação. O curso me abriu os horizontes, pois eu pensava só em felinos e lá descobri os invertebrados, a Botânica, a Genética.”

Aos 18 anos foi fazer um estágio num projeto de pesquisa sobre Ecologia de felinos, num Parque Estadual da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado. “Lá tinha onça-pintada, jaguatirica, jaguarundi e outros. Meu trabalho era estudar a dieta, o conteúdo das fezes e outros aspectos dos felinos em campo”. Eizirik pretendia até então desenvolver suas pesquisas nessa área de Ecologia e conservação de felinos em campo.

No 6º período, porém, cursou a disciplina de Evolução com o Prof. Aldo Araújo, que o motivou muito. Quando chegou no estudo da filogenia pensou em fazer um projeto para o bacharelado em filogenia molecular com felinos da América do Sul, um estudo que ainda não existia. Conheceu então o Prof. Sandro Bonatto, na época doutorando do Prof. Francisco Salzano na área de Genética Humana na UFRGS. Junto com Araújo, Bonatto se tornou co-orientador do projeto, que posteriormente ganhou repercussão mundial por sua originalidade. No laboratório de Salzano, Eizirik cursou seu mestrado em caracterização de genética de felinos, pesquisa ampliada posteriormente para carnívoros neotropicais. Seu estudo de mestrado foi o primeiro a utilizar seqüências de DNA em uma analise filogeográfica de um felídeo.

Em determinado momento, Bonatto e Eizirik ficaram sabendo que havia um grande projeto americano sobre filogenia de felinos da América do Sul que estava chegando ao Brasil e a outros países para coletar amostras e provavelmente “engoliria” o seu projeto. A fim de evitar a sobreposição de trabalhos, Eizirik contatou o responsável pelo projeto – Dr. Stephen O'Brien – buscando informações, e acabou se integrando ao laboratório americano, onde passou sete anos. Doutorou-se em Biologia pela University of Maryland at College Park, nos Estados Unidos, com tese sobre evolução do melanismo nos felinos e fez estágio de pós-doutorado no Laboratory of Genomic Diversity, National Cancer Institute, National Institutes of Health (NIH), durante o ano de 2003.

Sua área principal de pesquisa, a Biologia da conservação, segundo o cientista, preocupa-se com a perda acelerada de ecossistemas naturais, que gera a extinção em massa de um grande número de formas de vida. “Muitas destas espécies são completamente desconhecidas e as conhecidas o são em um nível muito básico. Isso gera um risco imediato para os humanos em termos de perda de fontes de substâncias, materiais, idéias, bem como de ‘serviços' dos ecossistemas. Gera um risco global, pela desestabilização em grande escala dos ecossistemas do planeta.”

Para Eizirik, é fundamental desenhar estratégias eficazes para conservação da biosfera, o que requer a integração das diversas áreas do conhecimento, buscando conciliar conservação da biodiversidade, desenvolvimento e qualidade de vida humana.

O pesquisador reconhece que as extinções sempre existiram em determinadas épocas e que outras espécies foram surgindo ao longo de milhões de anos. Mas as forças que geraram a destruição eram naturais, fossem glaciações ou vulcões ou outros fenômenos.

“Hoje o homem está contribuindo imensamente para a destruição e eu como ser humano não quero ser comparável a um vulcão, por exemplo, porque eu penso e tenho consciência do que estou causando e das conseqüências que meus atos podem gerar. Acho que a Academia deveria organizar um grupo de estudo sobre Biodiversidade para discutir e aprofundar essa questão.”

Os trabalhos de campo nessa área específica de carnívoros, porém, são caros. Eizirik explica que para alguns outros tipos de animais é mais fácil desenvolver estudos genéticos, mas para carnívoros há desafios extremos do ponto de vista amostral. Mesmo em projetos que contem com muito dinheiro, muitas vezes é impossível encontrar na natureza, em um curto espaço de tempo, um número suficiente de espécimes para realizar estudos evolutivos e populacionais. Por isso vários do projetos contam com amostras acumuladas ao longo de muitos anos, ou contam com equipes de campo que interagem diretamente com moradores locais. É o caso de um projeto do qual participa, que integra equipes de diversas instituições como a UnB, UFMG, Instituto Chico Mendes e outros para um estudo multidisciplinar da ecologia, do comportamento, da genética e da epidemiologia do lobo-guará na Serra da Canastra em Minas Gerais.

Paralelamente aos seus estudos “oficiais” no laboratório americano, um projeto originado lá rendeu mais frutos do que o esperado. Junto com o então pós-doutorando William Murphy, desenvolveu um estudo filogenético em grande escala sobre os mamíferos placentários. Este trabalho pode responder questões como qual o parente mais próximo do homem: uma baleia, um cachorro ou um coelho? No caso, a resposta certa é o coelho. Essa descoberta gerou um artigo publicado em 2001 que se tornou referência internacional, transformando a visão predominante até então sobre as relações evolutivas entre as ordens de mamíferos.

Entre outras repercussões em diferentes campos das ciências biológicas, os resultados destas descobertas e suas ramificações redirecionaram a seleção de genomas de mamíferos a serem seqüenciados, formando o arcabouço filogenético sobre o qual os projetos genoma são atualmente definidos e priorizados.

Segundo Eizirik, a o corrência de evolução já foi amplamente comprovada. “É sabido que todos os organismos atuais têm um ancestral comum, essa é a base conceitual para todas as ciências da vida”, diz o pesquisador. “As questões atuais se dão em torno de conhecer que forças e processos estão envolvidos na evolução, na reconstrução detalhada da história da vida e na identificação das bases moleculares dos processos evolutivos.”

Sua atividade hoje se dá basicamente no laboratório, com as amostras do DNA dos animais recolhidas em diversas fontes – de animais de zoológicos, de animais atropelados. Alguns dos seus alunos vão a campo coletar material. Essa sua linha de pesquisa une estratégias de campo e abordagens moleculares para responder a perguntas evolutivas e ecológicas. “É uma pesquisa que tem muito apelo, atrai muitos estudantes para a nossa pós-graduação porque é uma área de interface, trabalhamos com estudantes de diversas áreas. Em muitos casos os marcadores moleculares ainda não existem, então vamos desenvolvendo e adaptando marcadores de outros animais na medida em que vamos caracterizando cada espécie.”

Eizirik é membro do Cat Specialist Group, Species Survival Commission, IUCN-World Conservation Union, desde 1999. É membro da Sociedade Brasileira de Genética e da Sociedade Brasileira de Mastozoologia. Desde 2001 é pesquisador-membro do Instituto Pró-Carnívoros. Em 2003, recebeu o Outstanding Research Award do Departamento de Biologia da Universidade de Maryland, nos EUA. Em 2004 foi agraciado com o 2º lugar no Prêmio Jovem Geneticista da Sociedade Brasileira de Genética. No mesmo ano se tornou Professor Adjunto da Faculdade de Biociências da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), onde agora coordena o Programa de Pós-Graduação em Biologia Celular e Molecular. Desde 2007 Eizirik se encontra entre o 1% dos cientistas mais citados na área Biologia e Bioquímica nos últimos dez anos, com base na lista do ISI Essential Science Indicators.

 

(Notícias da ABC, 23/1)
 
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Controle biológico a partir de vírus de lagarta


Pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa de Soja da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Soja), o Acadêmico Flávio Moscardi atua na área de agentes de controle biológico, onde trabalha com fungos, vírus e bactérias. Nascido em 1949, concluiu a graduação em Agronomia pela Universidade de São Paulo (USP) em 1973 . Moscardi conta que o seu interesse pela Entomologia surgiu durante o curso. “Meu pai tinha um sítio e eu sempre tive uma queda pela área de produção de alimentos. Nos primeiros anos da universidade tive uma aula sobre insetos que atacam as plantações e me entusiasmei!”, recorda.

Seu primeiro estágio foi na área de pesquisa do Departamento de Entomologia da USP, onde encontrou o Baculovírus em uma lagarta, praga da soja. Após concluir o mestrado e o doutorado na mesma área, pela University of Florida (UF), nos Estados Unidos, Moscardi montou um projeto com o objetivo de desenvolver um produto biológico a partir deste vírus que chegasse ao produtor e reduzisse o uso de produtos químicos. “Foi difícil convencer os agricultores a usarem o produto, porque na década de 70 se aplicava muito inseticida. Eles não tinham noção do que era um produto biológico, extraído da própria lagarta”, relata.

Moscardi, que foi Presidente da Sociedade Entomológica do Brasil, explica que um produto biológico tem que penetrar no organismo da praga para atingir a célula e se multiplicar. “Isso leva muito mais tempo do que o processo de um inseticida. Foi um problema, porque o produtor estava acostumado a aplicar um agrotóxico e ver a lagarta cair. Um produto biológico não tem essa capacidade. Ele atua lentamente, mas resolve o problema”, garante.

  

Após ter sido aceito e amplamente utilizado, o uso do Baculovírus decresceu muito. “Os produtores mudaram as práticas de forma equivocada. Como aplicaram inseticidas químicos cada vez mais cedo no ciclo da cultura, foi gerado um desequilíbrio”, afirma Moscardi. Segundo ele, esta prática fez com que as pragas secundárias passassem a causar problemas e o agente biológico deixou de ser o mais indicado, por só matar uma espécie. “Houve um retrocesso no programa. Hoje tentamos retomar a questão do manejo integrado das pragas. É necessário rever técnicas incorretas, para podermos voltar a utilizar um produto específico”, explica.

Atualmente, a Embrapa, juntamente com a Emater e o Iapar, treina de 40 a 50 técnicos, especialistas em manejo de pragas, que vão treinar outros 400 técnicos

de outras instituições e de cooperativas. “Até 2009, queremos treinar 10 mil agricultores só no Paraná. É um programa que está sendo re-lançado agora e deve servir de exemplo para o Brasil. A proposta é que se faça o Manejo Integrado de Pragas (MIP) em todos os estados do país. Precisamos evitar o caos causado pelo excesso de agrotóxicos, que pode provocar a contaminação do solo e das águas”, alerta.

O pesquisador defende a criação de políticas de governo que facilitem a produção de agentes biológicos para pequenas empresas. “O custo elevado e a demora do processo de registro prejudicam e inibem a fabricação do produto por pequenas empresas. Muitos estabelecimentos têm atuado na clandestinidade, desenvolvendo substâncias não registradas e, muitas vezes, sem garantia de qualidade, o que denigre e depõe contra o controle biológico”, lamenta. De acordo com ele, uma das alternativas é criar um subsídio importante, que vá ao encontro da preservação do meio ambiente. “Poderia haver algum estímulo, inclusive de financiamento, para quem faz o controle de pragas corretamente”, sugere.

Moscardi, que foi membro do grupo de especialistas em manejo de pragas da Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAO), na Itália, explica que a maioria dos adubos, inseticidas e fungicidas químicos não podem ser utilizados em produtos orgânicos. Segundo ele, este tipo de produto é mais caro porque a produtividade da cultura orgânica é menor que a de uma produção convencional. “Por não poder usar químicos, muitas vezes a praga ocorre em populações orgânicas. Geralmente, se trabalha em pequenas áreas de produção, onde o controle é maior”, explica.

Tendo recebido o grau de Comendador da Ordem do Mérito Científico e Tecnológico do Governo do Brasil, em 2002, Moscardi acredita que o maior problema da Amazônia é o desmatamento para plantação de pastagens. “A soja entra nessas áreas degradadas, porque, além de ser uma cultura rentável, é recuperadora do solo. A questão é que já se tem uma área muito grande desmatada na floresta, em função da pecuária. O verdadeiro absurdo é plantar soja em área virgem”, argumenta.

Com relação à atividade científica, Moscardi considera que o profissional da área de ciências tem que, antes de tudo, gostar da profissão. “É preciso entender que o cientista não fica rico. Isso é uma coisa que a gente sabe e escolhe. Nós vivemos bem pela satisfação de termos uma vida digna e por contribuirmos com a sociedade”, afirma. De acordo com ele, é preocupante a cobrança da comunidade científica brasileira sobre o número de publicações. “Há uma fragmentação do trabalho, que poderia ser mais consistente e profundo. Falta continuidade: o projeto tem que ter começo, meio e fim”, defende.

Moscardi acredita que na ciência nem tudo é novidade e que boas idéias podem surgir através da revisão da literatura. “É necessário ter o prazer de se atualizar e de ler muito sobre o trabalho que os outros desenvolvem”, aconselha. “O que fascina e estimula o cientista é a possibilidade da descoberta cotidiana. Tenho prazer de inventar coisas que tenham utilidade. É muito gratificante contribuir para a utilização de um produto que não agride o meio ambiente e que não representa um risco à saúde”, orgulha-se.

 

(Notícias da ABC, 23/1)

 
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É o momento de pensar em inovação


Nascido em Santa Maria, no Rio Grande do Sul (RS), em 1973, filho de um agrônomo especializado em engenharia florestal e uma professora de geografia, Rafael Roesler passou a infância no interior de Santa Catarina, onde sempre morou perto do mato e criava diversos animais. “Por influência de meu pai tínhamos muitos cachorros e gatos, peixes, passarinhos e outros bichos, incluindo uma jaguatirica e cervos. Meu pai sempre levava cobras, aranhas e insetos diferentes para casa, para que eu pudesse ver, desenhar e buscar informações sobre eles nos livros”, recorda.

Ainda criança, Roesler lia todos os livros acessíveis de biologia, astronomia e outros assuntos relacionados à ciência que podia encontrar na biblioteca de seu pai. Na adolescência, começou a fazer experimentos em casa. “Meu pai colecionava bromélias e cactos. Pegávamos as flores de cores diferentes, fazíamos a polinização e esperávamos os resultados no ano seguinte. Eu decidi ser biólogo desde muito cedo”, conta. No ensino médio, a intensa interação com um dos professores de Biologia foi uma grande influência para Roesler, que dava aulas de reforço de genética para outros alunos em troca da mensalidade de um cursinho. “Fui até monitor de ciência de um laboratório que estava abandonado no Colégio Franciscano Diocesano, onde estudei”, acrescenta. Ele confessa que nunca gostou de assistir aula. “O desafio quando estamos na escola no Brasil é manter o entusiasmo natural que temos por alguma área apesar do sistema de ensino”, brinca. Apesar disso, tem boas lembranças do colégio e do trabalho dos freis franciscanos em tentar proporcionar uma educação de qualidade.

Roesler bacharelou-se em Ciências Biológicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em 1995. “Fiz vestibular para Biologia com a certeza de que era aquilo mesmo que eu queria, procurei o melhor curso da região sul do Brasil e por isso me decidi pela UFRGS”, destaca. Apesar de não gostar de química, começou a se interessar por ela quando surgiu uma oportunidade de estágio no Departamento de Bioquímica. “Na época, fazíamos dois anos e meio de ciclo básico e depois tínhamos 12 opções diferentes de diplomação. Quando apareceu uma vaga para fazer Bacharelado em Biofísica, trabalhando com sistema nervoso central, decidi seguir este caminho.”

Desde a iniciação científica, sua carreira foi uma linha reta. Passava mais tempo no laboratório do que na sala de aula. Emendou a graduação com o mestrado em Bioquímica na mesma universidade, com foco na área de memória, as sinapses e o sistema nervoso. Durante o doutorado, orientado pelo Acadêmico Iván Izquierdo, também na UFRGS, participou de um curso intensivo de Neurociência no Uruguai, voltado para estudantes iberoamericanos. “Depois fiquei uns dois ou três meses no Estados Unidos para participar de um congresso e trabalhar no laboratório de James McGaugh, um dos grandes nomes internacionais na biologia da memória. Através dessas viagens, eu comecei a ver o mundo e as portas se abriram para mim”, afirma Roesler, que além de professor da UFRGS é pesquisador do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA).

Após retornar aos EUA para fazer pós-doutorado no laboratório de McGaugh, no Departamento de Neurobiologia e Comportamento da Escola de Ciências Biológicas da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, onde também atuou no ensino de graduação e orientação de estudantes, Roesler preferiu voltar para o Brasil. “Aqui hoje é mais fácil e mais recompensador conquistar um cargo docente, formar ainda jovem um grupo próprio de pesquisa e obter um financiamento. A carreira é mais rápida e há espaço para a gente contribuir”. Passou num concurso para professor de medicina da Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC), onde passava alguns dias da semana, pois morava em Porto Alegre. Começou a dar aulas na pós-graduação e se tornou professor substituto de Biofísica na UFRGS, onde é Professor Adjunto no Departamento de Farmacologia desde 2003.

Toda a sua formação foi focada na biologia do cérebro. “Durante o doutorado e pós-doutorado não era tanto o fenômeno da memória como um todo o que mais me chamava atenção, mas sim a compreensão do funcionamento de algumas moléculas e proteínas específicas que participam da formação de memórias”, esclarece. O modelo que estudava era uma plataforma para entender o papel de uma determinada molécula e até tentar pensar como ela poderia ser utilizada em casos de doenças cerebrais e neurodegenerativas”, admite. “Sempre busquei fazer a pesquisa básica pensando em uma futura aplicação clínica, me preocupo muito com esse viés de tentar avançar em direção a novos tratamentos”, acentua o cientista.

Através do apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Fundação SOAD para o Desenvolvimento de Drogas Anticâncer e do Instituto de Câncer Infantil do Rio Grande do Sul (ICI-RS), Roesler conseguiu fundar dois laboratórios, um no Departamento de Farmacologia da UFRGS e outro no Hospital de Clínicas de Porto Alegre. “Eu tenho muito orgulho de ter ajudado a montar esses espaços de pesquisa biomédica também com dinheiro privado, parte dele doado por pessoas e empresas”, complementa.

Nesses laboratórios, o cientista desenvolve estudos de Neurofarmacologia e Biologia Molecular utilizando tanto ratos como células humanas e animais cultivadas. “Ambos os laboratórios atraem muita gente, não estamos conseguindo dar conta de absorver mais estudantes”, lamenta Roesler. Os temas em estudo giram em torno do papel de mecanismos moleculares e vias bioquímicas celulares em processos biológicos como a plasticidade sináptica, a formação das memórias e a sobrevivência e crescimento de células tumorais. O grupo tem se dedicado principalmente à ação de moléculas conhecidas como neuropeptídeos. “Estou fascinado com os paralelos biológicos entre a plasticidade cerebral e o câncer: como o cérebro parece utilizar, para se desenvolver e se adaptar, muitos dos mesmos mecanismos moleculares responsáveis pelo crescimento e sobrevivência dos tumores.”

Membro Afiliado da Academia Brasileira de Ciências (ABC) desde 2007, Roesler também investe na divulgação de suas pesquisas. “Acho que divulgação científica para o público, com responsabilidade e correção, é uma responsabilidade do cientista brasileiro”. O pesquisador acha a relação entre cientistas e jornalistas conflituosa e reclama do destaque que a mídia dá para os trabalhos realizados no exterior em relação aos brasileiros. “Nós temos muitas vezes pesquisas equivalentes aqui que não são divulgadas, e as matérias sobre ciência que saem na imprensa são, muitas vezes, apenas traduções de press releases estrangeiros”, critica. A divulgação deve ser feita com critério: “Primeiro o resultado tem que ser publicado em uma revista científica internacional de qualidade, e o estudo tem que ser diferenciado, mostrar algo que seria de interesse para o público; antes disso não se divulga nada na imprensa. Além disso, deve-se tomar cuidado com a tendência que os jornalistas tem de exagerar o impacto da pesquisa e dar um tom sensacionalista”, ressalta.

O neurobiólogo destaca também que é necessário buscar mais interação com as instituições privadas na área científica. “É importante tentar interagir com todas as pessoas – desde o voluntário do Instituto do Câncer que dá apoio aos pacientes até o empresário que está disposto a apoiar um projeto de pesquisa”, acentua.

Partindo de seu gosto por biotecnologia, sua visão empreendedora o levou a querer aplicar os conhecimentos que tinha da área na criação de uma empresa. Fundou então, em parceria com sua mulher, Nadja Schröder, neurocientista e professora de fisiologia da PUC-RS, e com o colega Flávio Kapczinski, da Faculdade de Medicina da UFRGS, a primeira empresa de neurociência do Brasil, a NeuroAssay, em junho de 2008, empresa que hoje integra a Incubadora Empresarial do Centro de Biotecnologia da UFRGS. “Partimos da idéia de aplicar e oferecer a tecnologia que usamos no laboratório para a indústria farmacêutica, e fazer pesquisa na empresa buscando a descoberta e desenvolvimento de novas terapias para doenças neurológicas, psiquiátricas e transtornos de memória”, explica Roesler.

O cientista afirma que a formação da empresa, que no ano passado assinou um contrato com a empresa farmacêutica Eurofarma e já integra vários projetos de pesquisa e desenvolvimento aprovados e financiados por órgãos federais, era um sonho antigo que alimentava desde sua primeira viagem de trabalho aos EUA. Quando estava na Califórnia, percebeu como os projetos acadêmicos na área de neurociências das universidades geravam empresas inovadoras de biotecnologia, e como grande parte dos professores destacados nessa área estavam envolvidos com a formação de empresas a partir de seus projetos e descobertas. “Esse é o melhor modelo para acelerar a inovação e a aplicação da ciência biomédica. A neurociência nos países desenvolvidos é uma das áreas mais dinâmicas da biotecnologia, enquanto no Brasil esse movimento ainda precisava ser iniciado”, avalia Roesler.

Segundo o pesquisador, a UFRGS, através da Incubadora Empresarial do Centro de Biotecnologia e de seus órgãos de desenvolvimento tecnológico, tem dado grande apoio ao projeto, que também está em sintonia com iniciativas recentes do governo federal como a Lei de Inovação Tecnológica. Roesler e o grupo de fundadores da NeuroAssay pretendem gerar conhecimento especializado para investir em pesquisas aplicadas, aproximar os laboratórios acadêmicos e científicos da indústria e abrir oportunidades de trabalho para doutores formados nas universidades. “As empresas farmacêuticas ainda não estão bem preparadas, mas várias querem investir em inovação e estão encontrando apoio para isso neste momento no país”, destaca.

Roesler sempre buscou trabalhar com os melhores cientistas e se esforçou para criar boas oportunidades na carreira. Hoje tem como meta apresentar uma proposta de atividade empreendedora para os jovens cientistas. Ele diz que teve sorte com os profissionais com quem conviveu durante a sua formação, pois todos tinham em comum a excelência científica e a generosidade. “O entusiasmo e a paixão pela profissão, além da consciência da importância de apoiar os jovens foi uma grande lição que aprendi com meus mentores e quero sempre repassar para os meus alunos. Para mim a ciência é um compromisso de vida. Um grande cientista tem que tentar ser também um bom ser humano”, declara.

 

(Notícias da ABC, 23/1)

 
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Medicina preventiva e desigualdade social

Nascido em 1952, no Rio Grande do Sul (RS), o Acadêmico Cesar Victora estuda três coortes de nascimento, a nutrição materno-infantil, o impacto das desigualdades sociais e avalia os serviços de saúde na cidade de Pelotas, de cuja universidade federal é Professor Emérito de Epidemiologia. O cientista afirma que sempre gostou das Ciências Exatas mas também se interessava pelas questões sociais e ambientais. “Quando adolescente, tinha medo de que o meu trabalho não fosse ter um impacto social direto. Eu queria trabalhar perto da população e resolver os problemas que me preocupavam na época, como a desigualdade”, recorda.

Segundo Victora, as questões da saúde fortaleceram a sua vontade de cursar Medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde se formou em 1976. O médico optou por trabalhar na área da saúde pública, buscando compreender a origem dos problemas e solucionar os conflitos no setor. Um ano após se formar, Victora concluiu uma especialização em Saúde Comunitária, e logo obteve um doutorado em Epidemiologia (1983), na London School of Hygiene and Tropical Medicine, na Inglaterra. “O estudo das doenças nas populações é a parte mais matemática da saúde pública. Eu trabalho direto com estatística e com a análise numérica da saúde da população”, explica.

Alguns dos participantes das pesquisas de Victora
 

O professor analisa as iniqüidades sociais e étnico-raciais, entre outros temas, em três coortes de nascimento de Pelotas, realizadas a cada 11 anos: em 1982, 1993 e 2004. “É um estudo muito complicado. Nós começamos em 1982 com seis mil pessoas e já morreram umas trezentas, principalmente na infância que é uma época em que a mortalidade é mais alta. O interessante é que avaliamos todos os que nasceram na mesma cidade e no mesmo ano: os ricos e os pobres”, destaca. Segundo Victora, o dado mais chocante da pesquisa é a desigualdade social, uma vez que a mortalidade da população carente foi sete vezes maior que a dos indivíduos de alta renda. “A cada dois, três ou quatro anos a gente acompanha essas pessoas. Hoje, as crianças que nasceram em 82 estão com 25 anos”, informa o Acadêmico.

Membro da Comissão Nacional sobre Determinantes Sociais da Saúde (CNDSS) desde 2006, Victora explica que para realizar o estudo ele conta com uma equipe de mais ou menos 30 pessoas, sendo que em alguns momentos o grupo de trabalho pode chegar a ter até 50 colaboradores. “A equipe é constituída por professores, pesquisadores, supervisores e incluem estudantes de nutrição, enfermagem, psicologia, medicina e de várias outras áreas”, acrescenta. O pesquisador explica que para embasar a pesquisa foram criados vários questionários

detalhados, que são completados através de visita à casa de cada indivíduo avaliado. “Depois, nós os convidamos para virem ao nosso centro. No local, uma série de exames é realizada, inclusive com coleta de sangue. O formulário também contém diversas medidas, como pressão, peso, altura e composição corporal de cada um. Quando alguém não pode nos visitar, levamos um equipamento portátil até ele”, esclarece. Após a análise da condição atual de cada pessoa, os dados presentes são correlacionados com os antigos e as mudanças ao longo da vida são avaliadas.

Victora, que concluiu o pós-doutorado em Epidemiologia na Unidade de Avaliação e Pesquisa da United Nations Children's Fund (Unicef) e atua como Professor Visitante da Universidade de Londres, na Inglaterra, e da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, relata que recebe recursos através do Programa de Apoio a Núcleos de Excelência (Pronex) do CNPq para promover o estudo das coortes de nascimento. “Além do apoio do governo brasileiro, obtemos financiamento - a maior parte dele, inclusive - do exterior. A Fundação Wellcome, da Inglaterra, investiu muito nas últimas etapas da pesquisa. Para realizar essas análises, são gastos, aproximadamente, um milhão de dólares por ano”, afirma.

Segundo o cientista, este é um dos maiores estudos do tipo realizados no mundo, oferecendo subsídios para várias pesquisas nas mais diversas áreas. “A partir desse trabalho, existem teses sobre tensão pré-menstrual, saúde mental e capacidade pulmonar das pessoas analisadas, por exemplo. Além disso, o estudo conta com psicólogos, antropólogos e dentistas, que avaliam a saúde bucal. Essa é uma das pesquisas mais completas, longas e reconhecidas do país”, comemora Victora.

O pesquisador informa que existem duas outras pesquisas similares no Brasil, uma em São Luís do Maranhão e outra na cidade paulista de Ribeirão Preto. “O diferencial do nosso estudo é que possuímos três coortes subseqüentes, com altas taxas de acompamento; por exemplo, ainda acompanhamos três quartos de todos os nascidos em 1982, 25 anos mais tarde. Estudamos a fase da amamentação, o estado nutricional na infância e correlacionamos estes dados com as doenças que estas pessoas apresentam no decorrer da vida”, esclarece.

Através da análise dessas etapas, Victora pode concluir, por exemplo, que o leite materno possui uma série de substâncias que auxiliam na formação do cérebro. “Constatamos que os bebês que mamam por mais tempo têm um melhor desempenho intelectual quando crescem”, garante. Outra importante descoberta foi que o ganho de peso até os dois anos de idade é fundamental para que a pessoa se torne mais alta e inteligente. “Porém, quem engorda depois dessa janela crítica de crescimento transforma-se em um adulto obeso, porque passa a acumular gordura”, alerta. Victora considera essencial que as novas informações nutricionais sejam implementadas como política de saúde. “A obesidade é uma epidemia no país e está cada vez mais presente entre as crianças”, lamenta o médico.

Ganhador do Prêmio Abraham Horwitz 2008 da Organização Pan-Americana de Saúde, do Prêmio de Trajetória Pessoal de Pesquisa em Saúde 2008 do Instituto Carso, no México, e atuando como pesquisador do CNPq, Victora afirma que o profissional que dá entrevistas sobre o seu trabalho para a imprensa antes de publicá-lo em uma revista científica de qualidade não é bem visto pelos colegas de trabalho. “Mas após a revisão por pares e a aceitação dos cientistas da área, deveríamos divulgar muito bem as nossas pesquisas”, admite Victora. Desde o início do estudo, o grupo cresceu muito e de forma rápida. “Nós não conseguimos contemplar todas as áreas e o que nos preocupa é o fato de que nossas pesquisas poderiam alcançar maior repercussão entre o público geral. É uma falha, ainda não sabemos divulgar nossos resultados”, reconhece.

O professor menciona que o curso de pós-graduação em Epidemiologia da Universidade de Pelotas é o primeiro na área de Saúde Coletiva, de acordo com a avaliação e os critérios da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). “Nós influenciamos muito a política da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Unicef no mundo inteiro. Além disso, assessoramos o Ministério da Saúde e ajudamos a produzir as guias alimentares das crianças brasileiras”, observa o cientista, que é membro do Comitê de Peritos em Nutrição e Coordenador do Centro Colaborador para Nutrição Materno Infantil da Organização Mundial da Saúde (WHO, nas siglas em inglês), sediado na Suíça.

Recentemente, Victora atuou junto à Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (Abrasco), ajudando a organizar em 2008 em Porto Alegre o XVIII Congresso Mundial de Epidemiologia (Epi 2008), do qual foi vice-presidente. Este foi o maior congresso de Epidemiologia que já houve no mundo, com 5.000 participantes. Durante o congresso, o Acadêmico foi eleito presidente da Associação Internacional de Epidemiologia (IEA, na sigla em inglês), por indicação da Abrasco. Membro da IEA desde a década de 80, o cientista relata que a associação possui sedes em diversos países, sendo a principal em Edimburgo, na Escócia. “Eu nunca havia concorrido a nada. Gosto de fazer ciência, mas não sou um político. Nunca aspirei a nenhum cargo. Mas vou procurar fazer o melhor possível”, confessa. E dado o seu talento e experiência, provavelmente fará bonito.

 

(Notícias da ABC, 23/1)
 
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“Sem a memória não há conhecimento, nada tem importância”


Martín Cammarota nasceu em 1969, em Buenos Aires, na Argentina. Seu pai era contador, a mãe era administradora de empresas. “Eram muito realistas e estimulavam o estudo nos filhos. Minha mãe me fazia escolher entre piscina ou curso de inglês no verão”. Ele queria ser paleontólogo. Tinha muito interesse em história, e entrou na biologia por aí. “A forma como o passado restringe o número infinito de presentes e futuros possíveis sempre despertou minha curiosidade”, contou o cientista.

Aos poucos, porém, percebeu que não gostava do trabalho de campo da Paleontologia.

Graduou-se então em Ciências Biológicas na Faculdade de Ciências Exatas e Naturais da Universidade de Buenos Aires (UBA), e começou pesquisar sob a orientação de Jorge Medina, diretor do Laboratório de Neuroreceptores da Faculdade de Medicina da UBA.

Destacando-se em suas pesquisas sobre memória, Cammarota obteve o auxílio de duas bolsas de pesquisa para jovens cientistas, outorgadas pela Fundação Antorchas/Vitae e pela UBA. Já com uma bolsa de doutorado da UBA e junto com Jorge Medina e o Acadêmico Iván Izquierdo, começou uma série de experimentos que culminaram na elucidação do papel desempenhado por determinadas proteínas durante a consolidação de memórias. Em 1998, após a obtenção do título de Doutor pela Universidade de Buenos Aires, Cammarota foi nomeado Research Fellow pela Gladys Brawn Foundation e iniciou seu pós-doutorado na Escola de Ciências Biomédicas da Universidade de Newcastle, Austrália.

Em 1987 veio pela primeira vez ao Brasil, a passeio, e em 1993 veio a trabalho. Escolheu o Brasil para viver, aceitando a proposta de trabalho de Izquierdo no ano de 2002 para trabalhar com ele na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), embora tivesse convites para ir para a Austrália, para a Escócia ou ficar em Buenos Aires. As perspectivas da Ciência no Brasil, ao seu ver, são excelentes, em função da qualidade e da diversidade do material humano existente. “Acho que não existe outro país em que coexistam tantas vertentes culturais como no Brasil. Isto só pode dar certo”. Ele diz que o Brasil é continental, está destinado a ser grande, que tudo aqui é grandioso. “Não me sinto estrangeiro, me sinto brasileiro”. Só que no futebol, Cammarota torce para a Argentina . E entre os jornais, prefere ler o Clarín. Mas o melhor do brasileiro, para ele, é o otimismo. “Mesmo na dificuldade, sempre tem esperança”.

Hoje Cammarota é membro da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento, da Sociedade Argentina de Neuroquímica, da Sociedade Argentina de Farmacologia Experimental, da International Society for Neurochemisty e da European Behavioural Pharmacology Society. É Professor Adjunto da Faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) desde 2004 e vice-diretor do Instituto de Pesquisas Biomédicas na mesma universidade desde 2006. Mas, segundo ele, há muita dificuldade no Brasil para a naturalização de estrangeiros. “Mesmo eu sendo cientista, apresentando carta do reitor da UFRGS dizendo que meu trabalho é importante para o desenvolvimento da Ciência brasileira, mesmo tendo sido escolhido membro da Academia Brasileira de Ciências, sendo casado com uma brasileira e pai de uma brasileirinha, até hoje não consegui me naturalizar.”

Desde sua chegada ao Brasil, Cammarota trabalha em estreita colaboração com Iván Izquierdo, Jaderson Costa Dacosta, Marco A. Prado e Vilma Martins, visando elucidar as conseqüências comportamentais e bioquímicas decorrentes da evocação de memórias bem como os efeitos que o envelhecimento e a progressão de distintas doenças neurogenerativas têm neste processo.

Nos últimos anos, Cammarota e seus colaboradores demonstraram que é possível desinstalar comportamentalmente uma memória já consolidada, descreveram e caracterizaram bioquimicamente a participação do hipocampo na reconsolidação de memórias espaciais e de reconhecimento e descobriram a existência de uma fase no processamento mnemônico durante a qual se determina a persistência das memórias de longa duração.

Esses estudos são fundamentais, segundo o cientista, para entender a natureza dos transtornos psiquiátricos como as fobias e o estresse pós-traumático, bem como para desenhar estratégias farmacológicas e terapêuticas que facilitem seu tratamento. Segundo o pesquisador, é fundamental conhecer o funcionamento do cérebro, da construção da memória. “É preciso conhecer como isto funciona bioquimicamente. E a partir dos novos conhecimentos gerados, novas aplicações vão surgindo”, afirma Cammarota.

Ele avalia que seu trabalho envolve aspectos políticos, econômicos e militares, podendo ser útil para o conhecimento do mal de Alzheimer, do processo de envelhecimento, do controle do comportamento do indivíduo. O que lhe interessa mesmo, porém, não é a busca da cura das doenças e sim o conhecimento do funcionamento da memória em si. “A importância da memória é inegável, incomparável, é o que te define. Sem a memória não há conhecimento, nada tem importância”.

 
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Indo a fundo na Biologia da memória


Nascido em Buenos Aires, no ano de 1937, o diretor da ABC Iván Izquierdo é naturalizado brasileiro. O pai era pesquisador da área de Farmacologia, a mãe era farmacêutica. Em algum momento da infância sentiu que devia ser médico pela referência de um tio, a quem queria muito e que tomou como exemplo.

Ingressou no curso de Medicina da Universidade de Buenos Aires (UBA) em 1955, ano da queda de Perón na Argentina, momento da volta à universidade de muitos professores ilustres como Bernardo Houssay, Luis Leloir, Eduardo Braun Menendez e Eduardo De Robertis e muitos outros. “A iluminação que vinha deles levou muitos da minha geração para a pesquisa”.

Em 1957 começou a trabalhar com Houssay e em seguida passou para o Departamento de Histologia da Faculdade de Medicina, onde foi muito influenciado por Eduardo de Robertis e Roberto Mancini. Formou-se em 1961, e doutorou-se no ano seguinte. Trabalhou na mesma universidade como Professor adjunto de Farmacologia e depois na Universidade Nacional de Córdoba, onde fundou o que por muitos anos seria considerado o melhor Departamento de Farmacologia da Argentina.

Em 1973 decidiu se transferir para o Brasil, devido às comoções políticas da Argentina. Foi primeiro para a UFRGS, e depois para a Escola Paulista de Medicina. Nas duas criou importantes grupos de pesquisa. Retornou à UFRGS em 1978, com a incumbência de ajudar na criação da pós-graduação em Bioquímica e instalar a pesquisa nesse Departamento, duas tarefas que cumpriu com excelência. Contribuiu para a formação de numerosos discípulos, que ocupam posições de destaque no Brasil, na Argentina e em outros países.

Sua linha principal de pesquisa tem sido, desde 1966, a Biologia da Memória. Chefia desde 2004 o Centro de Memória do Instituto de Pesquisas Biomédicas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), onde é também Professor Titular de Neurologia.

A memória era e ainda é, segundo Izquierdo, um dos grandes mistérios das Ciências da Saúde. Ela consiste na gravação, conservação e evocação de informações. Para fazer isso o cérebro transforma o que recebe, através das experiências da realidade que nos rodeia, em códigos elétricos e químicos aos quais não temos acesso direto, e na hora da evocação retransforma esses códigos ou o que está codificado neles em realidade outra vez. “São linguagens diferentes que se alternam”, explica o pesquisador.

Seu interesse inicial era estudar as bases químicas e fisiológicas da memória, mas na década de 60 ainda não havia os recursos necessários. Outros pesquisadores pelo mundo se deram conta, também nesta época, que as drogas que começavam a ser usadas em psicofarmacologia clínica tinham efeito sobre sistemas bioquímicos do cérebro e, por isso, diminuíam as alucinações e a ansiedade, ou melhoravam a depressão.

“As drogas surgiram nessa ordem: os antipsicóticos no início da década de 50, tranqüilizantes e ansiolíticos no final da década de 50 e por último os antidepressivos, na década de 60. O estudo dessas drogas revelou que todas tinham substratos bioquímicos, e muitos laboratórios se dedicaram a pesquisar esses substratos, inclusive o meu.”

  Na década de 80, o grupo do Prof. Izquierdo começou então a estudar diretamente a bioquímica no cérebro, justamente nos momentos de formação, de evocação e de conservação da memória. “A bioquímica direta não pode ser feita em humanos, porque requer o sacrifício do animal no qual ocorre a memória para que sejam feitas dosagens no cérebro”, explicou o cientista. Foi então estudada em animais e concluiu-se, através de uma série de estudos correlativos, que nos humanos ocorre processo similar. “As estruturas cerebrais são as mesmas, os processos bioquímicos que puderam ser observados em humanos através do uso de drogas ou inferidos de alguma outra maneira são os mesmos dos ratos”, afirmou Izquierdo.

É Membro Titular da New York Academy of Sciences, da Academia de Ciências do Mundo em Desenvolvimento (TWAS) e da Academia de Ciências da América Latina. É Membro Correspondente da Academia Nacional de Ciências Médicas da Argentina e de dezenas de sociedades científicas da sua área.

Por todos esses anos de dedicação e brilho científico, Ivan Izquierdo recebeu a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico do presidente da República do Brasil em 1996 e a Comenda da Ordem do Rio Branco do Ministério das Relações Exteriores em 2007. Entre outros, foi agraciado com o Prêmio FCW de Ciência e Cultura da Fundação Conrado Wessel em 2008, com o Prêmio Scopus 2006 da Editora Elsevier e Capes/MEC em 2006, com o Prêmio em Ciências Médicas Básicas da Academia de Ciências do Mundo em Desenvolvimento (TWAS) em 1995 e com o Prêmio ODOL em Ciências Médicas do Consejo Nacional de Investigación Científica y Tecnológica da Argentina, em 1967. É Professor Honorário da Universidad de Buenos Aires desde 1991 e da Universidade Nacional de Córdoba desde 1995, e Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Paraná desde 2007.

Sobre a Ciência produzida na Região Sul, Izquierdo diz que existem núcleos de excelência com trabalho de ponta. Mas o apoio geralmente dado aos estados pelas Fundações de Apoio à Pesquisa (FAP's), no Rio Grande do Sul é nulo desde os últimos dois governos. “Embora tenha sido a segunda FAP criada no Brasil e muito atuante em outros tempos, a Fapergs desapareceu. Os últimos governos estaduais foram fatais. Não tiveram visão, não se deram conta que sem ciência não se desenvolve tecnologia e sem esta, na economia de hoje, nenhum país se desenvolve.”

Izquierdo avalia que nos países mais avançados a sociedade tem noção dos principais conhecimentos científicos, trabalhados sistematicamente na escola e na mídia. “São países com alto desenvolvimento tecnológico, que é fundamentado na ciência. A interação entre ambos resulta em desenvolvimento econômico. Nesses países, ciência dá voto”. No Brasil o conhecimento do público sobre ciência é pouco, em sua avaliação. “Não se conhece nem se dar valor ao que é feito aqui, existe uma crença de que ciência é coisa de primeiro mundo. O estereótipo do profissional ligado à ciência e também a cultura – cientistas, poetas, maestros – tende ao ridículo, ao exótico, ao inacessível”, diz Izquierdo.

 

Mas o Acadêmico é otimista e pró-ativo, acha que para tudo isso tem solução. “É preciso difundir a idéia de que ser brasileiro não é nem um privilégio nem um prejuízo. Pertencemos à mesma civilização dos outros povos deste lado do Pacífico, temos tanto direito e capacidade de fazer filosofia ou ciência quanto qualquer francês, inglês ou indiano”, reforça Izquierdo. “Só que no Brasil, apenas 16% da população está realmente em condições de ler e compreender ciência ou qualquer outro assunto, devido ao analfabetismo funcional e à falta de leitura.”

As escolas do ensino fundamental, a seu ver, deveriam mostrar a participação da ciência na vida cotidiana em termos de saúde, transporte, alimentação, da economia

em geral. Ele acha que a comunidade científica e especialmente os membros da Academia deveria investir mais na produção de livros e conteúdos voltados pra estudantes do ensino básico, assim como deveriam estar disponíveis para dar palestras e promover atividades nas escolas.

Em relação às políticas públicas, Izquierdo referiu-se também à necessidade de intervenção do Estado. “As doenças negligenciadas, como a de Chagas, precisam de subsídios para que as pesquisas sejam desenvolvidas. Temos um número enorme de doentes de Chagas e estamos fazendo muito pouco por eles. Temos que tomar como referência o trabalho que foi feito com a AIDS”. O Brasil, avalia o pesquisador, fez um belo trabalho em política de saúde em relação a AIDS, envolvendo tanto a distribuição de remédios como campanhas de esclarecimento bem sucedidas. E pensa também no dengue. “Mas com o dengue é mais difícil. A AIDS requer medidas individuais, o dengue requer medidas coletivas. Se um vizinho deixa uma água parada compromete a dedicação de um bairro inteiro no combate à doença.”

Ainda assim, Izquierdo vê como muito positiva a atuação do governo federal na área científica. Admira e elogia os dois últimos ministros de C&T, Eduardo Campos e Sergio Rezende, e o atual ministro da Saúde, José Gomes Temporão. “São transparentes, dizem o que vão fazer, fazem e prestam contas. Estão fazendo realmente um belo trabalho”, diz o Acadêmico. “É que realmente ainda há muito por fazer...”

 

(Notícias da ABC, 23/1)
 
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“A sorte sorri às mentes bem preparadas”


Seu passatempo era desmontar coisas, dizia que ia ser mecânico. Nada ficava inteiro pela casa, nem seus brinquedos. O pai era químico, a mãe bancária. Mas ele ainda não sabia nada sobre as profissões. No ensino fundamental participava das feiras de ciência. A família mudou de cidade e Cristiano Krug cursou ensino médio técnico em Química na Fundação Escola Técnica Liberato Salzano Vieira da Cunha, em Novo Hamburgo. “E lá eu me encontrei”, contou o cientista.

A escola técnica organiza uma feira anual que envolve todos os cursos técnicos e abre oportunidades para bons projetos. “Conseguimos classificar um trabalho fortemente aplicado, sobre aproveitamento de um resíduo industrial em solados de borracha, para ir ao Canadá, onde nosso trabalho tirou 1º lugar em Química na 46 th International Science and Engineering Fair.”

De início, ele tinha uma idéia muito prática das coisas: fez curso técnico porque queria logo trabalhar e se sustentar. Ao final do curso técnico, estagiou num laboratório de pesquisa da UFRGS sintetizando corantes para a produção de laser . Krug explica que existem muitos tipos de laser, produzidos de diferentes formas e com aplicações distintas, dentre eles os lasers de corante. “A proposta do laboratório era produzir novas moléculas, corantes que nunca haviam sido preparados”. Krug foi achando o estágio interessante, gostando da pesquisa, e a idéia inicial de entrar logo no mercado de trabalho foi ficando para trás. Mergulhou de cabeça na preparação para o vestibular, ingressando na UFRGS como estudante de graduação em 1995. “Naquela época eu era muito disciplinado e quando colocava alguma coisa na cabeça ia em frente. Me dedicava completamente àquilo e nada mais existia. Hoje, acho que perdi um pouco disso.”

Mas sua história o desmente. Em 1999 recebeu o Prêmio Union Carbide de Incentivo à Química com seu trabalho de graduação na área de catálise e teve a colação de grau como Bacharel em Química antecipada por excelência acadêmica. No laboratório de catálise, voltado à produção de plásticos, entrou em contato com técnicas analíticas usadas na Física e fez nesta área o mestrado. Queria ir para o exterior, mas deixou para mais tarde, pois já estava inserido num grupo de alto nível na UFRGS, onde também completou o doutorado. “Recebi o Prêmio Sociedade Brasileira de Física de Melhor Tese de Doutoramento 2004. Esse reconhecimento foi super importante para mim e para o laboratório”.

Aí veio o pós-doutorado, uma boa hora para sair do país. “Quando a gente sai percebe que estava acostumado demais com certos padrões, mudar é fundamental. Estabelecemos novos vínculos, há mais troca, o profissional volta diferente”. Ficou dois anos na Universidade da Carolina do Norte. Dali surgiu uma outra boa oportunidade, de trabalhar na SEMATECH, um consórcio de pesquisa e desenvolvimento que tem como membros grandes fabricantes da indústria de semicondutores, como Intel, IBM, Texas Instruments etc. “A idéia era antecipar novas tecnologias. Eu fiquei um ano lá como pós-doc.”

Depois de três anos fora, casado e pensando em ter filhos, Krug decidiu voltar. Em 2006 retornou ao Brasil como professor convidado da Universidade de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde passou a estudar óxidos nanoestruturados como revestimentos protetores. “A idéia geral não é nova: pegar uma peça, fazer um revestimento nela que garanta um ganho de tempo de serviço. O nitreto de titânio, por exemplo, fica só na superfície e aumenta muito a vida útil de produtos como brocas, engrenagens, lâminas de corte, etc. O trabalho continua e é uma questão de explorar, fora da eletrônica, aplicações de materiais que eu venho estudando em profundidade.”

  Em 2007 tornou-se professor adjunto do Departamento de Física da UFRGS, aonde vem dando andamento a seus trabalhos com materiais para nanoeletrônica. “Trabalho materiais com potencial para fabricar as próximas gerações de dispositivos. Como serão os computadores, o que virá depois do silício? Essa é uma das perguntas que eu e meu grupo estamos tentando ajudar a responder”. Krug diz que existem outros materiais, a exemplo do germânio, que tem algumas propriedades interessantes. No caso do germânio, a mobilidade dos portadores de carga, que permite manipular informação com maior velocidade que no silício.

Para explicar seu trabalho, Krug remeteu-se ao final da década de 40, quando foi criado o transistor. “O transistor é um componente básico da eletrônica”, esclarece. Hoje existe um tipo específico de transistor que responde pela maioria dos dispositivos eletrônicos que são fabricados, seja na CPU de um computador ou no chip de um MP3 Player. O que o transistor faz, segundo o cientista, é, a partir de um comando externo, transportar portadores de carga - elétrons ou lacunas - de um ponto a outro. E a esse transporte (ou sua ausência) pode ser associado o “ 1” (ou o “ 0”) da lógica binária. “Então essa é a implementação prática de um objeto matemático, que é a lógica binária, e que usamos para armazenar e processar informação”, esclarece.

“O transistor vem mantendo sua função e diminuindo de tamanho ao longo doa anos. Buscamos materiais que permitam continuar fabricando transistores cada vez menores, que funcionem mais rápido e consumam menos energia”. Os primeiros chips ou circuitos integrados possuíam apenas alguns transistores. “Hoje, CPU's avançadas têm, por exemplo, 470 milhões de transistores num único núcleo, de tamanho comparável a uma unha. É fantástico. Esses pequenos transistores são o mais numeroso produto do homem na face da Terra”.

Krug conta que de 1970 a 2000 a eletrônica foi, de certo modo, previsível. Existiram avanços, alguns novos materiais foram introduzidos, mas de maneira bastante isolada. Mas de 2000 para cá, cada vez mais materiais têm que ser substituídos, porque suas propriedades de trabalho são esgotáveis. “Há momentos em que não se consegue mais fabricar um dispositivo funcional com os materiais que estão disponíveis. Essa é a grande razão para se procurar materiais alternativos.”

O físico se empenha hoje em fabricar um sanduíche composto por metal, isolante e semicondutor que ofereça máxima performance na hora de fabricar os dispositivos. “A formulação de cada um desses elementos representa uma oportunidade para fabricar a próxima geração de dispositivos. Nosso foco tem sido na camada de isolante elétrico e no semicondutor. A camada isolante deve ter espessura de poucos nanômetros e o trânsito dos portadores de carga no semicondutor tem que ser rápido”, explicou Krug. “Vamos supor que se deseje fabricar um transistor com determinadas características de trabalho. Se eu domino completamente a ciência por trás dos materiais, eu posso, pelo menos em tese, dizer que os materiais adequados são x e y”.

As pesquisas que conduzem a uma eletrônica tão pequena e tão potente podem levar, por exemplo, à elaboração de implantes que sejam auto-controlados. “Falamos, por exemplo, de olhos artificiais, implantes inteligentes que vão conseguir prever ou entender o movimento que a pessoa está tentando fazer, numa interface entre a Biologia e a Nanoeletrônica”, ressalta o pesquisador. Em muitos casos, segundo ele, a necessidade vem com a invenção. “Veja o caso do laser : quando se conseguiu produzi-lo, o laser era, de certo modo, uma solução em busca de um problema. Hoje em dia, se usa em aparelhos de som, em cirurgias de catarata e em inúmeras outras aplicações. Se conseguirmos dar continuidade à evolução da eletrônica, novas aplicações surgirão.”

O pesquisador mantém diversas cooperações, tanto nacionais como internacionais - sobretudo nos Estados Unidos - dentro da SEMATECH, na Universidade do Texas e na Universidade da Carolina do Norte. Krug avalia que um cientista tem que ter jogo de cintura nesse sentido. “Precisamos dessas cooperações para ter acesso a instrumentos ou técnicas que não estão disponíveis localmente para nós, oferecendo ao mesmo tempo algo que seja importante para os nossos colaboradores. Em geral, a cooperação é aberta, todos trabalham juntos em cima de um problema. Na ciência moderna, competição e colaboração estão quase sempre presentes.”

 

(Notícias da ABC, 23/1)
 
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Líquidos iônicos: recicláveis e não poluentes


Professor associado do Departamento de Química Orgânica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o Acadêmico Jairton Dupont teve uma infância difícil e foi engraxate quando criança. Gaúcho, nasceu em Farroupilha, no Rio Grande do Sul, em 1958, e se formou em Química pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-RS), em 1982. No final do ensino médio, a matemática foi sua primeira opção, que escolheu cursar Administração de Empresas. “Foi através da matemática que aprendi a me relacionar mais claramente com o mundo. Eu sempre tive facilidade de entender os números, mas eu nunca consegui compreender as pessoas”, relata.

Ao entrar na universidade, Dupont desistiu do curso de Administração e resolveu se tornar professor de Química e Matemática no ensino médio. “A Química nos permite manipular, experimentar e improvisar. O mais interessante é ter a capacidade de transformar, sem prever facilmente o que vai acontecer”, explica. O cientista, atualmente consultor da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), conta que tinha interesse na carreira acadêmica, mas no Rio Grande do Sul não existiam programas de pós-graduação na sua área. “Eu tinha uma atividade política muito intensa e em uma das minhas andanças conheci um pessoal da esquerda francesa que me sugeriu ir à França”, recorda.

Por ser da terceira geração de uma família de imigrantes suíços e saber falar bem o francês, o pesquisador seguiu o conselho e decidiu estudar na cidade francesa de Estrasburgo, mesmo sem nenhum auxílio econômico. Após um ano na França, Dupont conquistou uma bolsa de doutorado através do CNPq e concluiu o doutorado em Química em 1988, na Universidade Louis Pasteur.

Enquanto trabalhava como assistente de pesquisa, recebeu um convite para realizar o pós-doutorado em Química Orgânica na Universidade de Oxford, na Inglaterra, onde finalizou a especialização. “Oxford é muito glamour porque possui uma consistência que atrai os melhores estudantes. É como as faculdades públicas brasileiras, que têm os alunos mais qualificados, mas não são necessariamente as melhores universidades”, compara.

Na década de 90, voltou para o Brasil, onde atuou por dois anos como bolsista recém-doutor no Instituto de Química da UFRGS. “A infraestrutura da instituição era fraca. No departamento onde fui alocado, a maior parte dos professores não fazia pesquisas, só davam aulas, e ainda não existia curso de doutorado em Química”, revela. Segundo Dupont, o Instituto de Química da universidade começou a crescer a partir de 1995. “A geração que veio depois da nossa é uma das melhores, a maioria não é formada no Brasil. É necessário haver um equilíbrio do sistema, que deve ser renovado e reoxigenado com novas idéias”, afirma. De acordo com ele, a Química da UFRGS tem um sistema de pesquisa que é único no país, por não ser compartimentado e baseado em departamentos. “Os nossos grupos são interdisciplinares, o que é uma grande vantagem que outros institutos não têm”, assegura.

Membro Titular da Academia Brasileira de Ciências desde 2005, o professor não faz distinção entre trabalho básico e aplicado. “Afirmar que só faz ciência básica é uma limitação, quem diz trabalhar apenas com a ciência básica não compreende bem a amplitude e as implicações do que faz”, garante. Para o pesquisador, que ganhou duas vezes o Prêmio Inventor, da Petrobras, em 2007 e 2008, a principal função da Química é transformar um tipo de matéria em outra. Do ponto de vista mais científico, o objetivo básico é quebrar e refazer as ligações químicas, que, segundo Dupont, são uma espécie de cola entre os átomos. “Trabalhamos na tentativa de fazer com que as transformações ocorram com o menor custo energético possível. Para alcançarmos o que desejamos, precisamos controlar estas mudanças, limitados pelas leis universais, que não podem ser violadas”, explica.

Falando sobre seu trabalho, Dupont explica que grande parte das técnicas utilizadas para estudar o estado sólido não pode ser transportada para o liquido. Por este motivo, no início dos anos 90, os pesquisadores procuravam novos fluídos que possibilitassem a quebra de informações com maior controle e menos gasto energético. “Durante esta busca, descobrimos uma nova classe de compostos, que hoje é conhecida como líquidos iônicos, que não têm pressão de vapor e não pegam fogo. Cientistas descobriram que a associação de determinados compostos de sais orgânicos gerava líquidos iônicos na temperatura ambiente ou, até mesmo, em temperaturas muito mais baixas”, afirma.

Segundo Dupont, grandes companhias trabalham atualmente com líquidos iônicos, que têm uma vasta gama de aplicações industriais, substituindo os solventes orgânicos, que são mais voláteis. “Além de serem recicláveis, não poluentes, estas substâncias têm o potencial de dissolver o que quase nada consegue decompor, como a celulose. Os Estados Unidos investiram mais de 17 bilhões de dólares para utilizar líquidos iônicos na dissolução da celulose”, informa o cientista. Hoje em dia, Dupont diz que a Nasa possui uma linha de pesquisa focada no desenvolvimento de novos emissores e detectores, através de técnicas que antes só podiam ser utilizadas no estado sólido, e a Petrobras investe na construção de um laboratório de excelência em líquidos iônicos.

O professor acredita que há uma grande falta de doutores competentes na comunidade científica brasileira. “O país precisa de muitos doutores que tenham atitudes de gerente. Muitos têm qualificação mas não têm espírito empreendedor. Em diversos concursos brasileiros para professores de Química, não passa ninguém”, lamenta. Para ele, algumas das exigências as agências de fomento prejudicaram em parte a formação de doutores por privilegiar a quantidade de artigos publicados ao invés da qualidade. “Em grande parte dos casos, os programas de pós-graduação e os seus alunos viraram simples instrumentos de para gerar artigos, o que produz uma distorção no sistema”, afirma.

   Ainda assim, Dupont acredita que o país está em seu melhor momento, com condições propícias para uma expansão do sistema de ciência e tecnologia. “Este avanço exige profissionais cada vez mais capacitados e um enorme número de doutores. Para isso, cada instituição tem a sua função específica dentro da sociedade, que deve ser respeitada. Enquanto algumas universidades estão focadas em formar alunos de graduação, outras devem se concentrar no fornecimento de mestres e doutores, para a geração de conhecimento e tecnologia. O problema das nossas federais é que elas acham que têm que fazer tudo inclusive parte de algumas querem virar IFETs e não seguem o seu perfil, a sua função. Afinal de contas quem vai fornecer os doutores, o conhecimento
científico e tecnológico capaz de assegurar a expansão necessária do ensino superior ao crescimento da economia centrada no conhecimento ? Se não forem as Universidade públicas a liderar este processo, quem mais poderá realizá-lo?”, explica.

Ganhador do Prêmio Inventor-Inovador da Finep, em 2008, e do Prêmio Scopus-Elsevier da Capes, em 2007, o pesquisador considera fazer ciência um ato extremamente masoquista. “A todo o momento, o cientista se preocupa e se defronta com o fracasso, que está sempre presente na experimentação. Quando alcançamos o sucesso, ele dura de um a dois minutos, porque depois voltamos a nos concentrar na busca do entendimento e do aperfeiçoamento das pesquisas. O cientista tem que ser paciente, saber lidar com resultados negativos e não adotar modelos como verdades absolutas. O questionamento deve estar sempre presente”, aconselha o Acadêmico.

 

(Notícias da ABC, 23/1)

 
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"A Matemática não é uma ciência solitária"


Nascido em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, em 1975, o matemático Jairo Bochi estuda os Sistemas Dinâmicos, popularmente conhecidos como a Teoria do Caos. Filho de um engenheiro e de uma professora, o pesquisador afirma que se dependesse da escola estadual onde estudou, ele nunca teria se interessado pela Matemática. "Os professores não eram muito bons", confessa. Um dos primeiros contatos de Bochi com a ciência foi através do livro Uma Breve História do Tempo, escrito pelo físico Stephen Hawking. "Eu nunca me imaginei como cientista porque, através daquela obra, a impressão que eu tinha é que só devia existir uma meia dúzia de pesquisadores em Cambridge. Na época, eu não tinha noção de que a possibilidade de fazer pesquisa existia", recorda.

Bacharelado em Matemática no ano de 1996 pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Bochi relata que foi apenas ao ingressar na universidade, então no curso de Engenharia, que experimentou por um semestre, que cogitou fazer pesquisa. "Primeiro eu mudei para Física e só depois para a Matemática. Foi um susto para os meus pais, que demoraram a se acostumar com a idéia", relata. Bochi concluiu o mestrado em Matemática também na UFRGS, em 1997, e depois se mudou para o Rio de Janeiro, onde cursou o doutorado no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa). "Outra possibilidade que considerei foi ir para os Estados Unidos, mas o Impa é muito bom, então achei mais conveniente ficar no Brasil. Essa foi uma decisão da qual eu não me arrependo", garante.

Professor e pesquisador da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Bochi considera a sua área de estudo muito interessante pelo fato de avaliar como ocorre o surgimento da aleatoriedade em um sistema regido por leis determinísticas. "Na Teoria do Caos, a imprecisão é ampliada rapidamente. Em muitos fenômenos, a perda acelerada da exatidão impossibilita a prática da previsão. Um bom exemplo disso é o prognóstico do tempo. Mesmo com um modelo ótimo de como funciona a atmosfera, com os dados de centenas de satélites e com os melhores computadores à disposição, o cientista não consegue garantir que estará chovendo daqui a uma semana", exemplifica.

De acordo com Bochi, a maior parte do seu estudo provavelmente não possuirá uma aplicação prática. "Na ciência, os pesquisadores trabalham como uma equipe que busca levantar e responder perguntas. Aos poucos, nós solidificamos e construímos uma teoria que representa a análise e a compreensão de um certo tipo de fenômeno", esclarece. O professor considera a Matemática um estudo interessante e apaixonante por si só, independente da possibilidade de uma aplicação direta ou não. "Muitas pessoas não percebem que muitos objetos que utilizamos no mundo contemporâneo possuem uma enorme base tecnológica. A Matemática está por trás de tudo isso e é, sem dúvida, muito importante para a sociedade moderna", declara. Segundo Bochi, uma simples chamada de celular só se tornou possível a partir do trabalho de centenas de cientistas e de engenheiros que estudaram uma enorme variedade de fenômenos para chegar até este resultado. "Os fundadores do Google não teriam pensado no algoritmo básico do programa se um deles não fosse formado em Matemática", complementa.

Para Bochi, a atividade de fazer pesquisa é muito motivadora porque envolve um processo prazeroso de descoberta. "Para se tornar um bom pesquisador é necessário algum talento e um pouco de disciplina. É preciso ter curiosidade, vontade de aprender coisas novas e ficar sempre atento para as novidades que são descobertas", afirma.Ele destaca que é preciso combater a tendência de especialização excessiva da ciência. "O bom cientista não pode se isolar no seu cantinho".

Indicado para Membro Afiliado da Academia Brasileira de Ciências (ABC) em 2007, Bochi ressalta que a compreensão da Matemática é muitas vezes indispensável para o desenvolvimento de pesquisas em diversas áreas científicas. "Em um evento realizado na ABC, conversei com um pesquisador - o biólogo Eduardo Eizirik - que utiliza algoritmos matemáticos para comparar os códigos genéticos dos animais. Este é um bom exemplo de como o estudo dos números é necessário para o desenvolvimento dos mais variados setores da ciência", relata.

Em sua opinião, muitas pessoas têm dificuldade em compreender a Matemática porque ela se constrói em cima de si mesma. "Quando o estudante perde uma etapa, ele não consegue entender o que vem depois. Isso é um problema de formação escolar", aponta. Para Bochi, apesar do Brasil estar bem desenvolvido na área e de não faltarem recursos para o setor, ainda é necessário investir em recursos humanos. "O país é muito grande e precisa de muitos profissionais qualificados. Temos que fazer uma propaganda para buscar e atrair talentos", afirma. O pesquisador ressalta que raramente vê a ciência na mídia e defende a divulgação da pesquisa acadêmica da área. "Há muito espaço para a difusão do setor. Uma das alternativas é mostrar para a população que os objetos mais familiares possuem uma matemática interessante por trás", sugere.

O cientista, que foi professor da UFRGS por três anos antes de vir para o Rio, elogia o sistema de ciclo básico da PUC-Rio para quem vai cursar as Ciências Exatas. "Todos os alunos entram juntos e só depois decidem qual curso vão seguir. É diferente do que acontece nas universidades federais", destaca. Casado com uma publicitária carioca, Bochi avalia que apesar das condições científicas do Rio Grande do Sul serem muito boas, o estado possui apenas um Departamento de Matemática. "O Rio de Janeiro conta com a PUC, o Impa e a UFRJ. Há muito mais profissionais na área e este é um dos motivos porque eu me mudei. Trabalhar com outras pessoas possibilita a troca de idéias, o que é muito estimulante. A Matemática não é uma ciência solitária", finaliza o pesquisador.

 

(Notícias da ABC, 23/1)
 
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No limite das estruturas: confiabilidade e risco


O Acadêmico Jorge Daniel Riera, atualmente presidente da Associação Sul Americana de Engenharia Estrutural (ASAEE) e, há 32 anos, Professor Titular e Pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), entrou cedo em contato com a ciência. Nascido em 1938, em Tucumán, na Argentina, ele acompanhava o pai em excursões a procura de cobras quando criança. “Meu pai, que não completou estudos de Engenharia nos EUA porque detestava a Matematica, gostava de Química e de Ciências Naturais. Ele tinha uma queda pela Entomologia, pelos insetos, e gostava de fotografar a natureza”, recorda Riera.

Ainda no ensino fundamental pensava em estudar Medicina, mas perdeu uma data de inscrição para ingressar no Colégio Nacional, de ensino médio, e acabou fazendo escola técnica na área de Construção. E gostou. Em 1960, antes de se graduar em Engenharia pela Universidad Nacional de Tucumán (UNT), ganhou uma bolsa do Instituto de Educação Internacional para estudar na Princeton University, nos Estados Unidos, onde cursou três semestres. Com bolsa da Fundação Ford, Riera realizou poucos anos mais tarde o doutorado na mesma universidade nos EUA, onde se especializou em Mecânica das Estruturas.

Ao longo de sua carreira, o engenheiro sempre trabalhou na área de Dinâmica Estrutural, que abrange na prática problemas relacionados às ações que provocam vibrações violentas, como impacto, terremotos, vento, movimento de veículos e explosões. Uma importante sub-área inclui estudos de confiabilidade e risco na Mecânica das Estruturas e dos Materiais. “Comecei a trabalhar nesse campo por uma razão lógica: avaliar as velocidades do vento para normas de projeto de construções na Argentina e logo no Brasil, resultava necessário estudar previamente a probabilidade da ocorrência de tais ações. À medida que começamos a estudar e avançar, aparecem novas formulações e necessidades”, explica.

A partir de 1968, casado e já pai da primeira de três filhas, Riera trabalhou como engenheiro de pesquisa em uma firma americana de grande porte, especializada em projetos na área de geração de energia nuclear - Gilbert Associates Inc . “Foram dois anos incríveis, porque cada dia era uma surpresa. Nós tínhamos recursos que pareciam ilimitados, possibilidades para fazer contatos e recorrer a consultores de prestígio onde quer que eles estivessem”, afirma.

Na empresa, o engenheiro, que trabalhava na área de Dinâmica Estrutural, ficou reconhecido através de um trabalho elaborado para a agência reguladora nuclear (NRC) dos EUA, no qual analisou qual seria o efeito do impacto de um avião no edifício de contenção de uma usina nuclear. Segundo Riera, esses estudos tiveram um grande impacto na Europa, na época no meio da Guerra Fria entre a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e a ex-União Soviética. Com efeito, a OTAN mantinha durante as 24 horas do dia aviões no ar prontos para responder a um eventual ataque da União Soviética, o que provocou muitos acidentes nas décadas de 70 e 80. “Esse estudo teve uma repercussão enorme. Todas as usinas nucleares alemãs tinham que possuir esse tipo de análise e, para isso, o meu trabalho e metodologia foram amplamente utilizados”, lembra Riera. Um quarto de século mais tarde o problema voltou a ter prioridade, como conseqüência dos atentados de 11 de setembro, mas agora com outras características: as ações a estudar não são mais acidentais.

Em 1972, já como Professor da Universidade Nacional de Tucumán, Riera travou contato com um especialista brasileiro na ação do vento nas construções, o Professor Joaquim Blessmann, pois não havia nenhum argentino com essa capacitação na época e o conhecimento sobre os efeitos do vento é básico na construção de edifícios altos e de grandes pontes, por exemplo. Através deste contato, acabou sendo convidado a dar aulas no então novo programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil da UFRGS, hoje um dos mais antigos do Brasil. Ficou indo e vindo por quatro anos, pois sua família ainda continuava em Tucumán. Em 1976, porém, com as universidades argentinas atravessando um período de caos devido à subversão, aceitou o convite para instalar-se com a família no país. “O Brasil estava progredindo de forma surpreendente, as perspectivas eram de boas condições de desenvolvimento científico”, lembrou Riera.

De início, o Acadêmico trabalhou também na avaliação da ação sísmica em estruturas. Nessa área seus alunos na UFRGS eram basicamente estrangeiros - argentinos, peruanos e chilenos, pois como na maior parte do território do Brasil a atividade sísmica é baixa a moderada, os estudantes brasileiros mostravam pouco interesse. Porém, na última década, importantes firmas brasileiras passaram a atuar no exterior e também a exportar estruturas fabricadas no país para países com atividade sísmica intensa, como Chile, Venezuela, Turquia e Egito. “Então o conhecimento dos efeitos sísmicos nas estruturas se tornou fundamental”, conta Riera. O processo de globalização abriu um mercado inesperado, o que ampliou o interesse dos estudantes brasileiros pelo assunto. Com o aumento da demanda, Riera passou a trabalhar em assessoria, ensinando como projetar e adaptar projetos para regiões com grande risco sísmico.

O engenheiro também participou dos desenvolvimentos iniciais para viabilizar a utilização do escoamento de ar em dutos para movimentar veículos a serem utilizados no transporte urbano, iniciativa de indústrias gaúchas que visavam a construção dos veículos empregando tecnologia de aviação. Na cidade de Porto Alegre foi construída uma estrutura experimental para estudar o efeito das vibrações e o desempenho geral do aeromóvel, assim denominado o trem movido a ar. Segundo Riera, por possuir motor e ventilador externos, o veículo tem como vantagens ser mais leve, seguro e confortável. No início, a experiência obteve apoio federal sendo posteriormente construída uma linha de 4km em Cingapura para utilização comercial.

Em sua trajetória, o engenheiro realizou atividades docentes e de pesquisa em universidades de cinco países. Além da atual UFRGS, no Brasil, ele foi Professor Visitante da Universität Innsbruck, na Áustria; da Technische Universitat München, na Alemanha; Professor Titular da UNT, na Argentina, ministrando também cursos de curta duração na Universidad Nacional de Cuyo, em Mendoza, Argentina e na Universidad de Chile, em Santiago. Foi Diretor do Laboratório de Estruturas, da UNT, entre 1972 e 1974. Coordenou o curso de pós-graduação em Engenharia Civil, na UFRGS, no período de 1993 a 1995. Em 1985, recebeu o Diploma de Honra ao Mérito, da Comissão Nacional de Energia Nuclear e, entre 1994 e 1998 foi Membro do Conselho do Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados, na UFRGS.

Até 2008, ainda como Professor ativo, Riera foi Chefe do Laboratório de Dinâmica Estrutural e Confiabilidade, na mesma universidade. Nesse ano ele aceitou convite da UFRGS para continuar suas atividades como Professor Convidado. Quase ao mesmo tempo aceitou também a sua incorporação ao Conselho Cientifico do recentemente criado Centro Internacional de Segurança Sísmica (ISSC), órgão da IAEA com sede em Viena. Paralelamente á área de Confiabilidade, ele trabalha com Controle e Monitoramento Estrutural, cujos objetivos são a determinação do estado das estruturas, para confirmar as predições de projeto e determinar se o risco de falha é maior do que seria admissível de acordo com as normas. Com esse objetivo, propõem-se avaliações periódicas da segurança, através de métodos que devem necessariamente ser economicamente viáveis. “É preciso gerenciar melhor as coisas. As estruturas são como a nossa saúde. Problemas pequenos que a gente ignora e não cuida, daqui a pouco não tem mais conserto”, compara o pesquisador.

Para Riera, a UFRGS deveria investir mais na pós-graduação em áreas básicas da Engenharia, que constituem os pilares da ciência e das tecnologias de ponta. A tendência atual é responder às demandas transientes da moda e do mercado. “Só incentivar não é suficiente. É necessário, também, oferecer oportunidades”, defende. “Os centros de excelência são essenciais para assegurar a presença do Brasil junto ao grupo de nações lideres em ciência e tecnologia e não devem ser prejudicados exigindo que eles também participem, por exemplo, na formação de técnicos de nível médio. Esse objetivo é sem duvidas relevante, mas você imagina o MIT dedicado a formação de técnicos de nível médio?”, diz Riera.

Para o professor, uma das razões para o baixo número de candidatos qualificados em pós-graduações na área é o surgimento de novos cursos, que exigem menos do aluno, por ser menos concentrados na Matemática enquanto atendem enganosamente as demandas do mercado. “A Engenharia Ambiental, por exemplo, teria que ser uma aplicação, em nível de especialização ou pós-graduação, de outros ramos de Engenharia e não um outro curso independente. Estamos sacrificando a formação básica para fazer uma maquiagem”, declara.

Segundo ele, a situação foi agravada com a ampliação da quantidade de programas de pós-graduação disponíveis. “Há 30 anos, disputávamos os bons candidatos com a PUC- Rio, a COPPE da UFRJ e USP. Hoje, disputamos candidatos com mais de 50 cursos de Pós-Graduação. Somos vítimas do nosso próprio sucesso”. Mas Riera vê uma luz na frente - aqueles programas de pós-graduação que mantiverem o nível de excelência e a orientação na direção certa, virão a ser reconhecidos pela sociedade como tais, como acontece hoje em relação às grandes universidades americanas, européias e asiáticas.

 

(Notícias da ABC, 23/1)
 
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“A Antropologia era a prima pobre das Ciências Sociais”


A vontade de entender e mudar o mundo vem de pequeno. O gosto pela pesquisa, escrita e ensino também. Graduado em Ciências Sociais e em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com mestrado em Planejamento Urbano também pela UFRGS, doutorado em Ciências Sociais pela Universidade de Londres e pós-doutorado em Antropologia Social pela Universidade de Paris, o Acadêmico Ruben George Oliven conta que sempre gostou de escrever.

Herança herdada de seu avô que era libretista de operetas tocadas até hoje na Alemanha, país de origem de sua família. O ambiente intelectualizado em que vivia foi determinante para a sua escolha profissional. “Lá em casa, muitas vezes, não tinha dinheiro para a Coca-Cola, mas nunca faltava dinheiro para o livro”, ilustra. Além disso, o gaúcho de Porto Alegre nunca teve muita habilidade para as ciências exatas, como relata: “Eu até tinha capacidade de desmontar coisas, mas jamais de remontá-las! Não tenho uma boa motricidade e também nunca dei para a matemática”, conclui.

“Eu queria mudar o mundo”, lembra, justificando a escolha pelas Ciências Sociais. Na ocasião, seu pai lhe sugeriu que também cursasse Economia e ele assim o fez. Oliven destaca que ao longo do curso de Ciências Sociais, em meados dos anos 60, embora estivesse vivendo em um momento de muita politização, o que lhe chamava a atenção eram os assuntos relacionados à cultura. Ao mesmo tempo, o antropólogo ressalta a fascinação que sempre teve por cidades. “Sempre morei em cidades e gostei. Eu sabia que queria fazer alguma coisa que tivesse a ver com cidade e com cultura”, acentua.

Muito versátil, Oliven já trabalhou em diferentes ramos. Além de universidades, o antropólogo, que destaca o seu lado prático, já passou por empresas de planejamento, associações e instituições governamentais. Porém, antes de se formar, o que Oliven gostava de fazer era dar aulas de história em uma escola particular no Rio Grande do Sul. Quando formado, foi se profissionalizar e largou a escola, indo trabalhar na então maior empresa de planejamento brasileira, a ASPLAN. Mas o gosto pelo ensino o acompanhou e fez com que saísse da empresa e passasse a dar aulas no Departamento de Ciências Sociais da UFRGS.

A partir daí, a vida acadêmica de Oliven deslanchou. O antropólogo, que é um dos fundadores da Revista Brasileira de Ciências Sociais, ingressou no mestrado em Planejamento Urbano, ocasião em que desenvolveu a sua primeira pesquisa – o estudo de uma vila planejada em Porto Alegre e a relação política, social e educacional desses moradores com a cidade. “Essa foi uma experiência muito interessante, que me levou a criar seminários especiais daquilo que eu queria estudar. Li tudo que encontrava sobre cidade e estudava junto com os alunos”, explica. De seus estudos sobre o meio urbano nasceram vários artigos e os livros Metabolismo Social da Cidade, Urbanização e Mudança Social no Brasil e Antropologia de Grupos Urbanos .

Terminado o mestrado, a vontade de Oliven era fazer doutorado e sair do país. O local escolhido para passar os quatro anos seguintes de sua vida foi Londres, Inglaterra. Lá, o antropólogo teve a possibilidade de viver uma experiência de liberdade acadêmica que ele não tinha no Brasil, devido ao período político em que o país vivia. No doutorado, Oliven desenvolveu uma pesquisa envolvendo cinco diferentes grupos sociais de Porto Alegre - desde um grupo de uma das mais antigas favelas da cidade até o de classe mais alta, comparando vários aspectos do envolvimento desses grupos em educação, política, religião, família e lazer. Com esse trabalho, o antropólogo, que ganhou o Prêmio Érico Vannucci Mendes por sua contribuição ao estudo da Cultura Brasileira, começou a pesquisar os significados da cultura brasileira.

Ainda na Inglaterra escreveu um artigo intitulado: Culture Rules OK: class and culture in Brazilian cities, publicado originalmente no International Journal of Urban and Regional Research . Essa publicação, como relata, “acabou sendo uma espécie de programa de pesquisa que eu estava estabelecendo sem me dar conta”. A discussão do tema coincidiu com o momento político que o Brasil vivia. Com a redemocratização, em 1978 Oliven voltava para casa. O ambiente era de muita efervescência e estavam começando a surgir vários grupos novos, como o movimento feminista, o movimento gay e a Igreja Universal do Reino de Deus. Eram novos atores sociais que estavam construindo suas identidades. Logo, a cultura, de que até então se falava muito pouco nas Ciências Sociais, passou de um “não-tema para O tema”, conta o antropólogo, que também comemora a ascensão da Antropologia nesse momento. Nessa época, Oliven publicou seu livro Violência e Cultura no Brasil.

Como resultado da maré boa e da força empreendedora de Oliven, foi criado, em 1979, o Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFRGS. Naquele ano foi iniciado o mestrado e em 1991, o doutorado. Oliven conta que desde o início o projeto só cresceu. “No momento em que criamos o mestrado, começamos a atrair bons alunos. Foi um processo coletivo. Todos crescemos juntos”, arremata.

Mas uma das pesquisas que mais motivou Oliven durante alguns anos foi o estudo do imaginário brasileiro na música popular. Ele começou analisando a figura do malandro na música popular brasileira nas décadas de trinta a cinqüenta do século passado e toda a relação entre trabalho, mulher e dinheiro que esse tema traz consigo. Nessa época o samba era o gênero musical hegemônico. O antropólogo tentou entender como surgiu essa figura tão popular no Brasil, que demonstra a não disposição para o trabalho – o trabalho é só para trouxa, é ruim. O esperto procura soluções mágicas para ganhar dinheiro – o gosto pela mulher que, na música, é construída de diferentes maneiras e a relação do malandro com o dinheiro. Nessas músicas, o discurso é de que o dinheiro é desprezível, mas é algo pelo qual os homens correm atrás somente para satisfazer a vontade da mulher, que não pede o que há de melhor no homem – sua capacidade de amar. E acredita em diversas soluções fáceis para se conseguir esse dinheiro, como jogar no bicho, dar um golpe em um otário, tirar a sorte grande na loteria.

“É o Brasil dos homens que ganham pouco, tentam conseguir dinheiro de forma realista, não conseguem e procuram soluções simplistas”. Oliven relaciona tal fato com a questão da escravidão no país. Sendo muitos dos primeiros sambistas descendentes de escravos e, por sua vez, não tendo os instrumentos que para eles eram necessários para impressionar a mulher – poder e dinheiro – se valiam da capacidade de fazer música e amar.

Mas enquanto trabalhava nesse tema, Oliven começou a ser questionado quanto à cultura do Rio Grande do Sul. “Me perguntavam: não vai estudar a cultura gaúcha?”, diz. E ele se deu conta de que estava acontecendo um renascimento da cultura gaúcha naquela época – década de 80 – e resolveu, então, pesquisar o fenômeno. O número de Centros de Tradições Gaúchas cresceu astronomicamente, atingindo atualmente 2.500 em todo o Brasil; Porto Alegre passou a ter editoras que só publicam material gaúcho; rádios que só tocam música nativista, além de surgirem vários restaurantes típicos. Este processo não era forte na década de 70 e merecia ser estudado.

“Na medida em que o mundo vai se globalizando, o local vai se recriando e os grupos aparecendo e se fortalecendo. Era o que estava acontecendo aqui”, aponta. Oliven explica que já na época 80% da população do Rio Grande do Sul era urbana e naquele momento houve a recriação de um movimento todo baseado no campo e no passado. Como resultado desse estudo, o antropólogo publicou, pela Editora Vozes, o livro A Parte e o Todo – A Diversidade Cultural no Brasil-Nação, que lhe rendeu o prêmio de Melhor Obra Científica do Ano, concedido pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs).

O lado social, porém, não era somente o que lhe falava. Sua versão economista também ganhava terreno. Ao ser chamado para lecionar no Departamento de Antropologia da Universidade da Califórnia em Berkeley, Oliven decidiu estudar o dinheiro nos Estados Unidos. “Estava meio receoso com a empreitada. Mas foi interessante porque como eu estava antenado com isso, no que eu cheguei aos EUA me dei conta de que lá tudo passa pelo dinheiro”, observa.

Seu trabalho era comparativo e mostrava como o assunto é entendido no país onde estava e no Brasil. “Nos EUA dinheiro é bom, é limpo, é fruto do trabalho bem sucedido. Já no Brasil, é visto como sujo e as pessoas têm até dificuldade em falar dele”, comenta. O antropólogo cita como exemplo um conceito tipicamente brasileiro: “O dinheiro é sujo, mas a maçaneta da porta, que todo mundo pega, não é”. A pesquisa resultou na publicação de vários artigos em português e em inglês e na criação da disciplina sobre Antropologia Econômica na pós-graduação.

Hoje, Oliven ministra, além de Antropologia Econômica, outra disciplina sobre Teorias da Cultura e dirige o Seminário de Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFRGS. Nesse seminário, cuja função é familiarizar os doutorandos com a pesquisa, as suas aulas não são tradicionais. “Fiz várias experiências e acabei optando por um modelo onde convido diferentes pesquisadores, não só antropólogos, mas das mais variadas áreas e em diferentes estágios de suas carreiras para falarem aos alunos”, explica. O cientista social esclarece que, na primeira metade dos encontros do seminário, os pesquisadores falam de suas trajetórias profissionais – as dúvidas e as afinidades que tiveram – e, na segunda metade, são discutidos os artigos dos convidados que foram lidos previamente.

Para finalizar, o antropólogo apontou o estado atual de sua área no Brasil, ressaltando o crescimento, em suas palavras, “fantástico” que houve nos últimos 30 anos. “As Ciências Sociais e Humanas cresceram em número de pessoas pós-graduadas, em número de congressos e em presença nas agências de fomento, como o CNPq”, constata. O panorama é também positivo pelo fato de estar havendo uma expansão das universidades no Brasil, que absorve muitos dos pós-graduados. Outros mercados possíveis para cientistas sociais são ONG's, empresas na área de planejamento, Ministério Público Federal e partidos políticos. Para Oliven, a área tornou-se respeitada mundialmente e está começando a acontecer uma internacionalização das Ciências Sociais brasileiras, através de cientistas fazendo pesquisa em outros países da América Latina, na África, Ásia e países do Primeiro Mundo.

Oliven conclui com um pensamento: “Um bom curso de Ciências Sociais dá ao aluno a capacidade de perceber e analisar processos sociais e culturais. Uma pessoa que tiver uma sólida formação e que for empreendedora consegue trabalhar em diferentes ramos e ter uma boa colocação.”

 

(Notícias da ABC, 23/1)
 
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Dedicação ao estudo das argilas da América do Sul


O Acadêmico Milton Luiz Laquintinie Formoso, Professor Titular do Departamento de Geologia do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), é um defensor do ensino médio de alto nível. “É necessário aumentar os salários dos professores, para que eles possam fazer do ensino a sua profissão. Trabalhar em contato com os alunos é fundamental”, argumenta. Ele considera crucial que os alunos sem recursos tenham acesso a um ensino médio de tempo integral, com direito às refeições e à prática de esportes.

Nascido em Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 1927, Formoso afirma que estudou em um colégio de qualidade elevada, onde os professores eram intelectuais. “Fui um bom aluno, ganhava prêmios e gostava de ciências. Isso foi muito importante para a minha carreira acadêmica”, garante. Descendente de franceses, o Acadêmico conta que seu bisavô foi um grande professor na época em que o ensino secundário ainda não era legalizado no Brasil. “Se ele assinasse em baixo que o aluno estava aprovado, não havia necessidade de prestar novos exames para ingressar em faculdades”, revela.

Formoso graduou-se em Química pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 1950, e, dez anos depois, especializou-se em Geoquímica pela U.S. Geological Survey (USGS), nos Estados Unidos. “Fiz a minha preparação para o doutoramento nos EUA e na França. Realizei cursos em Harvard, uma universidade de muito alto nível. Voltei bem para o Brasil, porque defendi minha tese já mais maduro, mais experiente”, afirma. Em 1973, concluiu seu doutorado em Geologia na Universidade de São Paulo (USP). Professor da UFRGS e especialista em Geoquímica, o pesquisador foi três vezes presidente da Sociedade Brasileira de Geoquímica.

De acordo com o Acadêmico, a honestidade é uma das características mais importantes para a consolidação de um trabalho de qualidade na Geologia e praticamente em todas as ciências. “As observações no trabalho de campo são individuais. Se o cientista inventar, tudo está perdido”, garante. Ele defende que é essencial a presença de um geólogo e de um geoquímico na realização de estudos voltados para o meio ambiente. “O geólogo e o geoquímico têm noção de locação para solucionar os problemas de amostragem e da migração das espécies químicas”, justifica.

Aos 80 anos, o Acadêmico não perdeu o ritmo de trabalho. Ele pesquisa as argilas da América do Sul, especialmente as bentonitas. “Essas argilas têm grandes importância científica e tecnológica. Uma de suas funções é reter espécies químicas que envenenam as águas”, explica. De acordo com Formoso, muitos produtos farmacêuticos utilizam a bentonita ou o caolim como material agregador para compor os remédios. A argila também é empregada para a pelotização de minérios de ferro e é fundamental para o petróleo, porque possui uma propriedade chamada tixotropia. Porisso, ela continua muito usada na perfuração de poços. Atualmente, o pesquisador estuda a possibilidade de utilizar a argila como adsorvente de íons radioativos. “Trabalho com a família de íons mais próximos dos radioativos, os íons das terras raras”, afirma.

Com relação à formação de recursos humanos, Formoso formou o maior número de alunos no Estado, na área de Ciências da Terra. “Foram 27 mestres e 18 doutores, dos quais 11 são formados pelo Brasil e pela França. O nosso País, infelizmente, não dá muita importância ao doutorado em co-tutela, que deveria ser mais valorizado”.

Ele considera fundamental a realização de um levantamento do número de alunos de iniciação científica que passam para mestrado e doutorado. “É importante a cobrança e a estatística dos resultados. A iniciação científica tem que ser mais focada e fiscalizada, porque ela pode se tornar apenas uma bolsa de estudos para os alunos. Não é correto utilizar o estudante como mão de obra barata”, afirma.

Formoso valoriza a seriedade no trabalho e não acredita em grandes inspirações. “Eu digo para todos os meus alunos que é preciso mais transpiração que inspiração. As pessoas mais competentes estão na universidade pública, é um privilégio estudar aqui. O estudante tem que aproveitar e dar mais importância a isso”. Na sua trajetória de dedicação e talento, o Acadêmico recebeu os títulos de Comendador e da Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico, em 2002 e em 2005, respectivamente, da Presidência da República do Brasil. Em 1983 e 1989, ganhou Prêmio Mérito à Pesquisa, um do Governo do Estado do Rio Grande do Sul e o outro da Associação Brasileira e Conselho Federal de Química, é Professor Emérito da UFRGS e recebeu o título de Doutor Honoris Causa, pela Universidade de Poitiers, França.

Com relação à ciência brasileira, o pesquisador acredita que houve grande progresso, mas ainda há um longo caminho a percorrer. Para ampliar a evolução científica brasileira, ele sugere que seja criada a função de pesquisador exclusivo do CNPq nas universidades, com a finalidade de trabalhar em laboratórios de pesquisa. “Há laboratórios brasileiros que custaram mais de um milhão de dólares e estão sem operadores. Formamos 12 mil doutores por ano e muitos desses não estão em atividade. Um laboratório caríssimo tem que trabalhar 24 horas por dia e ter seu rendimento máximo”, afirma. Para isso, precisa de pesquisadores de tempo integral nos laboratórios.

Na sua opinião, falta união entre os cientistas brasileiros. Ele pensa que o excesso de competição e a ausência de espírito solidário prejudicam o trabalho em equipe e o progresso científico. “Para avançarmos, é necessário melhorar o nível das universidades e exigir qualidade no ensino. O país precisa de pessoas competentes; temos que ampliar o nível intelectual e de conhecimento dos brasileiros, ampliar sua visão geral. E isso somente se consegue com universidades de alto nível”, defende o Acadêmico. Ainda que mantenha a postura crítica, no entanto, Formoso confia no pesquisador brasileiro, no progresso científico do Brasil e na conquista em breve de um Prêmio Nobel para o Brasil . “As áreas em que temos mais chance de ganhar, na minha opinião, são a Biologia, em primeiro lugar e, em seguida, a Física”.

 

(Notícias da ABC, 23/1)

 
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