"O talento não escolhe onde nascer"

Na cerimônia de diplomação dos Membros Afiliados da Região Nordeste, realizada no final de 2008, o presidente da ABC Jacob Palis reforçou a idéia de que esse espírito de Academia, de excelência em Ciência, deve se espalhar por todo o país.

 

“No Nordeste, a carreira anda mais depressa”

A física paulista Adriana Fontes, formada na Unicamp, acha que valeu a pena ousar uma mudança, avalia que no Norte-Nordeste as perspectivas são boas para jovens cientistas e diz que contou com apoio dos pesquisadores mais experientes.

     

Informação quântica: potencial revolucionário

O físico Daniel Felinto tem interesses diversos, mas está focado atualmente na montagem de um laboratório de óptica quântica na UFPE para começar a trabalhar com redes quânticas no Brasil.

 

Instinto natural para a ciência

Pós-graduado em Física pela UFPE e pós-doutorado em Harvard, Ernesto Raposo conta que quando criança ainda não conhecia a palavra “cientista” mas sabia que existia algo que explicava as coisas e que queria estar ligado àquilo ao longo da sua vida.

   

“As ciências estão sempre próximas e separadas”

Para o matemático paraibano Jorge Herbert Lira, a interação da Matemática com outras áreas da ciência é como a linguagem das ruas nordestinas, que possui uma mesma essência, mas sofre diversas modificações.

 

Atrair bons alunos para a Matemática é um desafio

Para Krerley Oliveira, as Olimpíadas de Matemática ajudam bastante, mas faltam professores que expliquem ao aluno que com talento a carreira de matemático pode ser promissora, além de ser importante ferramenta para diversas outras áreas.

     

Fortalecendo a ciência nordestina

Formado em Engenharia Elétrica pela UFBA, Lucas Ferreira assumiu sua paixão pela Matemática na pós-graduação e hoje estuda equações diferenciais parciais, trabalhando na UFPE, em Recife.

 
“Cada ciência pensa os objetos de uma forma própria"

O físico Roberto Moreno, que graduou-se em Química e migrou para a Física, acredita que a formação de químico melhora sua capacidade de análise dos problemas e que a especialização em Física auxilia na resolução das questões.

     
“É bonito trabalhar onde se é mais necessário”

Baiano de Salvador, o químico Valfredo Lemos tinha resistência em trabalhar no interior, mas foi há oito anos para Jequié e hoje reconhece que essa iniciativa influenciou positivamente sua carreira.

 
Por quê? Por quê? Por quê?

Curioso pela ciência desde pequeno, o matemático Eduardo Teixeira trabalha com equações diferenciais parciais, que segundo ele configuram a principal linguagem com que lemos a natureza.

     
   
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Notícias da ABC - Ano III - nº 55 - 30 de janeiro de 2009 
 

Responsável:
Elisa Oswaldo-Cruz - elisa@abc.org.br

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"O talento não escolhe onde nascer"


A Universidade Federal de Pernambuco foi palco de evento da Regional Nordeste da Academia Brasileira de Ciências, no dia 11 de dezembro de 2008 - a diplomação dos Membros Afiliados da ABC da Região Nordeste indicados em 2007 e 2008.

O vice-presidente da ABC para a região Nordeste, o físico Cid Bartolomeu de Araújo, conduziu asessão, apresentando inicialmente os membros da mesa: Jacob Palis, presidente da ABC; Manoel Lemos, diretor do Centro de Ciências Exatas e da Natureza da UFPE; Anísio Brasileiro de Freitas Dourado, pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UFPE.


Cid Bartolomeu de Araújo e Jacob Palis

  

Cid Araújo abriu a sessão convidando os membros à mesa e falando da motivação do evento,. Ele explicou que a ABC instituiu há dois anos as Vice-Presidências Regionais, que são seis, sendo uma a do Nordeste. Entre suas atribuições está a indicação anual, através de consulta aos Membros Titulares da região, de jovens cientistas de destaque nas diversas áreas da Ciência para Membros Afiliados da ABC, categoria em que permanecem por cinco anos não renováveis.

“A idéia é que estes jovens brilhantes possam ser eventualmente eleitos como membros Titulares, renovando assim os quadros da Academia”. Neste encontro seriam diplomados nove cientistas: dois químicos, quatro matemáticos e três físicos. Mas um dos matemáticos, Eduardo Teixeira, está nos Estados Unidos e não pôde comparecer.

O Prof. Jacob Palis reiterou as palavras de Araújo e complementou, recordando que a proposta das vice-presidências regionais, conduzida por ele e por sua diretoria, eleita em 2007, teve por objetivo fortalecer a excelência científica de outras regiões além de Rio e São Paulo, onde se concentra boa parte da produção científica brasileira.

“Os talentos não escolhem onde nascer, e eles devem ser identificados e reconhecidos. Vocês, que foram escolhidos, representam um oxigênio novo na ABC, e esperamos que se sintam estimulados para se dedicar ao crescimento da ciência no Brasil”. Palis chamou atenção para a expectativa da ABC de que estes jovens membros, criteriosamente escolhidos, tenham iniciativa, se organizem regional e nacionalmente e promovam atividades, levando as vice-presidências para a frente, colocando o Nordeste em maior evidência na Ciência brasileira.


Roberto Moreno, Valfredo Lemos, Adriana Fontes, Cid Araújo,
Ernesto Raposo, Daniel Felinto e Jorge Lira
   O Prof. Cid Araújo apresentou brevemente cada um dos diplomados e o Prof. Jacob Palis entregou os diplomas. O encerramento da cerimônia, seguido pelas palestras dos diplomados sobre seus trabalhos de pesquisa, foi feito pelas palavras do pró-reitor Anísio Brasileiro, representando o reitor Amaro Lins, que estava em Brasília e não teve como voltar a tempo. O professor comentou a situação atual das universidades no Brasil, que apesar de todas as dificuldades evoluiu bastante
nos últimos anos. “Universidades como a UFPE, que é litorânea, estão se interiorizando, abrindo outros campi no interior dos estados, e esse movimento de ampliação se replica por todo o país.” Para ele, a grande força das universidades são os seus recursos humanos, incluindo alunos, professores e funcionários, e destacou seu papel preponderante na inclusão social necessária para a evolução da sociedade brasileira.

O Prof. Anísio considerou uma honra para a UFPE sediar uma reunião da Academia Brasileira de Ciências, especialmente contando com a presença do Prof. Jacob Palis, “uma referência na Matemática brasileira e mundial, pois não é trivial seu nível de publicações nem comum sua luta em prol da Matemática para os jovens, pois sabemos que sem a Matemática não temos chance de progredir econômica e socialmente”.
  

Anísio Brasileiro

 

(Notícias da ABC, 30/1)

 
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“No Nordeste, a carreira anda mais depressa”


Paulista da cidade de Jaú, no interior de São Paulo, filha de professora de artes com advogado, Adriana Fontes gostava de descobrir e entender as coisas, e os pais estimulavam. “Brincava de laboratório de Química e desde criança dizia que queria ser cientista, embora não soubesse em que área”, lembra Adriana.

Quando cresceu, identificou um maior interesse pela Medicina e pela Física. Porém, ao visitar universidades no ensino médio, descobriu que gostava de observar as células, mas não os cadáveres. Como tinha curiosidade em entender o funcionamento do cérebro, por exemplo, e também por Física, optou pela multidisciplinaridade: fazer Física aplicada à Biologia. “Na época, porém, não era praxe essa interdisciplinaridade, mais freqüente hoje. Poucos professores trabalhavam com isso”, conta a pesquisadora.

A Física que encontrou na Unicamp, porém, era muito diferente da que tinha visto no ensino médio. “No primeiro ano ocorre uma grande evasão, acho que pela falta de visão do que é a Física em nível profissional. Para mim repercutiu diferente, me deu até uma certa decepção, parecia uma revisão do ensino médio. Mas depois entra numa abordagem mais aplicada, mais tecnológica”, observou Adriana. Em termos de empregabilidade, ela diz que fica claro nos primeiros anos que a Física encaminha mais para atividades acadêmicas, como professor e pesquisador. “Tem gente que não quer isso. No Brasil não são apresentadas – ou pelo menos não eram, há dez anos atrás - as opções de trabalho em empresas, fora do Brasil sim. Aqui ainda é incipiente”, avalia

Fez iniciação científica com Carlos Lenz Cesar, um dos poucos professores que trabalhavam com Física aplicada à Biologia. Ele estava voltando do pós-doutorado no Bell Labs e queria implantar em seu laboratório uma técnica nova, de pinças óticas, na época recém-inventada. “É uma pinça de luz feita com laser que faz a mesma coisa que uma pinça mecânica – pode prender”. No caso, as “presas” são células e micro-partículas, que podem ter suas propriedades mecânicas estudadas. “Eu adorei isso, de usar luz e laser para estudar os sistemas. Por isso fiz o mestrado, doutorado e pós-doutorado com pinças óticas e espectroscopia”, relata a cientista.

Essa ferramenta, segundo Adriana, pode mover uma célula e também medir suas propriedades. Ela desenvolveu vários trabalhos nessa vertente. Primeiro implementou uma tecnologia para medir a elasticidade das hemácias. “A elasticidade é muito importante porque a hemácia tem que levar oxigênio para os tecidos e para isso tem que passar por capilares muito menores que o seu tamanho. Se ela não for deformável, ela não desempenha bem essa função.”

Adriana explica que as hemácias são estocadas nos bancos de sangue por até 35 dias, e em sua pesquisa são analisadas essas hemácias estocadas para ver se elas ainda mantêm as propriedades elásticas preservadas. São analisadas também hemácias irradiadas. “Toda vez que uma pessoa doa sangue, uma parte é isolada e submetida à radiação gama para matar os linfócitos, porque se esse sangue for transfundido para um indivíduo imunosuprimido, ou seja, com baixa imunidade, os linfócitos do doador podem atacar o sistema imunológico do receptor, que já e fraco no caso”. Esse sangue irradiado costuma ficar estocado por 28 dias. “Pela nossa análise, porém, vimos que só deveria ser estocado por no máximo 15 dias, pois é o tempo que a elasticidade se mantém semelhante à elasticidade da hemácia não irradiada.”

Nesse sentido, de acordo com Adriana, a pinça ótica tem várias aplicações, porque ela é uma conexão entre os eventos químicos e mecânicos de uma célula. “Podemos usar a pinça para deformar uma célula e disparar um evento químico nessa célula. Por exemplo, podemos deformar uma célula óssea e assim provocar a produção de cálcio e então estudar como está a produção de cálcio. Também podemos avaliar a atuação de um fármaco na célula”, explica a pesquisadora.

Ainda em Campinas, Adriana conheceu as cientistas Patrícia Farias, Beate Santos e o Professor Ricardo Ferreira da UFPE e todos ficaram interessados num trabalho conjunto. Quando surgiu uma oportunidade no Departamento de Biofísica da UFPE, ela fez o concurso e passou. Hoje formam um grupo que desenvolve uma nova linha de pesquisa, complementar à já citada, envolvendo a síntese de nanopartículas fluorescentes - pontos quânticos - que podem ser utilizadas como marcadores celulares. “Tanto as pinças óticas como os pontos quânticos podem ser aplicados à pesquisa sobre leucemias, ora para a diferenciação das células normais das células neoplásicas ora na diferenciação das células dos subtipos mais comuns de leucemia, além de terem outras aplicações.”

A transferência de Campinas para Recife foi facilitada pelo fato de, embora casada, Adriana ainda não ter filhos. O marido pôde vir junto e está terminando o doutorado. A adaptação nos primeiros meses foi um pouco difícil – a distância da família, o clima, a dificuldade de trazer seu cachorro. Depois desse problema resolvido, a situação melhorou e Adriana conseguiu se adaptar bem, hoje gosta muito da vida no Nordeste. “Poder comer frutos do mar frescos e baratos, ir à praia nos finais de semana, isso é muito bom”. Ela acha que os pesquisadores de outras regiões do país tem uma visão das regiões Norte e Nordeste que algumas vezes não condiz com a realidade. “O Nordeste oferece muitas perspectivas para pessoas jovens que estão começando, a carreira anda mais depressa. Há também incentivo por parte de vários pesquisadores da universidade.”

Em 2008, Adriana foi contemplada com o Prêmio L'Oréal-Unesco-ABC para Jovens Mulheres Cientistas na área de Física. A pesquisa premiada utiliza a pinça para mensurar as propriedades de carga e a elasticidade dos blastos - células precursoras das células sanguíneas - em pessoas com diferentes subtipos de leucemia mielóide aguda, para tentar compreender o desenvolvimento da doença. Foi também indicada como Membro Afiliado da Academia Brasileira de Ciências, o que a surpreendeu e honrou, em suas palavras. “Essa indicação é um grande incentivo para o meu grupo e para minha vida profissional. Essa iniciativa da L'Oréal-Unesco-ABC de apoiar jovens cientistas é importante para disseminar e fortalecer a ciência em todas as regiões do país . Como indicada vou colaborar para a excelência do ensino e da pesquisa na região e para a difusão da ciência nessa área de interface entre a Física, Química e Biologia".

 

(Notícias da ABC, 30/1)
 
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Informação quântica: potencial revolucionário


História, Filosofia e Ciências em geral. Essas eram as disciplinas que o físico Daniel Felinto, nascido em Recife no ano de 1974, gostava de estudar na época do colégio. Conforme conta, a escolha por Física na graduação foi devido a maior dificuldade que tinha em aprender a matéria por si mesmo. E também porque, como ele mesmo diz, “eu tinha que escolher fazer alguma coisa”. O pernambucano de Recife observa que sempre gostou muito de tudo e que ler, especialmente divulgação científica, era algo que fazia com o maior prazer. “A gente sempre teve uma biblioteca muito grande em casa e eu vivia enfurnado nela”, lembra.

Com graduação, mestrado e doutorado em Física pela Universidade Federal de Pernambuco e pós-doutorado em 2006 pela Universidade de São Paulo e pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) nos Estados Unidos, Felinto garante que escolheu a profissão certa. “Diria para qualquer pessoa que resolver fazer Física que esse é um curso muito bonito. É, talvez, um dos cursos mais bonitos”, arrisca.

O jovem físico, que se graduou em 1996, conta que durante esse período fez três iniciações científicas, quando começou a estudar óptica, área em que trabalha atualmente. “Na época em que fui para óptica é que eu fui me definindo”, observa. Felinto conta que durante a iniciação teve contato com a física teórica e a experimental e que desde então oscila entre ambas. Por conta disso, o cientista escolheu uma área que conciliasse as duas: óptica e física atômica molecular. Dentro dela, o pernambucano trabalha em duas linhas de pesquisa: metrologia de freqüências ópticas e informação quântica. Em metrologia de freqüências ópticas, ele busca desenvolver novas técnicas para medir com extrema precisão as freqüências das transições atômicas, utilizando para isso o chamado "pente de freqüências" de um laser de femtossegundos.

“Esse pente de freqüências consiste no conjunto de todas as freqüências que compõem o laser de femtossegundos, com todas elas estabilizadas e travadas a um padrão de tempo e freqüência”, explica Daniel. O desenvolvimento desta técnica nos últimos dez anos, segundo o pesquisador, tem levado a uma verdadeira revolução na área de metrologia de tempo e freqüência. Felinto explica que como o pente de freqüências precisa ser estabilizado com relação a um relógio atômico, um segundo objetivo nessa linha é desenvolver memórias atômicas com tempos de coerência muito longos, e que sirvam tanto como relógios atômicos como também como sítios de uma futura rede quântica.

Essa área de estudo foi a mesma em que concluiu o seu doutorado. Já no pós-doutorado, Felinto resolveu optar por um setor que utilizasse “uma parte teórica mais pesada”, como diz. O setor em questão é informação quântica, que busca manipular a informação através das leis mais fundamentais da natureza. O físico explica que qualquer máquina obedece às leis da mecânica quântica. Porém, as máquinas disponíveis atualmente não processam informação da forma mais geral possível. “Isso significa que muitos problemas atuais, como a fatoração de números primos, poderiam ser resolvidos de forma bem mais eficiente caso máquinas que processassem a informação de forma geral estivessem disponíveis”, esclarece o pesquisador.

Para ilustrar o interesse neste desenvolvimento, Felinto explica que a criptografia atual – clássica – é baseada exatamente na dificuldade de fatorar números muito grandes, o que significa que as operações de segurança na internet – relativas a contas bancárias, compras on-line – têm sua segurança garantida por conta dessa dificuldade.

O pesquisador especula que com a constante evolução tecnológica é natural que em um futuro mais ou menos próximo a fatoração de números naturais de grandes dimensões seja efetuada mais facilmente, tornando esse método de criptografia pouco seguro. Ainda assim, a área de informação quântica oferece uma solução alternativa para esse problema: a criptografia quântica, onde se utiliza princípios fundamentais da mecânica quântica para a troca segura de chaves criptográficas. “Neste caso, um eventual espião que tentasse obter informação sobre o estado físico responsável por gerar a chave perturbaria tanto esse estado que ele seria imediatamente detectado. O desenvolvimento de técnicas criptografia quântica voltaria a oferecer, nesse sentido, uma garantia de segurança on-line ”, aponta Felinto.

Atualmente, Felinto se dedica à montagem de um laboratório de óptica quântica na UFPE para começar a trabalhar com redes quânticas no Brasil. Segundo ele, “essa área de informação quântica tem um potencial revolucionário, mas também é muito difícil”, argumenta. Hoje, várias técnicas de criptografia quântica já foram realizadas em laboratório e algumas já estão inclusive sendo comercializadas. Entretanto, até o momento, apenas se obtiveram resultados satisfatórios para distâncias curtas entre o emissor e o receptor. Tal fato é o que Felinto pretende mudar com suas pesquisas, desenvolvendo redes que poderiam ser usadas para comunicação quântica a grandes distâncias.

O físico conclui com um diagnóstico da faculdade de Física da UFPE, hoje . Ele afirma que não existe mais tanta evasão porque a maioria dos alunos que entram no curso realmente querem fazer Física. Na sua opinião, eles estão mais informados. Diferente do acontecia na época em que se formou, quando muitos entravam somente porque a concorrência era baixa. “No final das contas, chegavam no nível profissional sete alunos, de uma turma de 30” , lembra. Para o cientista, o problema hoje é outro: o Departamento de Física da UFPE não está preparado para receber turmas muito maiores de alunos. “Hoje, no Departamento, somos 33 professores, o que torna a gestão muito difícil, pois acabamos bastante absorvidos”, desabafa. Felinto acredita que esse seja um problema de base. “A Física dá aula para outros cursos, como a Engenharia e o índice de reprovação é alto. A universidade não tem estrutura para fazer o papel de ensino médio”, afirma.

 

(Notícias da ABC, 30/1)

 
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Instinto natural para a ciência


Desde cedo a veia de cientista já pulsava no físico Ernesto Pessoa Raposo. O pesquisador e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) lembra que uma vez, ainda criança, respondendo a sua mãe sobre o que queria ser quando crescesse, disse: “eu quero ser ‘ciencial'”. A palavra “cientista” Raposo ainda não conhecia, mas a vontade de fazer ciência já era latente no pernambucano. “Eu sabia que existia a ciência que explicava as coisas e eu queria estar ligado àquilo ao longo da minha vida”, recorda.

Nascido no Recife, com graduação, mestrado e doutorado em Física pela UFPE e pós-doutorado pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, Raposo conta que a preocupação de entender como as coisas funcionam sempre esteve presente em sua vida, desde a infância até os dias de hoje. “Ler é certamente uma maneira de descobrir muitas coisas. E livros não faltavam na minha casa”. Segundo ele, havia uma vasta biblioteca, que continha desde livros técnicos sobre arquitetura e psicologia – áreas de seu pai e sua mãe, respectivamente – até romances e poesia. “Eu morava lá dentro!”, diverte-se. Mas uma cena recorrente que ficou marcada era do seu pai lendo em uma rede com o dicionário ao lado. “Foi um exemplo a ser seguido”, relata.

Raposo sempre teve aptidão para a Matemática, Física e Química, mas no momento de escolher a carreira, ficou em dúvida: cursar Física e, segundo lhe diziam à época, “ganhar pouco dinheiro”, embora gostando do que fazia, ou cursar Engenharia Elétrica e ganhar “algum dinheiro”, sem que a rotina de engenheiro representasse para ele um atrativo significativo. O gosto pela Física, então, falou mais alto e as palestras que já tinha assistido sobre o assunto contribuíram e fizeram com que o pernambucano ingressasse, em 1987, na UFPE para cursar Física.

Atualmente, Raposo dá aulas na graduação e na pós da UFPE, e se alegra com o fato de não haver separação entre ambas, no que diz respeito a lecionar. “Ora você está ensinando a disciplina mais básica do curso, ora está na pós-graduação e isso para o professor é muito bom. Se você fica em uma disciplina só a sua vida inteira, estagna”.

Tendo atuado ainda como coordenador da graduação entre 2004 e 2006, ele destaca que conviveu diariamente com uma série de desafios e problemas que dizem respeito à graduação em Física, nos cursos de Bacharelado e Licenciatura. “A adequação das grades curriculares às necessidades específicas de cada modalidade profissional é um desafio constante e dinâmico, visto que a realidade educacional, bem como a legislação que a regulamenta, sofre contínuas mudanças”, diz Ernesto.

Ele também considera crônico o problema da evasão de estudantes, e “esforços têm sido desenvolvidos no sentido de saná-lo ou minorá-lo”. Dentre as suas causas, Ernesto considera o desconhecimento da parte de alguns estudantes da rotina de um curso de Física, a qual é fortemente baseada no trabalho diário e no aperfeiçoamento constante do domínio das técnicas matemáticas e do conhecimento da fenomenologia em Física. “Por outro lado, ao longo do curso alguns estudantes percebem que a relação de custo-benefício não lhes é gratificante, e preferem mudar para áreas com as quais possuem maior empatia”, diz o físico.

Hoje, Raposo se dedica ao estudo de três áreas principais: vidros de spin, polímeros magnéticos e problemas de otimização de busca aleatória. O cientista explica que a sua linha de estudo é plural e segue a tradição herdada de seu ex-orientador, o Acadêmico Mauricio Coutinho. “O que move o desejo de fazer ciência é achar um problema interessante e, então, se deixar atrair por esse desafio”. Desse modo, existe o contato interdisciplinar. “Você termina abordando problemas em diferentes campos da Física e até em algumas áreas que fazem a interface com a Física, como a Biologia”, ilustra o pesquisador, que define o perfil da ciência moderna como interdisciplinar. Para ele, a cooperação entre cientistas de diferentes áreas permite a troca de conhecimentos o que, por sua vez, faz com que os estudos sobre a ciência caminhem de forma mais eficiente.

Uma das áreas de interesse do cientista é a de vidros de spin, que envolve conhecimento de magnetismo e física estatística. Essa linha de pesquisa compreende o estudo de um determinado composto, formado de ferro, flúor e zinco, e a mudança de seus ordenamentos magnéticos. Raposo explica que o magnetismo do sistema muda de acordo com a proporção dos elementos, da temperatura e do campo magnético aplicado, podendo ir da situação mais saturada até o sistema sem magnetismo nenhum. “Os spins são os componentes magnéticos do sistema e, dependendo da proporção de ferro e zinco que colocamos no composto, um comportamento do tipo vidro de spin pode ser induzido”, esclarece o físico. Ele adianta que aplicação prática não existe no presente momento. “Esse é um tema que está no contexto da ciência básica, e em princípio não tem aplicação hoje. E um dos motivos para isso é a baixa temperatura em que o processo acontece. Mas eventualmente se consegue, a partir de conhecimentos básicos já adquiridos, encontrar uma aplicação”, declara.

Um outro tema de estudo de Raposo é também relacionado ao magnetismo e à Física Estatística, porém em um sistema diferente daquele de ferro e zinco, composto de cadeias – materiais unidimensionais que, apesar de muito finos, possuem uma estrutura interna em suas células unitárias. Raposo explica que essas cadeias são monômeros que se repetem periodicamente para dar origem a um polímero e que o seu estudo, baseado em técnicas de teoria de campos e grupo de renormalização, dentre outras, busca descobrir quais são os mecanismos físicos que levam à indução do magnetismo nesse composto unidimensional.

Por fim, Raposo aborda ainda uma linha de estudo que difere das anteriores, pois faz uma interface com a Biologia, uma vez que diz respeito à busca dos animais – como, por exemplo, diversas espécies de predadores marinhos - por alimentos na natureza. O físico procura estudar estratégias de busca adotadas pelo animal, de modo que esta seja a mais eficiente possível para o encontro de alimento. Os estudos teóricos analíticos e computacionais revelam que tal estratégia envolve deslocamentos longos, quando não se sabe onde os alimentos estão e deslocamentos curtos na situação contrária, além do cálculo da sua eficiência, avaliada pela capacidade de encontrar o máximo possível de alimentos em menos tempo ou em uma trajetória curta. “A trajetória mais eficiente é aquela que combina pequenos e longos deslocamentos. Então, definindo uma função associada à probabilidade de se dar um deslocamento de tamanho L, deve-se perguntar qual, ou quais, dentre as infinitas funções matemáticas possíveis, é aquela que leva ao melhor retorno em termos de nutrientes”, esclarece o professor.

A aplicação prática vem da tentativa de generalizar a questão e transformá-la em um problema geral de busca, a chamada busca aleatória. “Se eu não sei onde está o objeto a ser procurado, qual a melhor estratégia que eu devo adotar para encontrá-lo?”, ilustra Raposo. Segundo o físico, o objeto em questão pode ser desde a chave de casa, até um defeito em uma linha de produção dentro de uma indústria. “No caso da chave, o que eu devo fazer? Os nossos resultados teóricos, de alternância entre muitos deslocamentos curtos e raros deslocamentos longos, nesse caso se traduzem da seguinte forma: é de fato mais eficiente alternar uma busca relativamente detalhada dentro do quarto com a procura em outras partes, como a sala, em vez de ficar procurando somente no quarto de maneira extremamente detalhada. Essa, talvez, seja a estratégia mais eficiente”, exemplifica.

 

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“As ciências estão sempre próximas e separadas”

Nascido em 1974, filho de um comerciante e uma professora universitária, o matemático Jorge Herbert Soares de Lira teve contato com os livros desde a infância. “Havia coleções de livros lá em casa e eu gostava de folheá-los ao acaso. Isso me levou a começar a ler”. A intimidade com a leitura, como conta, fez nascer no paraibano de Cajazeiras o gosto pelos estudos. Sorte ou destino, o fato é que uma contingência física também contribuiu para que o matemático preferisse a leitura a outros lazeres. “Sou míope desde pequeno, o que dificultava brincar de bola e outros jogos mais movimentados quando criança”, lembra Lira.

Porém, a Matemática não foi a disciplina que chamou a atenção do cientista logo de início. Conforme conta, Lira tinha interesse em Filosofia que, por sinal, foi a matéria responsável pelas escolhas seguintes do matemático. “Eu comecei a estudar esta área, depois Filosofia da Ciência e, a seguir, Lógica que, de fato, me estimulou o gosto pelo pensamento formal. Daí eu fui para a Matemática e não saí mais”, relata.

Com graduação em Matemática pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), mestrado e doutorado no mesmo setor pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e pós-doutorado pela Université François Rabelais , na França, Lira explica que a sua área de estudos, atualmente, é a Geometria Diferencial que, segundo ele, é uma generalização drástica do que se vê no colégio. O matemático esclarece que na Geometria Elementar – do ensino médio – as figuras são trabalhadas em duas e três dimensões e sempre são formadas por retas ou círculos, como cones, prismas e cilindros. Já a Geometria Diferencial combina superfícies radicalmente curvas, aproximadamente esféricas e planas, tal como em um relevo, com planícies e planaltos. E é, justamente, essa aproximação que é calculada na Geometria Diferencial. “Estudamos equações que medem o quanto uma superfície na natureza deixa de ser plana”, esclarece.

A importância desse cálculo, conforme explica, é possibilitar a produção de estruturas perfeitas da forma mais econômica possível. “Desejamos adaptar um contorno a uma superfície que seja de menor área para que o gasto de material seja mínimo. Para isso, utiliza-se a Geometria Diferencial”, exemplifica. O cientista acentua que as chamadas “superfícies mínimas” são empregadas em diversos locais, como nas estruturas arquitetônicas ou em formas da natureza. “os padrões geométricos na natureza e nas engenharias obedecem todos ao princípio da economia. Elas não são desenhadas por acaso, mas tendem a acomodar-se a forma mais perfeita”, observa.

Lira explica que essa é a fonte de partida concreta e visível para a Geometria. Os matemáticos se valem das formas concretas, de duas e três dimensões, e generalizam, estendendo problemas geométricos para n dimensões. Segundo o cientista, daí em diante a figura fica abstrata e não é mais possível visualizá-la, exceto por equações que possibilitam que o matemático construa a figura mentalmente. “Não visualizamos em dimensões altas, mas temos pistas destas realidades superiores, de que enxergamos apenas pedacinhos. Algo metafísico, mas estritamente baseado em raciocínio lógico”, arremata.

Segundo o matemático, a área da Geometria é muito interessante e complexa por ser interdisciplinar, se apoiar em inúmeros pilares e necessitar do auxílio de diversas disciplinas. “Nós utilizamos ferramentas de Física, Álgebra, Análise e Topologia”, complementa. Na opinião do pesquisador, a Geometria promove uma nova visão, que ao ser incorporada, modifica a Matemática. “O conhecimento da área não foi criado magicamente, como sugere uma visão romântica dos gênios. Partindo de inovações seminais e teorias cada vez mais complexas, os pesquisadores acumulam os resultados e publicam os trabalhos em revistas especializadas. É um campo que exige muito esforço e trabalho”, acentua.

Para o professor, a interação da matemática com outros setores é como a linguagem das ruas do Nordeste, que possui uma mesma essência, mas sofre diversas modificações. “As ciências estão sempre próximas e separadas. Há um caso clássico de uma estrutura que foi descoberta na Geometria através de um estudo matemático e abstrato. Na mesma época, a Física se deparou com algo semelhante que foi observado de forma experimental um pouco mais tarde. Aparentemente, as descobertas não tinham nada a ver uma com a outra. Mais tarde, a ciência concluiu que se tratava da mesma coisa”, exemplifica Lira.

De acordo com o pesquisador, existe uma parcela ainda ínfima de pessoas que desejam estudar a Matemática. “Muitos entram na área porque precisam se licenciar e usam o curso como atalho para outro de maior competitividade. Esta realidade é fruto da falta de informação e de divulgação científicas”, lamenta. Na percepção de Lira, exceções são alguns alunos de graduação que participaram de olimpíadas científicas, motivados pela visão da Matemática como uma fonte de problemas e estimulados por competições. “Esses estudantes gostam de solucionar problemas e querem cursar este campo da ciência”, ressalta.

Entretanto, corrigir a visão de que a Matemática é uma matéria que estuda apenas a resolução de enigmas é um dilema apontado por Lira. “Apesar das olimpíadas serem essenciais e construtivas, são apenas uma etapa na direção de uma percepção completa da disciplina”, alerta. O cientista afirma que a competição, além de fomentar a procura pela Matemática, gera oportunidades e oferece ao aluno uma análise complexa das diferentes áreas do conhecimento. Segundo ele, após os certames, muitos participantes são procurados para áreas como Economia ou Engenharia.

Além de uma área de pesquisa, “a Matemática produz um diálogo com as próprias leis do pensamento e trabalha com a linguagem interna da mente. É um contato tão íntimo com o aparelho mental que possibilita o reconhecimento prévio de estruturas e padrões”, finaliza o professor, que constrói uma imagem poética dos números e incentiva a divulgação da ciência.

 

(Notícias da ABC, 30/1)
 
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Atrair bons alunos para a Matemática é um desafio


Nascido em Maceió no ano de 1979, Krerley Oliveira é filho de mãe educadora e pai eletricista. Cresceu no subúrbio e cursou o ensino fundamental no Colégio Fantástico, quando lia muitas revistas de divulgação científica e pretendia fazer Engenharia Elétrica. Queria desenvolver, elaborar, inventar alguma coisa. Porém, ao entrar no ensino médio do Cefet, conheceu um grupo de alunos que estudava Matemática fora do horário das aulas com um professor doutor da universidade, Edmilson Pontes. Quando tomou contato com a Matemática de nível mais sofisticado apresentada pelo Prof. Edmilson, Krerley descobriu um novo mundo e decidiu que era isso que queria fazer.

“O Prof. Edmilson pegava os alunos do 1º ano do Cefet e ensinava a matemática da universidade. Ele treinava a gente para as Olimpíadas de Matemática. Participei de várias – ganhei medalhas na Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM) e na Iberoamericana Universitária”. Krerley leva muita fé nesse projeto de Olimpíadas. “As Olimpíadas não servem apenas para descobrir talentos. O aluno fraco, quando vai participar, se motiva para estudar e consegue aprender mais, mesmo que não ganhe nada. Só o treinamento já vale muito, ele passa a dar outra importância para a Matemática. Acho que as Olimpíadas estão mudando a cara do ensino de matemática no ensino médio. Cresceu muito numericamente, agora precisa crescer qualitativamente”, avalia o pesquisador.

No final do 2 o ano do ensino médio, Krerley foi para o IMPA para fazer o programa de verão com 16 anos, onde obteve uma bolsa de iniciação científica do CNPq, sob orientação do Acadêmico Hilário Alencar. Queria seguir logo o mestrado, mas foi estimulado pelo Acadêmico do IMPA Elon Lages Lima a voltar para Maceió e terminar o ensino médio. Ingressou como bolsista de mestrado no IMPA aos 17 anos sob a orientação do Prof. Elon e aos 19 anos como bolsista de doutorado, defendendo sua tese sob a orientação do Acadêmico Marcelo Viana. “Fui para o IMPA fazer mestrado sem ter a graduação, que cursei junto com o mestrado. Acabei o mestrado primeiro, mas não podia obter o título porque não tinha a graduação ainda. Com isso comecei o doutorado sem o título de graduação nem de mestre.”

Com o tempo, tudo isso se regularizou. Krerley conta que sempre quis voltar para Maceió, com a intenção deliberada de desenvolver a Matemática na sua região. Desde os 23 anos é Professor Adjunto do Instituto de Matemática da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), onde fundou com um grupo a Olimpíada Alagoana de Matemática - que hoje está no 6 o ano, envolve 60 escolas e 5.000 alunos - e várias outras atividades voltadas para a descoberta e motivação de novos talentos. Publicou vários artigos e um livro na área de sistemas dinâmicos, sobre os quais tem proferido palestras nas principais reuniões científicas na sua área, em diversos países como Estados Unidos, Inglaterra, França, Itália, Portugal, Chile e Uruguai.

Embora jovem, Krerley já tem extensa experiência de ensino no nível básico, através de seu trabalho nas Olimpíadas de Matemática, e foi um dos fundadores do Programa de Pós-graduação em Matemática da UFAL, em 2004. Em 2009, pretendem abrir um doutorado. “Mas nada foi fácil nem de mão beijada. Quando cheguei em Maceió passei dois meses sem computador. Depois arranjei um computador que travava sete vezes por dia. Aos poucos fui conseguindo apoio do CNPq, Capes e mesmo do IMPA e isso mudou o nível do trabalho e a cara do departamento.”

Atrair bons alunos para a Matemática é difícil. Para Krerley, esse investimento tem que começar no ensino médio, antes deles se inscreverem no vestibular. “Mas temos uma carência grande de professores de Matemática, falta quem explique aos alunos o que mais ele pode fazer no mercado se cursar Matemática”. Essa captação de bons alunos, em sua opinião, é papel do professor de Matemática do ensino médio e também do professor universitário, que deveria ir às escolas apresentar a carreira aos pré-vestibulandos. “A Matemática possibilita a entrada na docência, mas também é ferramenta para fazer diversas outras coisas. Tenho um ex-aluno que fez iniciação científica  em Matemática e hoje trabalha como engenheiro de petróleo, resolvendo problemas desta área com a experiência matemática que adquiriu.”

De acordo com as observações de Krerley, o aluno que se torna professor de Matemática geralmente é aquele que vem da escola pública e precisa trabalhar para se manter. “Como o mercado tem poucos professores de ensino básico ele ainda consegue se colocar rapidamente, mas o trabalho é tanto que o absorve totalmente e ele passa a não tem tempo para se qualificar”.

Ele diz que, infelizmente, há uma escassez de bolsas para alunos de licenciatura, daí a importância das novas bolsas de estímulo à docência e de iniciação científica. "Desta maneira o estudante carente da licenciatura estará mais motivado, podendo se preparar melhor e eventualmente cursar uma pós-graduação. É um investimento pequeno, visto que esse profissional ensinará nossas crianças por pelo menos 35 anos". O que o impressiona o cientista é que não faltam formandos de Matemática. “Mas eles não vão dar aulas, procuram outras oportunidades mais bem remuneradas ou, principalmente, que dêem mais status . Entre ser professor de Matemática no ensino básico ou ser funcionário da Petrobras, mesmo que seja num cargo pra bater carimbo, ganha a segunda opção.”

Krerley estuda sistemas dinâmicos, uma área que coleciona ferramentas para tratar processos complexos, do ponto de vista matemático. Esses processos vêm de equações que tem relações com fenômenos físicos, biológicos, químicos e o eixo dos sistemas dinâmicos do ponto de vista matemático tenta abordar esses problemas de uma maneira mais abstrata, mais geral. “A área que eu estudo, a teoria ergódica, acrescenta a probabilidade no estudo dos sistemas dinâmicos. Aplicações de matemática em geral são impactantes. Quando elas têm aplicação imediata causam impacto positivo em outras áreas. Como o modelo de Lorenz – a borboleta – sobre o clima, que teve uma repercussão enorme na época. Alimenta outras áreas com idéias e vice-versa.”

Mas sua fascinação pela Matemática não está na sua aplicabilidade e sim no desafio, presente aliás em tudo em que Krerley se envolve, como por exemplo o thriatlon, que pratica há anos e que o ajuda a obter disciplina. “Minha competição é comigo mesmo. No esporte faço provas de ironman, que são 4km de natação, 180 de ciclismo e 42km de corrida. Meu objetivo é melhorar meu tempo, tem gente que faz entre 9 e 16hs. Meu último tempo foi 10h59'56”. Tenho dois filhos também, um hoje com dois anos e outro com seis meses. Agora eles é que estão me apresentando novos desafios.”

 

(Notícias da ABC, 30/1)
 
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Fortalecendo a ciência nordestina


Lucas Ferreira sempre foi apaixonado pela Matemática. O baiano, que nasceu em Salvador, em 1977, é filho de uma professora de matemática e de um engenheiro civil. “Quando eu era adolescente, participei de três Olimpíadas de Matemática. No total, ganhei uma Menção Honrosa na brasileira e duas medalhas de ouro e uma de bronze na baiana ”, comenta .

Na hora do vestibular, apesar do talento óbvio, o cientista decidiu cursar Engenharia, por pressão familiar. Formado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), em 1999, seguiu seu interesse natural na pós-graduação, concluindo o mestrado em 2002 e o doutorado em 2005 - em Matemática - pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em São Paulo.

Professor e pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) desde 2006, o matemático assegura que a formação em Engenharia contribuiu para o seu raciocínio físico sobre os problemas. “O contato prévio com diversos tipos de modelos físicos ajuda no entendimento da parte física das equações”, justifica. Entre 2005 e 2006, o cientista realizou o pós-doutorado na Universidade Autônoma de Barcelona (UAB), na Espanha, onde se especializou nas áreas de Equações Diferenciais Parciais e em Mecânica dos Fluídos através de uma bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Em busca de uma boa infraestrutura, Ferreira decidiu morar em Recife, Pernambuco. “O departamento de Matemática da UFPE é tradicional e estruturado. Eu tive que encontrar um lugar que estivesse de acordo com a minha origem nordestina e que, ao mesmo tempo, me possibilitasse um amadurecimento profissional”, justifica.

Seu objeto de pesquisa, as equações diferenciais parciais, são empregadas para modelar e resolver problemas físicos como comportamento de fluidos, concentração e temperatura de substâncias, distribuição de carga elétrica, propagação de ondas e etc. Sua linha de pesquisa estuda as soluções para vários tipos de modelos, analisando, por exemplo, questões como existência, auto-similaridade e comportamento assintótico. Ferreira esclarece que quando o matemático faz uma descrição matemática de alguma propriedade de um sistema físico, ajuda outros profissionais que possuem apenas indícios deste funcionamento através do trabalho prático e experimental. “O estudo possui um caráter essencialmente teórico, mas, em alguns resultados é possível captar uma luz de aplicação que funciona mais como um conforto teórico para quem trabalha com pesquisas práticas”, explica.

O cientista, que gosta de todas as áreas da Matemática, lamenta a obrigação de ter que se especializar em apenas uma área e afirma que tem como um dos seus hobbies o estudo dos outros campos da ciência. “Estou sempre em busca da expansão dos limites, querendo ir além. A pesquisa é muito envolvente e densa, por isso é um pouco difícil fazer uma grande mudança de área na pesquisa. O que eu vejo são as interseções”, esclarece.

Atento a formação de recursos humanos, os primeiros estudantes de mestrado e doutorado do professor defenderam as suas teses no ano passado. “A orientação é um instrumento essencial para gerar novos colaboradores, o que é muito bom para o próprio orientador e a Matemática em geral”, ressalta o pesquisador, que tem hoje um aluno de doutorado.

Ferreira conta que deseja trabalhar com Olimpíadas de Matemática no futuro e que ainda não foi nesta direção, por estar muito envolvido com a pesquisa e outras atividades no Departamento de Matemática da UFPE. “Gostaria de dar aula em cursos voltados para a competição. Esta é uma oportunidade fundamental para os estudantes do ensino médio que serão os futuros talentos da área. Em breve, espero dar a minha contribuição”, comenta.

Indicado para Membro Afiliado da Academia Brasileira de Ciências em 2008, o matemático conta que ficou muito honrado com esta indicação, que auxilia na projeção da carreira e possibilita o contato com cientistas experientes. “São pesquisadores que possuem tradição na ciência e um amplo currículo”, acrescenta. A indicação para a Academia pegou Ferreira de surpresa porque ele ainda não conhecia a nova categoria para jovens cientistas. “É um reconhecimento importante que estimula o pesquisador a continuar o seu trabalho que, às vezes, é muito duro”, finaliza o professor, que se orgulha da sua origem e em contribuir para o fortalecimento da ciência nordestina.

 

(Notícias da ABC, 30/1)

 
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"Cada ciência pensa os objetos de uma forma própria"


versão atualizada

Roberto Moreno nasceu em Ibirapitanga, no interior da Bahia, em 1970. O pesquisador conta que foi o marido de uma tia que estimulou o seu interesse pelos estudos. “Ele era coronel da Polícia Militar e gostava muito de ler. Me ensinou a tocar instrumentos musicais quando eu era criança e até quis montar um laboratório para mim. Foi a partir dos seus livros sobre dinossauros que comecei a tomar gosto pela ciência”, recorda. Moreno bacharelou-se em Química Industrial na Universidade Federal da Bahia (UFBA) em 1996 e completou o mestrado em Física pela mesma universidade, em 1998. “Entrei em contato com a Química na escola e mais tarde descobri que a abordagem com que eu gostaria de trabalhar não era tratada usualmente na Química, por isso comecei a migrar para a Física”, conta o pesquisador.

O cientista relata que o seu primeiro tema de interesse na Física foi o confinamento espacial. “Era um assunto muito mais matemático do que químico”. Moreno acredita que a formação de químico contribuiu para uma melhor capacidade de análise dos problemas da área e afirma que a especialização em Física é complementar, pelo fato de auxiliar na resolução das questões ligadas á estrutura da matéria. “Cada campo da ciência possui uma forma própria de pensar e de lidar com os objetos de análise. É claro que uma área depende da outra. Por exemplo, a Física trata dos problemas dos corpos celestes, da estrutura da matéria e das partículas através de leis fundamentais. A Matemática oferece um formalismo para a realização desses estudos”, complementa.

Durante a graduação, o pesquisador, que sempre foi fascinado pela estrutura da matéria, realizou trabalhos de iniciação científica no Instituto de Física da UFBA, como bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). No mestrado, a dissertação de Moreno foi sobre a geração de um método para estudar os efeitos do confinamento espacial de átomos multieletrônicos. Na mesma época, participou do Programa de Cooperação Interuniversitário Brasil-Espanha, onde estudou química quântica, por dois meses, na Universidade de Vigo, no município espanhol de Pontevedra. Posteriormente, através do Projeto de Colaboração Brasil-Alemanha, estagiou no Max Planck Institut, na cidade alemã de Mainz, durante o segundo ano do doutorado em Física, que completou na Universidade de São Paulo (USP). Concluiu o pós-doutorado em Física, em 2004, também na USP.

Indicado para Membro Afiliado da Academia Brasileira de Ciências em 2007 e Professor da UFBA desde 2004, seus três principais temas de interesse atualmente são a simulação computacional atomística; a estrutura eletrônica de agregados e líquidos moleculares; e estados eletrônicos de nanoestruturas moleculares. Membro Regular da Sociedade Brasileira de Física e da American Chemical Society, Moreno acredita que as perspectivas específicas dos campos científicos originaram as bifurcações e as separações dos conhecimentos gerais da ciência. “Os conceitos da Química contêm informações que o físico vai descobrir através de outros caminhos e métodos”, exemplifica.

Para Moreno, a ciência é como um quebra-cabeça da vida que possui diferentes peças, representadas pelos setores distintos do conhecimento. Apesar de cada campo científico possuir um foco determinado, o mundo é composto por um sistema integrado que une a sabedoria de cada campo da ciência com o objetivo de gerar uma rede unificada. “Para a Biologia, os inúmeros átomos da célula são organelas que possuem uma certa funcionalidade e compõem um grande sistema que tem leis próprias de comportamento. Mas, se o cientista fizer uma decomposição celular, ele vai entrar em contato com as proteínas, que são compostas por átomos e que por sua vez obedecem às leis físicas... O conhecimento é transmitido dessa forma, daí em diante. O problema da reconstituição geral da natureza é a impossibilidade da Matemática, que possui obstáculos e não oferece todas as ferramentas necessárias para a solução dos mistérios da vida”, acentua Moreno.

egundo o cientista, existem elementos específicos das áreas da ciência que não conseguem ser traduzidos ou descritos para os profissionais de outros campos científicos. “Ter graduação em Química e especialização em Física me ajudou muito a construir essa visão mais geral. As informações que representam a essência de cada estudo não podem ser fundidas. É esse fator que caracteriza e demarca os setores variados do conhecimento”, destaca. De acordo com Moreno, toda ciência possui um caráter humanizado. “A Matemática não possui vida própria, não é um conhecimento monstruoso que se desenvolveu sozinho. Alguém está por trás do seu desenvolvimento e esse alguém é o homem. É impossível desvincular o componente humano do pensamento racional”, finaliza o pesquisador, que reconhece a importância da diversidade do conhecimento para a integração universal da ciência.

 
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“É bonito trabalhar onde se é mais necessário”


Valfredo Azevedo Lemos nasceu em Salvador, Bahia, no ano de 1973. Quando pequeno, gostava “daquelas coisas bem básicas de ciência, como o carocinho de feijão plantado no algodão, o alpiste também”. Teve bons professores do ensino básico, alguns foram fundamentais na sua motivação para a ciência.“Aquelas classificações: vertebrados, invertebrados, peixes, moluscos, crustáceos, eu amava aquilo”, conta Valfredo. Quando começaram as aulas de Química, aí foi paixão total, segundo ele. Entrou para a escola técnica de Química, o atual Cefet, e quando terminou foi trabalhar como técnico na indústria e fez um estágio em um hospital, trabalhando com a ciência da saúde. Fazia o monitoramento de saúde dos trabalhadores do pólo petroquímico – análise de sangue, urina, água.

Passou no vestibular de Química para a Universidade Federal da Bahia (UFBA), e cursou a graduação trabalhando. “Não era moleza porque eu trabalhava seis horas diárias e estudava durante o dia. Mas tive muita sorte em alguns detalhes, conseguia organizar os horários do trabalho de acordo com os horários das disciplinas”. Mas os colegas da graduação já estavam envolvidos com pesquisas de iniciação científica, passando muito tempo na universidade. “Eu não. Eu ia, assistia às aulas e ia embora trabalhar. Então tive que fazer uma escolha: deixei o emprego com carteira assinada e consegui uma bolsa de iniciação científica do CNPq, para ganhar três vezes menos do que o emprego, mas sabia que estava no caminho certo.”

Em 1996, graduou-se Bacharel em Química, pela UFBA. Um ano depois, obteve o título de Mestre em Química, pela mesma universidade. Na época do mestrado se casou e logo teve um filho, mantinha a família com a bolsa de estudos. No ano 2000, prestou concurso para Professor assistente na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), passando em primeiro lugar. Atualmente, é Professor Titular nesta instituição, no campus de Jequié. “Já haviam aparecido alguns concursos, mas eu ainda tinha aquela resistência em trabalhar no interior. É tão importante e tão bonito você fazer esse trabalho de ir para onde é necessário, e hoje eu vejo que foi uma coisa que influenciou positivamente a minha carreira”. Doutorou-se em Química Analítica pela UFBA em 2001, tendo como orientador o Prof. Dr. Sérgio Luís Costa Ferreira.

Em 2002, criou com seu grupo de pesquisa o Laboratório de Química Analítica, que integra químicos de Jequié, Itapetinga e Vitória da Conquista. E m 2004 coordenou o projeto de implantação do Programa de Pós-Graduação em Química da UESB, recomendado pela Capes em 2005. É vice-presidente da Regional Bahia da Sociedade Brasileira de Química (SBQ) e vice-coordenador da Câmara de Assessoramento Técnico-Científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb). Em agosto de 2008, foi indicado como Membro Afiliado da Academia Brasileira de Ciências.

Valfredo diz que obteve várias oportunidades justamente por estar no interior da Bahia, que é uma região relativamente carente de recursos. “Pelo lado coletivo estou dando minha contribuição, e pelo lado pessoal sinto que tenho tido mais oportunidades, crescido mais depressa. Numa cidade grande é muito difícil você somar alguma coisa, no interior você multiplica”. Valfredo conta que tem alunos nascidos na região que já terminaram o mestrado, criado por seu grupo em 2005, e estão saindo para fazer o doutorado fora.

Há oito anos ele vai a Salvador a cada duas semanas ver a família, mas sua residência é em Jequié. “Porque se eu não pensasse assim eu não teria identidade em nenhum dos dois lugares, não criaria vínculos”. A vida na cidade pequena, no entanto, não é fácil. Jequié é uma cidade muito quente e tem poucas opções de lazer. “O jeito é trabalhar, trabalhar e trabalhar...”

O foco de tanto trabalho é a análise de traços e Química ambiental. “Identificamos elementos, como metais, em diversos tipos de amostras”, explica o cientista. As aplicações são inúmeras. Se alguém compra um sítio e quer saber se a água do poço é potável, se é mineral ou se está contaminada; se um alimento é cultivado com pesticida e sofre poluição na auto-estrada, de indústrias ou de chuva ácida e o agricultor quer saber como está a qualidade do seu produto; se uma mineradora que lida com metais quer fazer um monitoramento da contaminação dos trabalhadores, ou do nível de poluição, “nós vamos lá, fazemos as medições e determinamos aquilo que é requerido”, explica Valfredo.

O seu trabalho é exatamente desenvolver novas técnicas para a realização dessas avaliações. Utilizam a espectroscopia eletrônica e vários outros métodos que melhoram o desempenho da técnica. “O que eu acho interessante no nosso trabalho é a aplicabilidade. Pode ser útil em alimentos, em ambiente, em saúde, em perícia. Isso tem nos ajudado nos editais e nos financiamentos”. A criação da Fabesb, em 2001, tem ajudado muito os programas do interior, segundo Valfredo.

Valfredo diz que seu laboratório atrai muitos alunos, “a pesquisa para eles ainda é novidade, tenho inclusive vários alunos que são voluntários, porque não tem bolsa para todo mundo”. Mesmo formado em Química Analítica, que é uma disciplina já de fim de curso, Valfredo dá aula de Química Geral, que é a primeira disciplina. “É muito bom! Eu gosto de trabalhar com calouros, a universidade para eles é um mundo diferente. Eu acho que os professores universitários deveriam ter mais penetração nos cursos nas ciências do ensino médio, os estudantes entram muito desinformados nas universidades e essa conscientização é responsabilidade do ensino médio”.

Ele diz que pouquíssimos candidatos ao vestibular escolhem as áreas das ciências e que não acredita que existam tão poucas pessoas qualificadas para a ciência, “os alunos do ensino médio não têm muita informação sobre as áreas científicas. Isso gera um problema social e econômico gravíssimo: como é que a ciência brasileira vai evoluir?”

Valfredo avalia que essa desinformação prejudica outras carreiras também, porque muitos jovens mergulham em algumas profissões para as quais não têm qualquer vocação, somente pela ilusão de que vão ganhar muito dinheiro. “E que profissionais serão esses, quando caírem na realidade?”, pergunta o pesquisador, que acha que informação profissional tinha que fazer parte do currículo de muitas escolas.

O químico também avalia que um grande problema é a qualificação e a valorização do professor do ensino médio. “Esses professores subdimensionam seu papel social, eles têm muito poder sobre o aluno em termos da informação e do exemplo que podem passar. É claro que não dá para salvar o mundo, mas, de grão em grão, se puder salvar um jovem da marginalidade e motivá-lo para o caminho da ciência já é um grande adianto. O efeito é multiplicador.”

 

(Notícias da ABC, 30/1)

 
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Por quê? Por quê? Por quê?


Sua paixão por ciência vem desde criança. Eduardo Teixeira ficava horas conversando com o pai sobre ciência, aprendendo a fazer contas. Nascido em São Paulo, em 1976, Eduardo era conhecido no maternal pelos colegas e professoras como “o astronauta”. Ele se lembra vivamente da primeira vez que foi a um planetário com cinco anos. “Fiquei tão maravilhado com as possibilidades de explorar a natureza que não consegui dormir a noite... nem os meus pais, pois passei a noite bombardeando-os de perguntas como o que havia antes da criação do universo, de onde viemos, por quê, por quê, por quê...”

Na época o pai, formado em engenharia, trabalhava como representante comercial. A mãe deixou de trabalhar para educar os filhos, e hoje faz doutorado em Matemática em uma prestigiosa universidade americana. Até a sétima série, Eduardo era um aluno regular, que “ficava de recuperação” algumas vezes. Era disperso e não tinha motivação para se dedicar aos estudos.

Ao entrar no ensino médio, porém, deu um salto qualitativo nas notas em geral. Não por acaso, a mudança ocorreu quando se envolveu nas Olimpíadas de Matemática. “No final do terceiro ano, estava convicto de que deveria seguir carreira científica”, conta o matemático. Vítima do seu próprio preconceito, como ele mesmo diz, resolveu fazer vestibular para Engenharia Elétrica, que cursou por dois anos, concomitantemente com um curso de computação. Abandonou ambos, porém, para fazer o Bacharelado em Matemática na Universidade Federal do Ceará (UFC), concluído em 1999.

No primeiro semestre foi agraciado com uma bolsa de iniciação científica, que manteve até a conclusão do curso. Neste período conheceu outra aluna do Bacharelado, Katiuscia Costa Barros, com quem se casou, em 2001. Ingressaram juntos no mestrado na mesma universidade e assim que concluíram embarcaram para Austin, no Texas, aonde passaram os quatro anos seguintes, ele cursando doutorado em Matemática - orientado pelo renomado Prof. Luis Caffarelli - e ela fazendo outro mestrado, em Matemática Financeira. Em 2008, ele completou um Pós-doutorado pela Rutgers - The State University of New Jersey, também nos Estados Unidos, onde atua como Professor visitante. No Brasil, é Professor adjunto da UFC desde 2006.

Sua principal área de atuação científica abrange as equações diferenciais parciais (EDP), que segundo Eduardo é a principal linguagem com que lemos a natureza. “Qualquer reação química, fenômenos da mecânica clássica ou quântica, problemas industriais e até comportamentos socioeconômicos podem ser modelados matematicamente através das EDP”, diz o pesquisador.

Quanto a sua indicação para a Academia, Eduardo confessa que ficou surpreso e muito contente. “Ser membro da ABC é a maior distinção que um cientista atuando no Brasil pode sonhar. A Matemática brasileira tem dado saltos qualitativos significativos nas últimas décadas.Tornar-me Membro Afiliado da ABC é uma motivação a mais para continuar meus estudos, é uma consagração: valeu a pena investir na carreira de cientista!”

 

(a partir de entrevista por e-mail para as Notícias da ABC, 30/1)
 
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